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Entries by tag: fotos

cabo verde 5/8
rosas
innersmile


22 março

Na cidade da Praia, capital de Cabo Verde. Pequeno almoço às 7, às 8 estava no aeroporto Amílcar Cabral. O voo do Sal para Santiago dura pouco menos de uma hora, a bordo de um ATR72, um avião com motores a hélice, com duas cadeiras de cada lado do corredor; como os Friendship da minha infância. Neste voo doméstico praticamente não havia turistas, e nós como que nos diluimos na normalidade (se não fosse pelos calções e pela pele rosada do escaldão!)

Almoçámos na esplanada do restaurante Avis, na Avenida 1 de Junho, a rua pedonal que marca o centro do Plateau, e que tem um movimento constante de peões e vendedores (o mercado está fechado para obras, e por isso as zonas adjacentes transbordam de comércio de rua), lojas, cafés, museus. Apesar de pequena, pouco mais de 130 mil habitantes, a cidade respira o ambiente de uma capital, e temos finalmente a sensação de estar em África.

O Plateau, ou Planalto, é a zona central da cidade, onde se concentram os serviços públicos, e é uma cápsula no tempo, remetendo-nos constantemente para o estilo e a arquitectura das cidades coloniais portuguesas. Em especial a praça Alexandre Albuquerque, com o Palácio da Presidência (antiga residência do governador), o Quartel Jaime Mota, o miradouro e a estátua do ‘descobridor’ Diogo Gomes (com vista para o Ilhéu de Santa Maria e a zona da Prainha, onde fica o hotel), o belíssimo edifício da Câmara Municipal, e a Igreja de Nossa Senhora da Graça.

Foi bom visitar a igreja, principalmente por ser a hora a seguir ao almoço, em que está quase vazia. Poucos crentes (uma rapariga a tocar com as mãos nos pés da imagem de Nossa Senhora de Fátima), algumas pessoas a limpar e a preparar o igreja para a Semana Santa.

Corremos detalhadamente três das ruas do Plateau. Gostei muito da Avenida Andrade Corvo, com uma exuberante arquitectura dos anos 50 e 60, os prédios baixos, construídos para o comércio, e com os andares superiores para escritórios ou moradias. Lourenço Marques ou mesmo Nampula estavam cheias deste tipo de prédios. Ao fim da avenida, na Praça Luís de Camões, fica um edifício, que creio ser a reitoria da Universidade de Cabo Verde, fantástico, com laminas verticais de cimento pintadas de branco.

Percorremos igualmente a Avenida Amílcar Cabral, que parece ser assim uma espécie de rua de trás deste bairro do Plateau, por onde circula o trânsito, onde param os transportes que servem os bairros afastados do centro, uma avenida larga, com um movimento constante, a vibrar de comércio e escritórios. Abordagens frequentes a perguntarem se queríamos trocar dinheiro; talvez por estar todo rosado, as pessoas dirigiam-se a mim em inglês, e ao Bruno em português.

Gostava muito de falar desta cidade, de a descrever, de falar deste bairro elevado e central por cujos edifícios escorre a história de um país ou mesmo de dois ou mais países, com a pessoa que melhor compreenderia o meu fascínio e a sua natureza: a minha mãe. E de alguma maneira foi isso que fiz, nos tranquilos momentos em que estive na Igreja de Nossa Senhora da Graça.

Fomos jantar na Churrascaria Dragoeiro, que fica na Achada de Santo António, um dos maiores bairros da cidade (onde fica também o Parlamento nacional). Comi uma garoupa grelhada.
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cabo verde 4/8
rosas
innersmile


21 março

A beber um chá no bar do hotel, enquanto o Bruno foi ao correio, que fica ao fundo da Rua Um de Junho.

De manhã, inscrevemo-nos num passeio e fomos dar a volta à Ilha do Sal. Ou meia-volta, para ser mais preciso, pois só visitámos a parte norte da ilha, para cima do aeroporto.

Duas paragens em Espargos, uma à ida e outra à volta, a capital da ilha, que já era nossa conhecida. Desde ontem... É engraçado passear com o guia pelos lugares que visitámos ontem. A grande diferença é que ontem, por ser domingo, estava tudo deserto, e hoje a cidade fervilhava de vida. Muitas crianças, com as suas fardas escolares, e muitas carrinhas Hiace, que fazem o transporte dos trabalhadores para a zona turística do sul da ilha. Num intervalinho, eu e o Bruno fomos beber um café à Caldera Preta, um dos bares mais conhecidos da vila, sobretudo por causa da música ao vivo; hélas!, eram 10 da manhã, ficámo-nos pelo café.

Depois fomos à aldeia piscatória de Palmeira. Visitámos a D. Isaura, uma senhora com 90 anos que é amiga do Ulisses, o nosso guia, e a seguir espreitámos a escola primária Zeca Ramos. O Ulisses espreitou para dentro de uma das salas, e anunciou-se com o nome igual ao do primeiro-ministro eleito ontem. De lá de dentro veio uma voz de criança: “Não queremos políticos na nossa escola”!

