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Entries by tag: fotos

birthday boy
rosas
innersmile


Fiz hoje 57 anos. Durante o último ano, foram vezes demais aquelas em que pensei que não chegaria a este dia. Mas não sinto que ter chegado aqui tenha sido vitorioso. Não me consigo sentir feliz, tenho a alma demasiado pesada com preocupação e angústia pelo mais que possa acontecer. E já esta semana que se aproxima traz-me mais motivos de preocupação.

Mas o dia de hoje correu bem,e depressa. Estive bem disposto e tranquilo. Tive muitos telefonemas, todos me souberam muito bem, e recebi imensas mensagens. Encomendei o almoço, um belo caril de gambas a fazer-me lembrar outros caris da minha vida, e tive a melhor companhia que poderia desejar. À tarde tive visitas, e até o meu gato me veio visitar, apesar de parecer que está amuado comigo e não me ter ligado nenhuma. Mas eu amo-o na mesma.

Tive ainda um bolo, que foi o meu bolo de aniversário, e que foi especial, primeiro porque estava óptimo, e principalmente porque foi feito por uma senhora com 92 anos, num acto de generosidade que me comoveu.

same old same old
rosas
innersmile


Tinha pensado escrever uma espécie de balanço do que foi o ano de 2018, um verdadeiro annus horribilis, passado quase todo no hospital, com três intervenções cirúrgicas, duas delas major, e vários episódios de infecções bacterianas, alguns deles por bactérias hospitalares, muito resistentes, que só cedem a antibióticos muito agressivos. Cheguei ao fim do ano com um rim único, sem bexiga, e com uma urostomia cutânea.

Mas no fim de semana que antecedeu o Natal, foi-me diagnosticada mais uma pielonefrite. Passei o Natal no hospital a fazer antibiótico, depois fui para casa a fazer o tratamento em ambulatorio e em hospital de dia. Na véspera de Ano Novo, senti umas dores muito fortes no peito e vim ao hospital. Fiquei internado, julgo que com uma infecção pulmonar. Tenho imensa dificuldade em respirar, e qualquer pequeno esforço me deixa ofegante. Estou a fazer tratamento com outro antibiótico, juntamente com o que já estava a fazer.

Nunca tinha tido este tipo de infecção, e estou verdadeiramente à rasca e muito desanimado. Ano Novo? Nah. Same old same old. Assim não me apetece brincar mais...

selfie
rosas
innersmile
Comecei há uns dias a sentir vontade de publicar uma selfie mostrando a minha urostomia. Acho que esta vontade resulta de vários factores. Primeiro, por uma questão de identidade. É este que eu sou agora, é esta a realidade. E mostrar uma foto da urostomia ajuda-me, porque os outros são o nosso reflexo, a assumir que este é o que eu sou agora.

Por outro lado, há já duas semanas que não tenho infecções, e nasce a esperança de que possa estar a caminho de um nova normalidade. A minha vida nunca mais vai ser como era, mas vai haver uma outra maneira de viver a vida. E faz parte deste processo de encontrar uma nova normalidade assumir que, agora, sou uma pessoa ostomizada.

Contra publicar a foto, há sobretudo uma razão de pudor. A urostomia é uma coisa íntima, e tem limites a parte da minha intimidade que estou disponível para partilhar com os outros, sejam eles amigos mais chegados, meros conhecidos ou completos estranhos. Mas pudor por vezes pode-se confundir, e estou apenas a falar por mim, com vergonha, e vergonha é o que eu não quero sentir em relação à urostomia. Aliás, já tive sentimentos de vergonha na minha vida que chegaram, não preciso de mais.

De certo modo, mostrar uma foto da minha urostomia é como sair do armário. E também por isso dizia que mostrar uma selfie não é apenas um gesto destinado aos outros, é também, e sobretudo, uma maneira de me ajudar a construir uma nova imagem de mim próprio, a minha selfie mental. Tenho de atingir um ponto em que, quando penso em mim, penso-me como uma pessoa ostomizada. Da mesma maneira que quando penso em mim, estão presentes todos os outros aspectos da minha vida que constituem a minha identidade e até a minha maneira de ser.

Claro que não consigo por uma selfie com a urostomia no Facebook, aquilo é um antro de coscuvilhice. Apetecia-me publicá-la no Instagram, mas mesmo aí ia-me sentir muito exposto. Pelo menos neste momento, pode ser que mais tarde publique. Por isso só faz sentido por a foto aqui, nesta espécie de diário aberto, um lugar que me dá, ao mesmo tempo, o aconchego da intimidade e a liberdade do anonimato.


biblioteca de alexandria
rosas
innersmile


"Quando eu tinha os meus cinco ou seis anos, disse-me que numa vida passada trabalhara na Biblioteca de Alexandria.
- E que trabalho fazias? - perguntei-lhe. Íamos de mãos dadas a caminho da escola.
- Nada de importante; limitava-me a manter tudo arrumado e limpo - respondeu, como se fosse a coisa mais natural do mundo acreditar nisso.
- Gostavas de lá trabalhar?
O seu rosto iluminou-se.
- Céus, se gostava! Podia ler todos os pergaminhos que me apetecesse e era fluente em grego e egípcio. À hora do almoço ia nadar no Mediterrâneo. Água quente, mulheres bonitas, sol, cerveja, bons livros... Eu, eu tinha tudo o que queria!"


- Richard Zimler, OS DEZ ESPELHOS DE BENJAMIN ZARCO (Porto Editora)

tacto
rosas
innersmile


as paredes afastam-se
lentamente
do lugar a que chamam lar

os olhos ainda procuram
ávidos de beleza
a cor refulgente do sol a bater nos vidros

a mão tacteia, em vão
a imponderável expressão do sono

guarda-me, ao menos, na memória dos teus sonhos
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flor do cacto
rosas
innersmile


Fiz nova cirurgia e estive perto de duas semanas no hospital. Há pouco mais de uma semana vim para casa, e desde então nem tenho posto o nariz fora da porta de casa. Hoje de manhã decidi ir lá baixo para ver o correio, e vi que o meu cacto tinha de novo dado flor.