A visita à aldeia terminou no porto de pesca, muito tranquilo àquela hora, só o ocasional calafate a trabalhar nos barcos em terra. A seguir fomos visitar a gruta do Olho Azul e a Buracona, mas eu fiquei cá em cima, a apanhar vento, não me meto em aventuras em rochas.

A parte mais espectacular do passeio foi mesmo a paragem, já na zona norte da ilha, para ver as miragens. No horizonte, a paisagem desértica transforma-se em água. O efeito é não só real, mas poderoso. Parece um mar que avança à medida que nos baixamos, para o olhar ficar mais horizontal. Ou um lago, com reflexo de montes e vegetação. E, tremeluzindo no calor, figuras humanas?

No regresso ainda parámos nas salinas de Pedra Lume, mas eu fiquei no carro e não quis ir visitar.Porque estava cansado, mas também por causa dos comentários que o Ulisses fez em relação ao dono do vulcão onde estão as salinas. Uma das coisas boas deste passeio foi precisamente o Ulisses, um excelente guia, com consciência social, e que tentou fazer com que os visitantes vissem para além da visita turística. Ficámos a conhecer melhor como é a vida das populações que aqui vivem, e trabalham para o turismo.

Jantámos num café, em Santa Maria, o Cabo Verde. Comi lulas na chapa. Ontem e hoje a refeição terminou com uma visita à Giramondo, uma gelataria italiana excelente. Seguiu-se uma pequena discussão luso-brasileira sobre o tema gelado vs. sorvete.
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cabo verde 3/8
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20 março

Mais uma manhã de praia. Ou melhor, manhã de piscina com incursão à praia para um banho. O mar é fabuloso, a temperatura perfeita: nem fria nem quente; custa um bocadinho a entrar, mas depois é um convite. Com ondulação, sem correntes, uma água cristalina azul turquesa. Acho que é das praias mais bonitas que conheci.

Fomos almoçar a Espargos, no táxi do Sr. António. Uma simpatia. Conversámos muito, nomeadamente sobre política, pois hoje foi dia de eleições gerais, para o parlamento, e também para a escolha do novo primeiro-ministro. Ganhou o MpD, Ulisses Correia e Silva vai ser o próximo primeiro-ministro. O PAICV, que candidatava uma mulher ao lugar de primeira-ministra, perdeu, após 15 anos de poder.

Almoçámos no restaurante Benvass, bom e barato. Sai-se de Santa Maria e os preços baixam: hoje pagámos 11 euros ao almoço, 33 ao jantar. Que foi no restaurante Pubim, que nos tinha sido recomendado, mas foi fraquito. Valeu pela música ao vivo, que era muito boa, com viola e cavaquinho.

A tarde, além da sorna, incluiu mais uma banhoca maravilhosa. O Bruno e eu assinalámos hoje, em Cabo Verde: ele, a chegada do Outono, eu, a da Primavera.
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cabo verde 2/8
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19 março

Duas belas banhocas no mar incrível da praia de Santa Maria. Foi o principal acontecimento do dia de hoje: uma de manhã, com a praia cheia de gente, e outra agora ao fim da tarde, com a praia vazia e a maré cheia.

O Bruno chegou logo de manhã, mais cedo do que eu estava a contar. Tomámos o pequeno-almoço, resolvemos a questão do check-in a dobrar (ontem fiz check-in só para uma noite), e fomos para a praia.

Depois fomos à vila, almoçar. Escolhemos um dos restaurantes recomendados por uma guia com quem falámos de manhã, o Américo’s. Comi uma garoupa grelhada, óptima. Depois andámos a passear pela vila. O mar, à tarde, visto do pontão, é fabuloso, de um azul inacreditável.

Depois do banho da tarde, o jantar foi no Barraco Da Ângela, uma barraca na praia: grelhada de marisco, e um belo de um cheesecake de morango. Com música ao vivo, mornas, com voz, piano e guitarra.
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cabo verde 1/8
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18 março

Estar aqui na Ilha do Sal, à noite, sozinho, num resort, pode não parecer mas já é uma conquista.

Pela primeira vez em muito tempo, saí de casa sozinho (com algumas ajudas, sobretudo por causa da falta de auto-confiança), com tudo o que isso implica quando se trata de uma viagem aérea: carregar mala, esperar de pé em filas, percorrer corredores quilométricos.

A viagem correu bem. Conheci uma nova companhia aérea, a TACV: serviço competente, sem luxos asiáticos, ou melhor, africanos.

À chegada uma surpresa desagradável: não tinha o transfer à espera para me trazer para o hotel. Fiz uma chamada e veio a solução: apanhei um táxi - 20 euros do aeroporto até ao hotel. O Cassiano, o motorista, propôs-me fazer um tour pela ilha por 50 euros.

O hotel, o Oasis salinas, é grande, mas não é gigantesco. Apesar de estar em regime APA, dado o adiantado da hora (o voo chegou uma hora atrasado), jantei aqui no hotel.

O wi-fi é óptimo, já enviei uns mails, vi o meu gato no instagram. Que saudades do gato, como é que eu vou conseguir dormir sem o ter deitado na almofada, junta à minha cabeça?

Estou sempre a lembrar-me de telefonar à minha mãe. Não me habituo à ideia de que estou sozinho de facto, de que não tenho ninguém a quem telefonar a dizer que cheguei bem.
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o sol nas coisas
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O PRESTIDIGITADOR ORGANIZA O ESPECTÁCULO

Há um piano carregado de músicas e um banco
há uma voz baixa, agradável, ao telefone
há retalhos de um roxo muito vivo, bocados de fitas de todas as cores
há pedaços de neve de cristas agudas semelhantes às das cristas de água, no mar
há uma cabeça de mulher coroada com o ouro torrencial da sua magnífica beleza
há o céu muito escuro
há os dois lutadores morenos e impacientes
há novos poetas sábios químicos físicos tirando os guardanapos do pão branco do espaço
há a armada que dança para o imperador detido de pés e mãos no seu palácio
há a minha alegria incomensurável
há o tufão que além disso matou treze pessoas em Kiu-Siu
há funcionários de rosto severo e a fazer perguntas em francês
há a morte dos outros ó minha vida

há um sol esplendente nas coisas


- Mário Cesariny, MANUAL DE PRESTIDIGITAÇÃO


Vou ali passar uns dias de férias e já volto. As aventuras do gato podem ser seguidas em instagram.com/pet.lovers.coimbra.

resumo
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#outofthebox
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Bajo estas lineas, el autor tentando aprender a pensar fora da caixa.


#wouldyoubemyvalentine
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"veio um garoto do arraial do cabo
belo como um serafim
forte e feliz feito um deus, feito um diabo
veio dizendo que sim
só eu, velho, sou feio e ninguém

veio e não veio quem eu desejaria
se dependesse de mim
são paulo em cheio nas luzes da bahia
tudo de bom e ruim
era o fim, é o fim, mas o fim é demais também

odeio você"

- Caetano Veloso


wolfgang tillmans + sonnabend collection + liam gillick
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Como já aqui referi, fui no fim de semana passado ao Museu de Serralves, ver três exposições, e gostei muito de todas.



A razão que me levou ao Porto foi especialmente para ver a exposição No Limiar da Visibilidade, do fotógrafo alemão Wolfgang Tillmans, de quem eu já tinha visto, há muitos anos, uma exposição imensa, em Londres, creio que na Modern Tate (nos tempos em que eu era um gajo cosmopolita e culto). A maior parte das obras expostas em Serralves são de grande formato e ilustram situações de contraste de luz e cor: o céu, as nuvens, o mar, a terra. O meu amigo Zé diz que o WT tem andado muito de avião e que se entretém a tirar fotografia pela janela (claro, ele é maldoso, e depois eu é que sou castigado, quando me partem o vidro da porta do carro).

O que mais me impressionou na exposição foi a sua montagem. Tendo sido criada site-specific, a exposição parece de facto ter um diálogo com a arquitectura do museu, com os seus espaços amplos, os seus pontos de luz, com as perspectivas de aproximação por parte dos visitantes. As obras de Tillmans parecem aproveitar as qualidades expositivas do museu, e ao mesmo tempo devolvem uma mais valia ao usufruto do espaço e da arquitectura.



Outra exposição muito boa, é a da colecção Sonnabend de arte contemporânea norte-americana e europeia, de que Serralves mostra actualmente a primeira parte, e que constitui uma oportunidade fantástica de vermos e contactarmos com obras de artistas tão fundamentais como Andy Warhol (que fica com a parte de leão, em termos do número de obras apresentadas), Roy Lichtenstein, Jasper Johns, Sol LeWitt, Donald Judd, Bruce Nauman ou Christo, entre muitos outros, nomes fundamentais de correntes artisticas como o minimalismo, a pop art ou a arte povera, que marcaram a arte na segunda metade do século XX.
Gostei muito, e fico à espera da segunda parte da mostra da colecção, que creio ter lido algures chegará a Serralves no final do ano.

Finalmente, logo no núcleo central das galerias do museu, uma instalação de Liam Gillick, Campanha, com um piano de cauda que toca automaticamente loops da Grandola, Vila Morena, sob uma cortina fina de nave negra que cai do tecto. É daquelas peças que, logo à entrada do museu, transporta o visitante para um estado de espírito mais curioso e disponível para a experiência do contacto com a arte contemporânea.

#ascoisasimportantessoolhasumavez
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"AS COISAS IMPORTANTES

As coisas importantes só olhas uma vez
mas sua imagem se repete muitas vezes dentro de ti
como um eco.

As coisas importantes que estão dentro de ti
e se repetem constantemente
já não estão presas ao que olhaste atento
mas no silêncio que tens dentro
se libertaram e tornaram incertas.

As coisas importantes no teu dentro
só já a ti pertencem
e nada do que está fora de ti as lembra agora.

As coisas importantes metes numa caixa
que com paciência vais abrindo aos poucos
para esqueceres as muralhas de outro tempo."