A última vez que tinha acontecido foi há cerca de um ano, e falei disso aqui, em agosto do ano passado, e da intensa ligação emocional que me liga, por várias razões, alguma das quais nem às paredes confesso, a esta flor de cacto.

Vim para cima, peguei no telemóvel e fui fotografar a flor. Hoje descobri-lhe um certo simbolismo do que tem sido a minha vida nestes últimos tempos. A flor de cacto lá vai resistindo.

"Eu quero o amor da flor de cactus, ela não quis. Eu dei-lhe a flor de minha vida, vivo agitado. Eu já não sei se sei de tudo ou quase tudo. Eu só sei de mim, de nós, de todo o mundo." (João Ricardo, para a banda Secos & Molhados)

esperando
rosas
innersmile


Cada vez que olho para o gato comovo-me com a sua inocência, com a sua inconsciência do futuro, com o facto de ele não sofrer a angústia de saber que daqui a uns dias, estaremos separados mais uma vez.

Acho que essa ignorância faz dele um infeliz, alguém que não sabe o que está prestes a acontecer-lhe. Mas também sinto uma certa inveja dessa leveza de ser, que advém de não sabermos o que nos espera. Sinto inveja? Não sei, ou melhor, não sinto. Não me angustiar com o que me espera, não faz parte daquilo de que sou capaz.

Fui almoçar à livraria. Encontrei por acaso, e comprei de imediato, uma edição hardcover (da Penguin) do livro Walk Through Walls: A Memoir, da autoria da artista e performer Marina Abramovic.

Comecei logo a ler o primeiro capítulo, sobre a infância e a juventude de Abramovic em Belgrado, a capital da então Jugoslávia. Foi estranho. Esta leitura encheu-me de uma exaltante vontade de liberdade, muito contraditória com o meu estado de espírito. Uma contradição insanável, entre a presente falta de perspectivas e um intenso impulso criativo. Ou entre uma vontade de ir para casa, para junto do gato, um lugar onde sempre me senti livre, e a consciência de que voltar para casa é sempre um regresso à asfixiante situação actual.

Por momentos, vagos e subconscientes, tive a impressão de que estaria safo enquanto me mantivesse ali na livraria, a ler o livro da Marina Abramovic.

facas de caça
rosas
innersmile


Um dos contos de A Rapariga Que Inventou Um Sonho, o livro de Haruki Murakami que estou prestes a terminar, exemplifica bem algumas das razões pelas quais eu gosto tanto da ficção do autor. Como quase todas as 24 histórias que compõem o livro, passa-se muito pouco, as situações são quase banais, o enredo tem poucas peripécias. Nesta história, o narrador encontra-se, juntamente com a mulher, a passar férias num resort, e habituaram-se a ver um par de outros hóspedes, americanos, mãe e filho, este deslocando-se numa cadeira de rodas. Não há praticamente interacção entre os dois casais, até que, na véspera da partida, de madrugada, o narrador tem uma pequena crise de ansiedade, sai do quarto com uma garrafinha do minibar, procura uma das esplanadas dos bares do hotel, fechados àquela hora, para beber a sua bebida e relaxar um pouco. Sentado numa mesa, está o rapaz americano da cadeira de rodas, e desenrola-se entre ambos uma pequena conversa, em que um dos temas são as facas de caça, precisamente o título do conto.

Ao fim de poucas linhas, eu já estava completamente identificado com o narrador, quase como o conto se passasse comigo, e foi de tal ordem que passei a narrativa a projectar a paisagem num resort onde há uns anos, passei umas curtas férias, no Sinai. Qualquer descrição, um recanto do jardim, as esplanadas, a praia, as plataformas no mar de apoio aos banhistas, correspondia àquilo que me recordo desse hotel de que nem me lembro do nome.

Um dos aspectos que me fascinam na literatura de Murakami é como tudo é tão banal, é tão do dia a dia das pessoas, e no entanto há como que uma camada invisível, mais pressentida do que explícita, onde as coisas têm uma dimensão surreal. E é desta sobreposição entre o real e o surreal que nasce uma projecção emocional por parte do leitor. Passa-se como nos sonhos, em que o banal e o absurdo se misturam para nos ajudar a processar, não tanto os acontecimentos, mas sobretudo as emoções que dominam o nosso subconsciente.

Ainda por cima a escrita de Murakami é simples e directa, o que torna a leitura um exercício de prazer.


old photographs
rosas
innersmile


Faz hoje um mês. O tempo é implacável. Não sei se é angústia ou se é mais uma espécie de náusea, o que sinto quando penso que a vida continua, indiferente, mais ou menos na mesma, insensível, entretida com os seus pequenos dramas. Como se a tua ausência não tivesse peso. Por vezes, só parece haver sentido numa caixa de velhas fotografias.

#livinlavidaloca
rosas
innersmile


Primeira vez que conduzo em dois meses, no dia em que faz três semanas que fiz a cirurgia.

24 de julho
rosas
innersmile


Publiquei esta foto ontem no Instagram. Dois passepartouts que estão há anos em lugar central na sala da minha casa.

Hoje, 24 de julho, marca o aniversário de casamento dos meus pais, em 1954, na cidade de Lourenço Marques, feriado por ser assinalado o dia da cidade.