- Jall Sinth Hussein, POEMAS DO ÍNDICO

estação seca
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Já aqui tinha falado da edição, pela Index Ebooks, de mais um livro electrónico com textos que, a maior parte deles, fui escrevendo aqui no innersmile. Chegou hoje a encomenda que fiz com alguns exemplares do livro impresso, para guardar a evidência física, claro, mas também para oferecer a alguns amigos.

Apesar de ser um livro complicado, mesmo difícil, para mim, que o escrevi, não deixo de sentir um certo gozo em olhar para ele. Não quero ser presunçoso, nem pomposo, mas é o quarto livro que 'publico', e o terceiro editado por aqueles que são os verdadeiros responsáveis por esta aventura, os amigos da Index, o João e o Luís.

A Index tem uma página dedicada à Estação Seca, onde estão os links para se poder fazer o download do livro electrónico, ou a encomenda do livro impresso (na loja espanhola da Amazon, os portes ficam muito em conta). A página da Index fica no seguinte endereço: www.indexebooks.com/estacao-seca.html.
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menina
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Uma menina, inspirada n’As Meninas, de Vélazquez. Recordação de um fim de semana em Madrid, poucos dias antes do natal de 2010. Logo às primeiras horas, pouco depois da chegada, na Calle Mayor, perto do mercado de San Miguel, entrei numa lojinha de recuerdos e guardei-a logo. Do outro lado da rua, ficava o Instituto Italiano, que anunciava uma exposição dedicada a Pasolini. No dia seguinte, fui ver As Meninas, ao Museu do Prado.

(Madrid, dezembro 2010)

21 de janeiro
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Hoje é o dia de aniversário da minha mãe. O ano passado ainda estávamos juntos, apesar de ela já estar bastante mal. Hoje, pela primeira vez, experimento esta sensação um pouco estranha de não haver razões para comemorar uma data tão importante para mim, porque tudo já se passa na memória. É certamente um dia para a recordar, mas nisso, este dia não é diferente de todos os outros.

Muitas vezes limitava-me a por aqui um poema neste dia, para assinalar, ainda que só para mim, a data. Nestes últimos anos, falava sobre o assunto, porque tinha a percepção clara de que cada dia de aniversário podia ser o último.

Um destes dias lembrei-me de que, com a falta da minha mãe, tenho aos poucos estado a perder uma certa capacidade para fazer palermices. Adorava dizer poemas para a minha mãe ouvir, cantar canções, fazer macacadas. Claro, era a única pessoa que estava disposta a ouvir-me dizer poemas. E ainda por cima gostava.

Desde ontem de madrugada que estou com febre, suponho que seja gripe, ou uma virose qualquer. Até nisso. Em vez de ir trabalhar, e distrair-me, fico aqui em casa a ler, a dormitar, a esperar que a temperatura aumente, e depois a esperar que baixe. A pensar na minha mãe, ou melhor a tentar perceber melhor o absurdo que é vivermos sem aqueles que mais amamos, sem aqueles que nos amavam de maneira tão incondicional e absoluta.

leiteira
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Deve ser dos objectos mais antigos, que guardei da casa dos meus pais. Uma leiteira, a única peça que resta de um serviço de chá, em faiança creio que japonesa, e que, se não estou em erro, foi uma prenda de casamento. Recordo-me de que quando viemos de Moçambique, ainda restavam talvez umas três ou quatro peças; agora sobra esta. Quando começámos a desmontar a casa, foi a minha prima que a guardou e, entregou-ma agora, por ocasião do Natal. Está na cristaleira da sala.

A foto está fraquita, mas foi tirada à noite, e nem sequer abri a porta da cristaleira, não fosse o gato ter ideias.

(Lourenço Marques, 1954?)

memorial
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"Sete dias sem uma nota, um fato, uma reflexão; posso dizer oito dias, porque também hoje não tenho que apontar aqui. Escrevo isto só para não perder longamente o costume. Não é mau este costume de escrever o que se pensa e o que se vê, e dizer isso mesmo quando não se vê nem pensa nada."

- Machado de Assis, MEMORIAL DE AIRES (no Kindle)

as chaves
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Vou hoje, se tudo correr como previsto, entregar as chaves da casa dos meus pais, ao senhorio. Parece simbólico, escolher o último dia do ano para devolver uma casa que foi “nossa” durante 38 anos, no términus de um ano que de facto representou uma alteração radical da minha vida. Mas não, foi apenas uma questão de conveniência: já tinha comunicado há mais de um mês ao senhorio que ía devolver a casa, mas ele só agora acertámos as disponibilidades mútuas para o encontro.

Mas sendo por uma razão mais prosaica, não deixa de ter uma carga simbólica muito grande, abandonar a casa onde vivi ininterruptamente desde 1977 até 2001, e depois disso, que frequentei quase diariamente. Uma casa cheia de memórias, que eu tentei de alguma maneira preservar enquanto me ia libertando do seu recheio. Só quem passou alguma vez por este trabalho de desmantelar uma residência de família pode aquilatar de quanto é complicado, difícil e doloroso.