A foto tem tudo a ver com esse dia. No passepartout da esquerda, na fotografia a cores estamos o meu irmão e eu, e foi tirada no dia em que comemorámos as bodas de ouro desse casamento, em 2004, com um almoço ali junto à Mata de Vale de Canas. Ainda não há muito tempo fui, pela primeira vez, revisitar esse lugar. Pareceu-me, muito simbolicamente, abandonado.

A foto da direita, a preto e branco, e desfocada, é do próprio casamento. É uma foto que eu adoro, e, por ocasião de um 24 de julho qualquer, há muitos anos, roubei-a do álbum de fotografias do casamento dos meus pais para lhes oferecer de forma a poderem terem-na exposta lá em casa.

Desde quinta-feira da semana passada, destas fotografias apenas resto eu.

ways to escape
rosas
innersmile


"I felt like a rider who has dropped the reins and left the direction to his horse or like a dreamer who watches his dream unfold without power to alter its course."

- Graham Greene, WAYS OF ESCAPE (no Kindle)

maria de jesus costa
rosas
innersmile



Em 1962 assinalaram-se os 75 anos da elevação de Lourenço Marques à condição de cidade (substituiria a Ilha de Moçambique enquanto capital de Moçambique em 1898). Na altura as autoridades locais (não sei se provinciais ou apenas municipais) decidiram distribuir medalhas ao mais antigos residentes da cidade.

A minha bisavó Maria, com quem convivi nos primeiros 5 anos de vida, residia ininterruptamente na cidade desde 1896, depois de uma primeira estadia em 1894. E nunca mais dela haveria de sair, nem de férias, até ter morrido, em 1967, creio que no mês de agosto. Recebeu, por isso, uma medalha, assinalando que era residente de Lourenço Marques há mais de sessenta anos.

ar de além
rosas
innersmile


Estou a ler um livro (maravilhoso, já agora), de Miguelanxo Prado, Ardalén, que é sobre a memória e as recordações. A páginas tantas, evoca-se a infância de um velho lobo do mar, que é uma das personagens principais. Foi uma criança solitária, que folheava o Atlas Universal, sonhando com mapas e viagens. O Atlas também foi um dos meus objectos preferidos na infância e na juventude, e ainda guardo dois ou três, desses tempos. Hoje, o meu fascínio pelos mapas resulta em horas e horas de passeios pelo Google Earth.

Ao virar uma das folhas do Atlas, a prancha de Miguelanxo fixa um mapa de Madagáscar e das Ilhas Comores, onde ainda se vê, a fugir já para a margem do papel, a costa africana, e distinguem-se claramente dois nomes: Mozambique, a Ilha de Moçambique, e Baie de Conducia, a baía da Condúcia, onde ficava a Praia das Chocas da minha infância. Lugares maiores da minha memória, e que revisitei em janeiro de 2003, quando regressei pela primeira vez a Moçambique.

Mas ainda mais, é também o lugar onde o meu irmão vive actualmente, onde ele está neste preciso momento. O lugar que ele escolheu para viver, e que eu poderia ter visitado, de novo, o ano passado, quando os meus sobrinhos lá foram, se não fosse a minha condição de saúde.

São também estas as qualidades da literatura: ajudar-nos a viajar pela nossa memória, e levar-nos aos lugares que a vida tornou inacessíveis.

é mais ou menos isto
rosas
innersmile


No meio destes dias de intempérie plúmbea e furiosa, lembro-me de comermos talhadas de melancia ao pequeno-almoço: a casca de um verde forte e luminoso, as pevides negras e duras, a polpa carnuda e vermelha, doce e rija, a água a escorrer-nos pelas mãos e pelos braços. Pronto, é mais ou menos isto.

Ou um final de tarde, no meio da selva, na Guatemala. Os outros foram, na sua maioria, para as ruínas da cidade maia, para verem o pôr do sol do alto das pirâmides. Ficámos, dois ou três, na esplanada ao lado da piscina, a beber gins e a ouvir os macacos rugir como leões.

o gato
rosas
innersmile


Numa manhã de domingo de janeiro, muito fria e com um céu muito azul, o gato deitado ao sol junto à janela, preguiçoso e muito quentinho, é o meu último reduto, táctil e visual, da felicidade possível. A única coisa que, por momentos, consegue suspender o mundo lá fora.

vila viçosa
rosas
innersmile



Foram uns dias valentes longe deste diário e, melhor ainda, longe da minha vida de todos os dias. Passei a noite e o dia de Natal com duas amigas, em casa de uma delas, sempre muito descontraídos, quentinhos e animados. E a cumprir as tradições: o circo do Mónaco na televisão, e o Sound of Music na tarde do dia de Natal. Para além das comezainas, claro.

Logo a seguir ao Natal, arrancámos os três, mais uma vez para o Alentejo, onde ficámos até ao Ano Novo. Desta vez fomos para Vila Viçosa e instalámo-nos na Pousada Dom João IV, em pleno paço Ducal, no antigo Real Convento das Chagas de Cristo. A pousada é um mimo, quer em termos de património histórico e arquitectónico, quer em termos de decoração e conforto, quer, sobretudo, pela simpatia e afabilidade do pessoal. A própria localização da pousada ajuda a criar um ambiente especial, que nos transporta para fora da “vidinha”.

Depois, os dias foram passados em pequenos passeios ali à volta. Fomos a Estremoz, a Borba, ao Alandroal e a Évoramonte (com rápida passagem pelo Redondo). Aproveitámos ainda a proximidade para ir conhecer o Teatro e o Anfiteatro romanos, em Mérida, uma visita fantástica. Transportou-me para outras viagens que fiz, em especial para a visita a Bosra, no sul da Síria, que tem o teatro romano mais impressionante que conheci, ou para o teatro de taormina, na Sicília.

Fizemos ainda uma incursão a Rio de Mouro, perto de Sintra, para eu visitar a minha tia e, claro, para matar saudades do caril de camarão da Tânia, na Palhota, o melhor caril goês do mundo.

De resto, a gastronomia foi, como é habitual nestes nossos passeios, outro dos pontos de interesse. Visitámos quase todos os restaurantes de Vila Viçosa e todos eles têm nota máxima ou, pelo menos, nota alta em alguma especialidade (uma sopa de grão e massa única, como nunca tinha provado): os Cucos, o Ouro Branco, o Safari, a Taverna dos Conjurados, e o Café Restauração. Em Mérida, junto às ruínas romanas, comemos tapas, e em Evoramonte almoçámos no Emigrante, uma surpresa muito simpática. Na viagem de ida, voltámos ao Lagarteiro, em Gáfete, para matar saudades da deliciosa sopa de tomate. Fizémos ainda três refeições nos restaurantes da Pousada, uma delas a ceia de passagem de ano, seguida de festa de reveillon num dos salões da pousada.

Mas o melhor de tudo, para além da companhia, claro, é ainda a própria localidade de Vila Viçosa. Eu tinha passado por lá uma vez, há mais de vinte anos, e já tinha gostado bastante, mas agora adorei. E já nem falo na monumentalidade ligada à Casa de Bragança, que é sempre impressionante, mas a própria vila, que é muito bonita e luminosa. A grande alameda central é fantástica, encimada, num extremo, pelo castelo, e no outro, pela imponência da igreja de São Bartolomeu, os passeios adornados por laranjeiras, com lojas e cafés e outros serviços públicos, e o ponto de encontro das pessoas, em especial nas manhãs de domingo. Outra coisa de que gostei imenso é o modo como está presente na vida da cidade a memória dos seus naturais ilustres, como a Florbela Espanca, ou Bento de Jesus Caraça.

festas felizes
rosas
innersmile


"O amor torna-nos jovens, mas o mundo faz-nos velhos." (David Leavitt, ENQUANTO A INGLATERRA DORME)

Na improbabilidade de aqui vir nos próximos dias, deixo a todos os amigos e leitores que ainda persistam, os meus votos de FESTAS FELIZES. Espero que passem um NATAL tranquilo (e com coisas doces e fritas, que é o que desejo para mim), e que o futuro vos traga um ANO de 2018 com muita saúde e muitas realizações pessoais e profissionais.

família
rosas
innersmile


Desde junho que não ia ao Algarve, ver os meus sobrinhos. Ainda tive, em outubro passado, a visita da minha baby, mas desde essa altura não via o rapazinho, e é uma diferença de todo o tamanho, um bebé com um ano ou com ano e meio. Está o máximo, com uma grande destreza física, muito determinado e autónomo, bem disposto e cooperante. Adora brincar com carrinhos e está sempre a correr de um lado para o outro. É um encanto estar só a olhar para ele, e a interagir sempre que lhe apetece. No primeiro dia em que estivemos juntos, estava um pouco estranho, no segundo, numa casa que não era a dele e com muita gente à volta, estava muito metido consigo próprio, mas finalmente no último dia, estávamos só ele, a mãe e eu, então estava completamente solto, a falar pelos cotovelos, a desfiar todo o leque de gracinhas e brincadeiras. Foi a loucura.

A minha baby está muito mimalha e birrenta, mas é uma miúda muito irreverente e com imensa graça, de modo que mesmo no meio das birras, eu não conseguia deixar de lhe achar graça, sobretudo aos esforços argumentativos, com gestuário a acompanhar, para convencer os pais da razão e da justiça da birra. Gosto muito da relação que ela tem comigo, apesar de ser claro que eu venho num lugar mais abaixo da sua hierarquia afetiva, está completamente confiante, e trata-me como se eu fosse da corte dela, o que é sempre um privilégio.

Adoro o envolvimento que eu tenho com os meus sobrinhos-netos, e com os meus sobrinhos. Sinto-me muito próximo deles, se calhar como nunca estive anteriormente. Aliás, o meu sobrinho já me disse uma vez que eu tinha mais paciência e atenção para a filha dele do que tinha para ele quando era miúdo. Talvez tenha razão. Mas não é aqui o lugar, nem há necessidade alguma, para tentar perceber porquê. Mas, é engraçado, porque sinto um orgulho enorme no meu sobrinho, acho que é o sentimento mais forte que tenho em relação a ele: quando estou ao pé dele, quando saímos juntos, ou quando estamos juntos, no sofá, na sorna, sinto-me sempre muito orgulhoso dele e da sua companhia. Acho que é um homem bom, capaz e generoso, e essas são algumas das melhores qualidades que se podem ter. Seja como for, sinto-me sempre muito bem quando estou lá embaixo, com eles. Fico um bocadinho cansado, é certo, porque eles têm todos uma energia tão grande, mas sinto-me sobretudo feliz e em paz com a vida.

o teu pai
rosas
innersmile


Confesso, agora,
não sem uma ponta de vergonha ou
remorso.
Nunca percebi, como devia,
Que a falta do teu pai
e as saudades que tinhas dele,
eram a marca maior da alegria
intensa do teu amor.
A sombra que acentuava a negro
o contorno dos teus dias.

Agora percebo.
Finalmente sei do que falavas.
Embora tenha aprendido, na medida
do possível, a viver o quotidiano
da tua ausência. A tua falta,
na vida e não apenas em mim,
são a marca da alegria do meu amor.
A sombra que acentua a negro
O contorno dos meus dias.
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a sweatshirt
rosas
innersmile


Comprei a sweatshirt em Londres, há muitos anos (seguramente mais de quinze), numa loja da Gap que havia numas galerias comerciais em Oxford street. Comprei muita roupa nessa loja, a maior parte dela ainda conservo, mesmo que já não use, como um casaco de bombazine que eu adorava e que era o meu casaco das viagens . Mas as t-shirts ainda as visto, e há poucos meses, quando emagreci muito, fui recuperar um velho par de calças, que usei todo o verão. Agora já recuperei peso, e já não me servem outra vez.