E como se fecha uma porta, esperemos que, já a partir de amanhã, se abra pelo menos uma, mas, de preferência, muitas janelas. Por isso, aqui ficam para todos os amigos e leitores, os meus votos de FELIZ ANO DE 2016!

de regresso
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Foram quatro dias passados assim, entre brincadeiras e brinquedos da minha baby, e festinhas na barriga da baby nova que vai nascer para o ano. Entre os meus sobrinhos descubro, não sei bem se um sentimento de pertença, mas um aconchego tranquilizador. Gosto de estar na sua companhia. E eles dão-me alguma esperança no futuro, pensar no futuro sem ansiedade nem pessimismo, mas apenas como os dias que estão para vir e as promessas insuspeitas que eles guardam.

Dois momentos em que a minha baby me derreteu. Um, quando me chamou para me sentar ao lado dela enquanto fazia a nebulização para a bronquite, porque gosta de sentir o aconchego da companhia enquanto faz o tratamento. Outro, quando, para atrasar a hora de se deitar, anunciou que era o Zézinho e deitou-se nas minhas costas a dar-me mordidelas nas mãos, como faz o meu gato.

Hoje no regresso parei em Lisboa, ou lá perto, em casa da minha tia, para mais uma reunião de família. Almoçámos, comi as coisas boas que ela fez para mim, porque sabe que eu adoro, brincámos, conversámos. Já quase de saída chamei a minha tia ao quarto só para me dar mimos. Daqueles. Daqueles que me fazem ter saudades dos outros. Há momentos em que precisamos de encostar a cabeça e descansar.

Cheguei a casa cheio de saudades do gato. Ele matou as saudades que tinha minhas e deitou-se a dormir ao pé de mim. Quer dizer, depois de eu ter andado a dar um jeito ao cenário de destruição em que a casa estava; uma das vítima foi das minhas camisas preferidas, que tinha deixado pendurada num cabide, e que estava amarfanhada no chão com um grande buraco numa das mangas.

natal outra vez
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Há um ano vivi o Natal mais intenso da minha vida. Sozinho, e a ter de lidar com os meus próprios medos, e com o sofrimento daqueles a quem mais amei. A viver emoções e sentimentos que me deixavam desamparado, apesar de saber que um dia eles iriam chegar. A tentar não perder a capacidade de me sentir bem, feliz mesmo, não obstante sentir (mais do que sentir, a viver) que se erguia perante mim o muro avassalador da perda mais definitiva daquilo que eu considerava ser o melhor e o mais importante da minha vida. Ao longo deste último ano, acho que o único verdadeiro esforço que fiz foi o de não sentir pena de mim mesmo; de resto, a tudo me entreguei com a mansidão possível.

Um ano depois, preparo-me para o primeiro Natal sem a minha mãe com uma tranquilidade que mesmo a mim próprio surpreende um pouco. Nada é importante. As minhas perdas, as minhas tristezas, as minhas saudades, não são sensíveis à quadra. Temi, como já escrevi aqui, este mês, ter de percorrer um calendário de cicatrizes ainda tão recentes e abertas. Podia ter decidido ficar aqui sozinho com o meu gato, a ler e a comer coisas doces.

Mas não. Gastei uma pipa de massa a comprar prendas para algumas das pessoas de quem mais gosto e que me fazem sentir bem. Amanhã de manhã, logo cedinho, meto-me no carro e vou por aí abaixo. Entregar-me à placidez dos dias. No fim de contas, é só isso que interessa.

Habituei-me, ao longo deste ano, a fazer o exercício de pensar se as coisas que faço seriam do agrado da minha mãe, se, podendo ela saber delas, isso a deixaria feliz. É uma espécie de moral: vou fazer isto porque se a minha mãe soubesse que eu ia fazer, ficava contente. Por isso vou passar o Natal com os netos e com a bisneta e com a bisneta-nova-que-aí-vem, dela. Porque se eu lhe pudesse dizer, olha em vez de ficar aqui armado em triste, vou mas é lá abaixo, ela ia dizer ‘Claro, fazes bem. Fico muito feliz por ires passar o Natal com eles’.

Volto já. Bom Natal para todos os amigos e leitores.

avarias
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Acordei, como sempre, antes das sete, despertado pelo gato. Depois de lhe dar de comer, tornei-me a deitar, já com os estores do quarto subidos, a ler. Por volta das oito e meia tornei a adormecer, e dormi dois sonos seguidos, de cerca de vinte minutos cada, ambos com muitos sonhos, daqueles muito agitados, muito cheios de peripécias. No segundo dos sonhos estava numa casa enorme, com piscina, e muita gente, ou uma espécie de clube de verão, não sei. Estava com os meus sobrinhos. Às tantas peguei na minha sobrinha neta ao colo e nesse momento cruzei-me com uma pessoa conhecida. Trata-se de um médico, psiquiatra, com quem tenho uma relação muito afável porque sou muito amigo da irmã dele. Acordei intrigado, a pensar na possível razão para o meu subconsciente o ter ido buscar para o meter no sonho. Só pode ter sido porque ele também teve um cancro na bexiga, e eu penso muitas vezes no modo como, segundo a minha amiga me contou, ele desconfiou que poderia haver algum problema sério.