A sweatshirt sempre me ficou um pouco grande, mas sempre foi a minha peça de roupa preferida para usar em casa. Nos últimos tempos degradou-se muito. Os punhos ficaram puídos, o cós com marcas dos dentes do gato, que finalmente roeu a parte da frente e fez um buraco enorme mesmo por baixo do logo.

Encomendei na loja online uma sweatshirt nova, da mesma cor e igualmente largueirona e confortável, para a substituir. Como já chegou a encomenda, já pus a sweatshirt de lado, para mandar para o lixo. Ou para fazer panos do pó, whatever, a D. Graciete amanhã logo decide o destino que lhe há-de dar. Mas detesto desfazer-me destas coisas velhas, que andaram comigo durante muitos anos. Felizmente agora há o Instagram e os blogs. Assim a sweatshirt pode ficar a pulsar na eternidade eléctrica do espaço virtual.

Como no poema de Borges, durará "mas allá de nuestro olvido".

deeper
rosas
innersmile


«(...) the deeper I have gone into my own memory the more I have realized how much in common I have with other people.»

- Paul Theroux, FRESH-AIR FIEND: TRAVEL WRITINGS 1985-2000 (no Kindle)

tout le monde est un peu fou
rosas
innersmile


Eu teria uns onze ou doze anos, estudava no ciclo preparatório, na escola Neutel de Abreu, em Nampula. Gostava muito de ler o jornal, o Notícias, de Lourenço Marques. Como o jornal era de grande formato, eu estendia-o na alcatifa da sala de visitas, entre a porta envidraçada da rua e a mesinha de centro, e era assim que o lia, esparramado no chão.

Lembro-me de ler a Coluna em Marcha, o suplemento semanal editado pelo Guilherme de Melo, dedicado aos soldados portugueses que estavam envolvidos na guerra colonial. Lembro-me de ler as notícias sobre o campeonato do mundo de Fórmula 1, um tema que me apaixonava, e que geralmente terminava com provas disputadas por carrinhos em miniatura da Matchbox, em circuitos desenhados no chão da sala de visitas e na de jantar, e cujos pilotos tinham, naturalmente, o nome dos campeões que vinham no jornal, o melhor de todos, que era o Niki Lauda, o Jackie Stewart, o Emerson Fittipaldi, e o meu preferido, o sul-africano Jody Scheckter.

Também me lembro de ler outras notícias, aquelas que me impressionavam, como o campeonato mundial de xadrez, disputado em Reiquiavique entre o Bobby Fischer e o Boris Spassky, ou sobre desastres aéreos, que exerciam sobre mim, e exercem ainda hoje, uma espécie de horror fascinante.

Nos rés do chão do prédio onde a minha mãe trabalhava, num escritório de advogados, havia, mesmo junto à porta de entrada principal, uma casa de electrodomésticos, chamada Electro-Invicta, que tinha uma excelente secção de discos. O meu pai comprava discos em grandes quantidades. Eu passava os dias entre o escritório onde a minha mãe trabalhava, a minha casa, que era perto, e a minha escola: a primária, era mesmo em frente, do outro lado da avenida, e o ciclo era uns dois ou três quarteirões adiante. Por isso também visitava muito a loja de discos, ouvia os discos, e pedia à minha mãe para me comprar, sobretudo os 45 rpm, os chamados ‘singles’.

Naquela época ouvíamos muita música. Por um lado, não havia televisão, e por isso ouvia-se muita rádio e muitos discos. Além disso, sempre me lembro de em casa dos meus pais se ouvir muita música, todos lá em casa gostávamos de música. Era por isso natural que, quando eu me deitava no chão da sala a ler o jornal estava sempre a ouvir música.

E recordo-me com uma nitidez absoluta de estar sozinho na sala, deitado no chão a ler o jornal, fascinado com uma notícia sobre a queda de um avião, e a ouvir um single que a minha mãe tinha acabado de comprar, da Maria de Rossi a cantar o tema Tout Le Monde Est Un Peu Fou. De tal modo isso foi impressivo no meu espírito de criança, que sempre que ouvia a música me assaltava a angústia excitante do acidente de avião. E até hoje, sempre que leio ou ouço ou presto atenção a uma notícia sobre um desastre aéreo, a minha jukebox mental começa a cantarolar “C’est vrai, tout le monde est un peu fou”.

Não me lembro de ter ouvido a canção desde que vim para Portugal, desde que viemos para Coimbra, apesar do 45 rpm ainda existir em casa dos meus pais. Durante muito tempo, procurei-a com regularidade, ainda que não com frequência, na internet e no YouTube, sem resultados. Há dias, finalmente, encontrei um clip com a gravação, cujo carregamento, de resto, já foi este ano, há poucos meses. É uma música simples, uma pop francesa muito fresca e saltitante, levezinha e engraçada apesar de não muito interessante do ponto de vista musical. Mas que continua a despertar em mim uma sensação única que mistura uma alegria muito solar com os abismos mais profundos.


o vácuo
rosas
innersmile


"O que você viveu é parte de você, é o que a deixou como é hoje. Existem coisas no passado que nunca vão embora, que não podem ser apagadas, para que uma parte de nós não desapareça junto. O vácuo que fica pode ser insuportável."

- Fabiula Bortolozzo, OITO MINUTOS (Index Ebooks, no Kindle)

outra casa
rosas
innersmile


Durante uma semana, a janela do meu quarto abria para um pedaço de rio, represado, onde, à tarde, os miúdos vinham dar mergulhos barulhentos, e durante a noite se ouvia o murmulho constante e suave da água a correr.