Na quinta-feira ao final da tarde fui buscar a minha prima C para irmos jantar, e, de passagem, parei em frente da pastelaria Vasco da Gama para comprar um bolo-rei.Quando voltámos ao carro e dei a volta à chave, estava sem direcção assistida, logo diagnosticada por um aviso no painel de informações do tablier. Sinto-me sempre muito estranho nestas ocasiões, em que sem termos nenhuma espécie de pré-aviso, o cosmos parece alterar-se um bocadinho a nosso desfavor, nem que seja sob a forma de uma avaria completamente insuspeita no automóvel. Mas que raio... o que é que terá acontecido?!

Liguei para a assistência em viagem, mandaram um pronto-socorro para levar o carro para a oficina, e um táxi para nos levar para o restaurante onde planeáramos jantar. Na sexta-feira ligaram da oficina a dizer que a avaria foi identificada, que será reparada sem custos para mim (o que me levou a dizer ao recepcionista da oficina que a avaria tinha sido mais surpreendente para mim do que para ele), mas que o carro só estará pronta na terça-feira. A seguradora deu-me um veículo de substituição, um Fiat 500L, todo catita, o que deu logo um ar lavado ao fim de semana.

Ontem de manhã fui com a C, que tem estado a residir no Brasil, visitar o meu pai. Depois da estranheza inicial, e no meio de um fascínio muito evidente pela barriga da C, que está grávida de seis meses, vi o meu pai fazer uma coisa que nunca tinha feito: de cada vez que eu lhe perguntava se ele conhecia a C e como é que ela se chamava, ele respondia direitinho, sem precisar de ajudas ou incentivos à memória. O que é absolutamente fantástico, pois nem do meu nome ele se lembra: reconhece-o quando eu lho lembro, mas não é capaz de o recordar espontâneamente.

rumo de vida
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"Tirei a gravata e os sapatos; o interlúdio terminara: a noite era quase igual às do passado. Phuong agachou-se aos pés da cama e acendeu a lamparina. Mon enfant, ma soeur - pele cor de âmbar. Sa douce langue natale.
- Phuong - disse. Ela amassava o ópio da taça. -
Il est mort, Phuong. - Segurava a agulha na mão e fitou-me como uma criança que tenta concentrar-se, franzindo as sobrancelhas.
-
Tu dis?
- Pyle
est mort. Assassiné.
Ela pousou a agulha e sentou-se sobre os calcanhares, fitando-me. Não houve cena, nem lágrimas, simplesmente reflexão - a reflexão prolongada e solitária de alguém a quem é necessário alterar todo um rumo de vida.
- É melhor ficares aqui esta noite - disse-lhe."


- Graham Greene, O AMERICANO TRANQUILO (Livros Unibolso)

dança de família
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Já há algum tempo que andava com vontade de reler os livros mais antigos de David Leavitt, nomeadamente o Lost Language of Cranes (o ano passado já tinha relido o Arkansas). Mas, assim como assim, decidi reler o primeiro livro do Leavitt: não só o primeiro que li, mas igualmente o primeiro que ele publicou, Dança de Família, Family Dancing no original.

Escrito quando o autor tinha vinte e dois ou vinte e três anos, trata-se de um conjunto de contos muito poderosos, quase todos à volta de dois temas: a homossexualidade e a doença, em particular o cancro, e o impacto que estes dois assuntos têm nas vidas dos indivíduos e das famílias. Curiosamente, um dos contos é protagonizado por um trio de personagens que vão aparecer num livro posterior de Leavitt (numa das novelas de Arkansas).

Os temas justificam o meu interesse em relação ao livro, mas o meu fascínio de então, julgo compreender agora, tinha igualmente muito a ver com o estilo de Leavitt, muito seco e ‘straightforward’, pouco descritivo mas parecendo entrar na mente dos próprios personagens. Dá igualmente para perceber que Raymond Carver terá sido uma forte influência em Leavitt, pelo menos nestes contos iniciais.

A página de abertura do livro tem a minha assinatura e adata que inscrevi na altura em que o li, no verão de 1987. A assinatura é diferente da que uso actualmente, mas gosto muito desta minha letra da altura, muito certinha e bonitinha. Curiosamente, tenho o livro encapado; na altura, quando estava ainda em casa dos meus pais, costumava encapar os livros com capas mais sugestivas, mas não é o caso, a capa do livro, de Henrique Cayatte se não estou em erro, reproduz um quadro célebre de Matisse. Mas de certeza que o encapei para disfarçar o conteúdo do livro, pelo menos das histórias gay. E, numa espécie de acto falhado, utilizei um papel que de certa maneira recorre à imagética do arco-íris, apesar de ser o papel de embrulho que a Imprensa Nacional Casa da Moeda usava na época.



vagabundo
rosas
innersmile


"(...)
Meu coração é um sapo rajado, viscoso e cansado, à espera do beijo prometido capaz de transformá-lo em príncipe.

Meu coração é um álbum de retratos tão antigos que suas faces mal se adivinham. Roídas de traça, amareladas de tempo, faces desfeitas, imóveis, cristalizadas em poses rígidas para o fotógrafo invisível. Este apertava os olhos quando sorria. Aquela tinha um jeito peculiar de inclinar a cabeça. Eu viro as folhas, o pó resta nos dedos, o vento sopra.

Meu coração é um mendigo mais faminto da rua mais miserável.

Meu coração é um ideograma desenhado a tinta lavável em papel de seda onde caiu uma gota d’água. Olhado assim, de cima, pode ser Wu Wang, a Inocência. Mas tão manchado que talvez seja Ming I, o Obscurecimento da Luz. Ou qualquer um, ou qualquer outro: indecifrável.

Meu coração não tem forma, apenas som. Um noturno de Chopin (será o número 5?) em que Jim Morrison colocou uma letra falando em morte, desejo e desamparo, gravado por uma banda punk. Couro negro, prego e piano.

Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos.

Meu coração é um traço seco. Vertical, pós-moderno, coloridíssimo de neon, gravado em fundo preto. Puro artifício, definitivo.

Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar. A brisa sopra, saiu a primeira estrela. Há moças na janela, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se pôs. A lua cheia brotou do mar. Os apaixonados suspiram. E se apaixonam ainda mais.

Meu coração é um anjo de pedra de asa quebrada.

Meu coração é um bar de uma única mesa, debruçado sobre a qual um único bêbado bebe um único copo de bourbon, contemplado por um único garçom. Ao fundo, Tom Waits geme um único verso arranhado. Rouco, louco.

Meu coração é um sorvete colorido de todas as cores, é saboroso de todos os sabores. Quem dele provar, será feliz para sempre.

Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel de florzinhas miúdas. Lareira acesa, poltronas fundas, macias, quadros com gramados verdes e casas pacíficas cobertas de hera. Sobre a renda branca da toalha de mesa, o chá repousa em porcelana da China. No livro aberto ao lado, alguém sublinhou um verso de Sylvia Plath: "Im too pure for you or anyone". Não há ninguém nessa sala de janelas fechadas.

Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria. A platéia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês.

Meu coração é um deserto nuclear varrido por ventos radiativos.

Meu coração é um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor de strega. Flambado, dourado. Pode-se ter visões, anunciações, pressentimentos, ver rostos e paisagens dançando nessa chama azul de ouro.

Meu coração é o laboratório de um cientista louco varrido, criando sem parar Frankensteins monstruosos que sempre acabam destruindo tudo.

Meu coração é uma planta carnívora morta de fome.

Meu coração é uma velha carpideira portuguesa, coberta de preto, cantando um fado lento e cheia de gemidos - ai de mim! ai, ai de mim!

Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela Veja. Levam junto quem me ama, me levam junto também.
(...)"


- Caio Fernando Abreu, PEQUENAS EPIFANIAS, CRÓNICAS (no Kindle)

serra
rosas
innersmile


A regressar à “vida normal” depois de quatro dias especiais. No domingo fui ao Porto encontrar-me com a minha sobrinha, que veio cá por causa de um compromisso profissional; como só ia regressar à Alemanha ao fim da tarde de domingo, marcámos encontro em Serralves: vimos duas exposições, almoçámos e ainda conseguimos ver um restinho de um filme dedicado a Merce Cunningham, antes de a ir levar ao aeroporto. Mas o melhor e mais compensador, foi termos conseguido passar mais de seis horas à conversa, ininterruptamente. Acho que eu não falava tanto há muito tempo.

Na segunda ao final da manhã fui para a serra da Estrela, para Unhais da Serra, para passar mais três dias com os meus sobrinhos do Algarve e a minha baby. Que paraíso; tudo, o hotel, as piscinas, a paisagem, mas sobretudo a companhia, a possibilidade de passar muitas horas com pessoas que adoro, acompanhar de perto a miúda que está fabulosa, muito esperta, muito brincalhona e com sentido de humor.

Para além de um passeio pela vila, ao princípio da tarde de terça-feira, aproveitando uma aberta do sol, a maior parte do tempo foi passada no enorme tanque do hotel, nas brincadeiras com a rapariga, ou a usufruir dos inúmeros jacuzzis, saunas, banhos turcos e outras funcionalidades. Mas o melhor foram mesmo os banhos na parte exterior da piscina aquecida, a sentir na cara o frio cortante ou mesmo os gelados pingos da chuva.

menino
rosas
innersmile


Quando cheguei ao pé dele, hoje de manhã, a enfermeira perguntou-lhe, como de costume, apontando para mim:
"Ó Senhor António, conhece este senhor? Sabe quem é?"
Ele levantou a cabeça, olhou para mim com a lentidão habitual, e respondeu:
"É o meu menino."

brb
rosas
innersmile


Por enquanto, o gato fica aqui a tomar conta do estaminé. A emissão normal será reatada dentro de momentos.


qualidades
rosas
innersmile


"As qualidades que aprecio nos outros, e que me esforço para desenvolver em mim, definitivamente não são 'jovens': maturidade emocional; capacidade de ver qualquer situação ou realidade sob vários prismas diferentes; auto-estima sólida e sem falsas modéstias; compreensão de que tudo na vida é tão relativo."