Durante uma semana, da minha janela quase tocava com a ponta dos dedos, uma nora grande e enferrujada. Uma azenha cujas pás, já quase desprovidas dos alcatruzes, nos recordavam, em perpétuo movimento, de como o passar do tempo é inexorável, tão belo quanto inútil.

Durante uma semana, a janela do meu quarto voltava para uma parede branca, quase imaculada, nove janelas a comporem abstratas geometrias, uma régua estreita a marcar a profundidade das águas, e a luz do dia a brincar ao cinema, declinando sombras e cores, lembrando, mais uma vez, que as horas passam, e passam mesmo sem nós.

Durante uma semana passeei por lugares carregados de memórias, de referências e lembranças. Alguns lugares doem mais, com mais veemência. Outros doem com dolência suave, quase mansidão. Outros cantam alegres, refulgem ao sol. Uns chamam-nos com as suas sombras frescas, outros com uma frescura sombria.

Mas todos os lugares têm ainda um nome, o lampejo de um olhar, a pressentida entrevisão de um sorriso. Uma voz, quase inaudível, que continua a chamar por nós.

livro de autógrafos
rosas
innersmile



Por causa do livro de João Paulo Borges Coelho, Ponta Gea, e de uma passagem de que falei aqui há dias, fui à procura do meu livro de autógrafos, que estava guardado numa das caixas que contêm coisas que trouxe da casa dos meus pais, do meu antigo quarto.

Antigamente os livros de autógrafos serviam principalmente para recolhermos a assinatura, e a recordação das celebridades com quem nos cruzávamos na vida. Como hoje somos amigos delas nas redes sociais, acho que esse valor quase icónico que tinham esses caderninhos, terá deixado de fazer sentido.E depois havia também, por modas que é como estas coisas funcionam, a mania de usar os livros para guardar os autógrafos dos amigos e dos colegas de liceu.

Claro que eu queria ter um livro de autógrafos, toda a gente tinha, e a minha mãe comprou-me um com a ideia de o usar especialmente para recolher as assinaturas dos artistas e outras celebridades que se deslocavam a Nampula. O meu pai sempre integrou os órgãos sociais do Clube Ferroviário que, nessa época, conseguia trazer ao Pavilhão muitos espetáculos e artistas, que faziam as suas digressões por África. O livro de João Paulo Borges Coelho, de resto, também fala dessas turnês dos artistas.

Claro que não demorei muito a usar o livro para recolher os autógrafos dos amigos, e ainda bem, porque tenho nesse livro as recordações dos raríssimos amigos desse tempo que ainda conservo, e até de pessoas de quem não tenho qualquer lembrança mas que marcam passagens decisivas da minha vida. Por exemplo, tenho os autógrafos de duas colegas de liceu que assinaram poucos dias antes da minha partida para Portugal, em outubro de 1976. São seguramente das últimas marcas que tenho da minha vida em Moçambique.

Mas voltando às celebridades, e fazendo a ponte para o livro de Borges Coelho e a referência ao Al Pereira, a maior parte dos autógrafos são dos boxeurs, como o Mapepa, que é citado no livro, e dos lutadores de luta livre que iam a Nampula participar em combates e exibições que tinham lugar no pavilhão do Ferroviário e que eram organizados justamente pelo Sr. Al Pereira.

Mas além desses tenho ainda uns poucos de autógrafos interessantes, como o do Joselito, que tinha sido uma daquelas crianças estrelas, de nacionalidade espanhola, e que gravava discos e entrava em filmes. De resto, já nem sei porque razão, lembro-me até de que o Joselito pernoitou lá em casa, nesta sua deslocação a Nampula, e que foi muito simpático e cordial, mas também discreto e reservado. Outro autógrafo é o do Rui de Mascarenhas, que era um cantor romântico, um género que tinha como nome mais popular o António Calvário. Havia na casa dos meus pais um 45 rpm com o Rui de Mascarenhas a cantar o seu grande êxito, Encontro às Dez e, no labo B, a versão portuguesa do tema A Noiva.

Mas, para mim, a glória dos meu livro de autógrafos é o do Ouro Negro, com uma dedicatória em meu nome e a assinatura dos dois membros do duo, o Milo MacMahon e o Raul Indipwo. Hélas, não me lembrava nada desta ocasião, e apenas com um esforço de memória muito grande parece que consigo recordar-me muito vagamente do concerto deles no Pavilhão. Que pena eu não me lembrar disto, porque o Ouro Negro sempre foi um dos meus grupos favoritos na infância, um gosto que recuperei há poucos anos, quando me lembrei de ir escutar as suas canções na internet. Também tinha um single deles, com a Maria Rita, e se não estou em erro, também na capa do disco tinha a seu autógrafo.

"eu quero o amor da flor de cactus"
rosas
innersmile


"Eu quero o amor da flor de cactus, ela não quis. Eu dei-lhe a flor de minha vida, vivo agitado. Eu já não sei se sei de tudo ou quase tudo. Eu só sei de mim, de nós, de todo o mundo." (João Ricardo, para a banda Secos & Molhados)

No final do verão de 2015, a casa dos meus pais já estava, finalmente, quase vazia. Os móveis tinham saído quase todos, aquilo a que antigamente se chamava o recheio de casa. Faltavam, arrumados num quarto, umas caixas de cartão com o mais complicado e difícil: as coisas mais pessoais, os documentos, as recordações de infância, as fotografias.

A varanda também tinha sido, aos poucos, esvaziada. As vizinhas e alguns amigos foram levando as plantas aos poucos, ficando aquelas que, por mais velhas ou falta de graça, ninguém quis. Eu passava semanas sem lá ir, e por isso, sem água e com o calor e o sol do verão, algumas foram secando. Muitas vezes parava no rés do chão para ir buscar o correio, e nem subia.