- Frederico Lourenço, O LUGAR SUPRACELESTE (Livros Cotovia)

luso pop
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Para assinalar condignamente o último dia de férias, às nove e meia da manhã já estava despachado da inspecção obrigatória ao automóvel (é oficial: o meu carro é velho), e aguardava a minha vez na fila da caixa do intermarché, onde tinha ido comprar alguns produtos de higiene pessoal para levar à clínica onde está o meu pai.

A senhora à minha frente estava a ver os cd’s num escaparate junto à caixa e eu, por reflexo, também olhei. Chamou-me a atenção uma capa fantástica, a ironizar com o célebre disco da banana dos Velvet Underground and Nico, cuja capa foi desenhada pelo Andy Warhol, com um bacalhau amarelo e, usando o mesmo tipo de letra, o título Luso Pop.

Olhei para a lista das 18 canções, a maior parte grandes êxitos dos anos 80, primeira metade. Para além de nomes seguros como os Heróis do Mar, os Rádio Macau ou os GNR, outras pérolas da época, como a Concha, as Doce ou a Anamar, ou ainda o Carlos Paião, o Variações, o José Cid ou a própria Amália. Ao preço de seis euros, claro que comprei o disco.

Prevalecem no alinhamento da antologia dois grandes ‘troncos’ da pop tuga. Por um lado, temas da dupla António Pinho / Nuno Rodrigues, que nos intervalos da música que faziam para a Banda do Casaco, escreviam canções pop irresistíveis, tanto nas melodias como nos arranjos como sobretudo nas letras. O outro tronco foi o da Fundação Atlântico, com temas de Miguel Esteves Cardoso, Ricardo Camacho ou Pedro Ayres Magalhães.

A compilação é da autoria de Rodrigo Affreixo, que escreve o texto de apresentação, e o grafismo genial de Hugo Piteira. O que é quase uma epifania é um tipo de repente constatar que por entre nomes de ’enésima’ linha da pop portuguesa, estão aqui alguns exemplos do que poderá ter sido uma das fases mais criativas da música popular portuguesa. Não sei se a música pop que se fez em Portugal nesta época foi influente ao ponto de se poder dizer que mudou o panorama musical nacional; mas seguramente que não houve muitos mais tempos em que se tenham feito canções tão divertidas e entusiasmantes.


polvoeira
rosas
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De regresso a casa, depois de uns dias de férias, junto ao mar. Óptimos. Fiquei instalado num dos meus hotéis preferidos, em Monte Real. Foi a quarta vez que lá fiquei instalado, e todas as anteriores tinha sido, primeiro, com os meus pais, e depois só com a minha mãe.

Claro, lembrei-me muito dela, estava presente nos gestos, nos hábitos, nas rotinas. Recordava sobretudo o quanto ela gostava de ali estar, de quanto apreciava o próprio hotel, as instalações, a decoração simples e requintada, o pessoal muito simpático. E por isso estes dias souberam-me bem duas vezes: pelo prazer de ali estar, e também pela lembrança do prazer que ela sentia.

Aproveitei as manhãs para fazer praia em São Pedro de Moel, que continua a ser um lugar onde me sinto muito bem. Já conhecia a praia da Polvoeira, e sempre senti vontade de lá fazer praia, o que nunca tinha acontecido. Desta vez vinguei-me, três belas manhãs numa praia imensa, quase deserta. Na manhã em que fiz praia em São Pedro, estava céu aberto e sol na zona em frente às piscinas, e um nevoeiro cerrado junto à falésia. Os almoços a seguir à praia, tardios, foram quase todos numa esplanada no meio do pinhal, uma frescura. E os finais de tarde já de volta ao hotel, junto à piscina.

Se juntar a isto tudo dois belos livros e a companhia da amizade, foram uns dias de férias perfeitos.

home alone
rosas
innersmile


Vou passar uns dias de férias fora de casa, junto de uma das minhas piscinas preferidas e muito perto de uma das minhas praias predilectas. Um sítio ao qual me ligam recordações muito fortes, e por isso estes dias também vão ser um teste.

Pela primeira vez, saio e deixo o gato em casa. Home alone. Agora que já tem um ano, prefiro deixá-lo em casa do que o levar para um gatil, onde, receio, ia-se sentir mais infeliz e ainda apanhava uma camada de pulgas. Também vai ser um teste. Não sei o que me custa mais: saber que vai passar muitas horas sozinho, sobretudo durante as noites, uma vez que as passa sempre junto a mim; ou a preocupação pelo nível de destruição que vou encontrar no regresso.
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