Numa das raras tardes em que fui lá a casa, fiquei surpreendido com uma flor lindíssima, muito esticada num caule esguio e forte, que nasceu de um cacto que dá apenas duas folhas, grossas, carnudas, que crescem praticamente coladas uma à outra, e que tinham crescido num vaso que, até há poucas semanas, parecia que estava vazio. Fiquei encantado com a beleza e o fulgor daquela flor, e muito emocionado com aquilo que me parecia ser uma oferenda que me era dada por uma casa carregada de memórias, que eu estava prestes a abandonar.

Claro, nessa mesma tarde trouxe o vaso com a planta para minha casa. A flor não durou muito, e acabou por esmorecer. Já ao longo do ano passado, as duas folhas também foram morrendo, muito lentamente mas de maneira inexorável. Guardei o vaso, com a vaga esperança de que o cacto ainda pudesse rebentar de novo, e também porque começaram a nascer algumas folhas da samambaia que está no vaso ao lado, no parapeito da janela.

Há uns poucos meses, pareceu-me ver um finíssimo rebordo verde onde antes apenas estava o resto ressequido do cacto. Afinal não tinha morrido, e até parecia que queria rebentar de novo. Há dias, reparei nas delicadas pétalas cor de rosa que rompiam por entre as minúsculas folhas. De dia para dia, a flor tem crescido e o caule despontado, carnudo e de um verde muito claro e vegetal. Voltou, a flor de cacto. Intensamente.

mapepa
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innersmile


Mais uma passagem do livro de João Paulo Borges Coelho, Ponta Gea, que despertou memórias muito antigas:

“Fala-nos dos combates de boxe a que assistiu, e tantas vezes o faz que os lutadores que menciona são já, para nós, uma espécie de velhos conhecidos, anunciados ao microfone, a meio do ringue, pelo lendário Al Pereira: Ganda, o maior de todos, mas também Danger, Mapepa, Cambeua, Dully (alcunhado pelos adeptos de Number One), Tony Beira, Costumado, Fundice e muitos outros”.

É sempre uma experiência do domínio do maravilhoso quando nos cruzamos num livro com personagens que conhecemos na vida real. Já me tinha cruzado com a personagem do Al Pereira noutro livro do JPBC, e neste Ponta Gea ele ainda torna a aparecer, noutro capítulo. Mas neste trecho o verdadeiro protagonista é o boxeur Mapepa, de quem tenho um autógrafo, e de quem assisti pelo menos a um combate. Claro que nas minhas memórias, aquilo que é o resquício de uma recordação factual mistura-se com as histórias que fui ouvindo acerca desses acontecimentos, e com a minha própria capacidade de efabulação. De resto, essa é uma das razões porque estou a gostar tanto do livro de Borges Coelho, porque também neste caso, e forma bem assumida, as memórias da infância são sobretudo pretextos para a imaginação evocativa do autor.

Quanto ao Al Pereira, ele foi muito amigo do meu pai, durante os primeiros anos da nossa vida em Nampula. Já não me recordo qual era a sua profissão, mas continuava a organizar combates de boxe e de luta livre, que tinham lugar no pavilhão do Clube Ferroviário, e aos quais eu assistia. A impressão que guardo desses eventos é mais impressiva no caso dos combates de luta livre, masculinos e femininos, talvez por ser mais espectacular, com mais luzes e barulho, mais feérico. Mas lembro-me dos combates de boxe sobretudo por causa das imensas audiências que atraíam, sobretudo entre a população negra.

O Sr. Al Pereira era casado com a D. Bertini, uma senhora muito pequenina, que eu adorava. Já não tenho a certeza se ela trabalhava numa loja de pronto a vestir se numa de electrodomésticos, porque as duas lojas era na mesma avenida, uma em frente à outra. Mas recordo-me de que conduzia um carro muito pequeno e baixinho, modelo desportivo, com a parte da frente arredondada, vermelho, de dois lugares.

Eu positivamente adorava quando a D. Bertini me levava a passear, para mais no seu desportivo vermelho. Lembro-me de ela me levar aos festivais do Centro Hípico, que eram sempre uma coisa muito engalanada, mas acerca dos quais, acho eu, não tenho a mais tranquila das recordações. Talvez seja porque aquilo fosse demasiado exigente para a minha inibição e para a minha ansiedade. Mas como sempre fui muito caseiro, também adorava quando a D. Bertini me levava para casa dela, para lanchar. Tenho uma ideia demasiado vaga da casa e da sua localização, mas lembro-me com nitidez da D. Bertini a dar ao criado as instruções para o lanche (eu devia dizer ‘empregado’ em vez de criado, era mais adequado, mas o ponto é que era mesmo criado que nós chamávamos aos empregados de casa. O engomador era o mainato, o cozinheiro, quando havia, era o cozinheiro, mas o empregado de casa era o criado. Quando a minha mãe era novinha, o cozinheiro era o Cook, ou Cuca).

Mas a minha recordação mais intensa da casa da D. Bertini era uma pequena boneca, vestida de sevilhana, que havia na saleta de entrada, em cima de um móvel de madeira muito polida e brilhante. Aquela boneca fascinava-me, e prendia o meu olhar e a minha atenção quando passava por ela. Nunca tive vontade de brincar com ela, nunca brinquei com bonecas, nem com os bonecos de acção que começaram a aparecer na altura, só gostava de brincar com carrinhos e com materiais de escritório. O meu fascínio não passava por aí. Tinha, acho eu, tudo a ver com a roupa da sevilhana, mas sobretudo com a sugestão de movimento que a pose, os gestos e essa roupa, criavam. Acho que aquilo que me prendia o olhar era uma vontade quase irreprimível de a ver começar a dançar.

o mundo é um balão
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innersmile


Tinha visto num filme um globo terrestre insuflável, como as bolas de praia. Não sei se foi o Michael Palin que usou um, numa das suas séries sobre viagens. Encontrei estes globos numa ida a Londres, numa livraria de viagens em Convent Garden. Acho que não estava sozinho, mas já não me lembro quem estaria comigo, e deduzo que a livraria possa ter sido a Stanfords, a maior livraria de mapas e de guias de viagens do mundo, que fica em Long Acre, mas já passaram tantos anos que não consigo precisar.

Durante muito tempo, o globo esteve dobrado e arrumado, mas desde que vim para minha casa, há dezasseis anos, tem estado ali a enfeitar o topo de uma das estantes do quarto, de tal forma que já nem dou por ele, nem sequer me lembro de que o tenho. Como se vê pelo detalhe da foto, repousa junto ao que foi o primeiro telefone fixo que mandei instalar cá em casa, essencialmente para usar a ligação telefónica como acesso à internet.

E lembrei-me do meu globo terrestre insuflável ao ler um artigo numa edição já atrasada do suplemento Ípsilon, do jornal Público, sobre um livro intitulado Livrarias, da autoria do escritor espanhol Jorge Carríon, que fiquei com vontade de ler. No artigo, Carríon conta como, quando viaja, gosta de visitar livrarias em cidades estrangeiras, nomeadamente livrarias sobre viagens, e como esse gosto por livrarias tinha de certo modo começado em Londres, onde o autor tinha uma espécie de atlas afectivo de livrarias.
Claro que, por associação de ideias, também comecei a pensar como, nos meus tempos de viajante, gostava de visitar livrarias, mesmo em países onde não percebia uma linha do que estava escrito, como em Creta, uma livraria lindíssima que tinha na montra uma edição do Principezinho.

Lembrei-me de uma livraria em La Valletta, Malta, na rua central, a República, para onde escapei enquanto os meus colegas de viagem visitavam igrejas e Caravaggios, e de onde saí com um volume enorme do Kenneth Williams, já não posso precisar se os diários ou as cartas, um deles. Como me lembrei da Ateneo, na avenida Santa Fe, em Buenos Aires, que é a livraria mais bonita que eu conheci e da qual já falei aqui, creio que mais do que uma vez.

E também me lembrei, é claro, de que foi igualmente em Londres que cresceu o meu gosto pelas livrarias, desde muito cedo, que se foi consolidando ao longo dos vinte anos em que visitei anualmente a cidade, e que constituíam uma geografia muito pessoal de percursos e deambulações. A Gay´s The Word, próxima de Russell Square. A Dillons, em Gower Street, e também em Sloane Square, em frente à estação de metro. A Foyles, em Charing Cross Road, e também as livrarias de livros antigos e de álbuns, também em Charing Cross, do outro lado da rua. A Compendium, em Camden High Street, uma livraria alternativa e muito política. A Waterstones, onde ia consultar uma espécie de anuários dos filmes, que havia nesses tempos antes da internet e do google. A Stanford, de que falei acima. A Books Etc, igualmente em Charing Cross, onde havia uma poderosa secção de literatura gay, e a Borders, uma cadeia de livrarias norte-americana que, por um tempo, tomou conta de uma série de outras livrarias, e onde eu ia comprar revistas de música country. As livrarias das estações, como a WHSmith na estação de Euston, onde passava horas, por ser ao lado de casa, e onde ia comprar os jornais de domingo que saíam ao sábado à noite.O próprio mercado de livros em segunda mão em South Bank, paragem obrigatória quando ia ao cinema no National Film Theatre ou ao Museum of Moving Image, mesmo ao lado, ao National Theatre ou ao Royal Festival Hall.

Grande viagem, esta, pelas livrarias de Londres, a que me levou, agora, o meu globo terrestre insuflável.

na curia
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innersmile


Para tentar aliviar o peso na alma, fui passar o fim de semana à Curia. Tão perto de casa, mas o suficiente para me dar, ao menos por dois dias, a ilusão de sair da minha vida e das minhas circunstâncias. Foram dois dias muito tranquilos, com passeios no parque, leitura no relvado da piscina e, à noite, rancho folclórico no parque das Termas. Very typical!

Ficámos instalados no Hotel das Termas da Curia, dentro do próprio parque. É um hotel de três estrelas que, apesar de ser antigo, e de ter essa patine das coisas antigas e que já passaram há muito do seu apogeu, está muito bem cuidado, sem sinais de gasto ou degradação. Muito agradável e simpático. Mais de metade do hotel estava ocupado com grupos de ciclistas de vários países, que devem estar a fazer estágios ou qualquer coisa do género. Muito jovens e ruidosos, davam alegria e movimento ao hotel. Às vezes o buliço era um pouco exagerado, com os italianos a falarem muito alto (it goes without saying, não é?) e muitas correrias pelos corredores. Mas, pelo menos a mim, nunca me chegou a incomodar verdadeiramente.

Claro, estes passeios, à falta de mais actividade, servem também para comer bem. No sábado fui à Mealhada, proximidade oblige, comer um caldo verde e um leitão à Bairrada, na Nova Casa dos Leitões. À noite fui ao Pompeu dos Frangos, à Malaposta, matar saudades do arroz de cabidela, sempre delicioso. Ontem, para variar, e antes do regresso a Coimbra, fomos a Aveiro almoçar. Fomos ao Adamastor, junto à Praça do Peixe, onde não ia há séculos, desde a altura, para aí há dez anos, em que era mais ou menos habitué das noites de Aveiro. Comi uma sopa de marisco e uns carapauzinhos fritos que estavam maravilhosos.

Só mais um notazinha para assinalar que hoje, 24 de julho, os meus pais faziam anos de casados. Casaram em 1954, neste dia que era o da cidade de Lourenço Marques.