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filmes
rosas
innersmile
Graças à generosidade de terceiros tenho, nos últimos tempos, tido oportunidade de ver alguns filmes que têm estreado e que eu não tenho oportunidade de ir ver aos cinemas. Acho que vou fazer uma lista, só com umas notas muito breves.


1. GREEN BOOK, de Peter Farrelly. Com Viggo Mortensen e Mahershala Ali. É uma história irresistível, com dois actores num jogo muito bom.****

2. THE WIFE, de Björn Runge. Com Glenn Close, Jonathan Pryce e Christian Slater. Falta chama ao filme, mas a Glenn Close dá uma verdadeira masterclass.***

3. I'M NOT YOUR NEGRO, de Raoul Peck. Com base nos escritos de James Baldwin. Um olhar muito forte sobre a negritude numa sociedade racista, com especial enfoque no movimento dos direitos civis nos EUA, mas com um escopo universal. Explica muita coisa, nomeadamente os confrontos que ainda há poucas semanas varreram a sociedade portuguesa. *****

4. BOHEMIAN RHAPSODY, de Bryan Singer. Com Rami Malek. Não percebi muito bem se o objetivo era ajudar a criar o mito Freddy Mercury, tornando-o numa espécie de unicórnio pop, ou se faz parte do plano de marketing. Valeu pelas memórias do Live Aid. O que terá acontecido à minha t-shirt?***

5. FREE SOLO, de Elizabeth Chai Vasarhelyi e Jimmy Chin. Sobre o escalador Alex Honnold. Entusiasmante mas também perturbador, sobretudo pelas coisas que não são explicáveis.*****

6. THEY FIRST MAN, de Damien Chazell. Com Ryan Gosling e Claire Foy. Uma perspectiva intima sobre o percurso do astronauta Neil Armstrong que o levaria a ser o primeiro homem na lua. Não se trata, longe disso, de uma fita de aventuras, como se nota pelo ritmo. ****

7. ROMA, de Alfonso Cuarón. Com Yalitza Aparicio. Uma câmara que se limita a olhar quase silenciosamente. Tudo o que o filme tem para dizer, é assim que o faz, mostra em vez de explicar. A fotografia é um esplendor, num preto e branco muito evocativo, lírico e implacável. *****

8. LOVE, SIMON, de Greg Berlanti. Uma típica comédia romântica sobre adolescentes a descobrirem o amor. Bom, quase típica. E é este quase que lhe dá todo o interesse. Porque apesar de tudo, ainda não são frequentes os filmes dirigidos ao grande público, sobretudo o adolescente, que apresentam um retrato mais ou menos real de alguns dos problemas que os jovens gay enfrentam na descoberta do amor, e o fazem de uma forma tão positiva.****
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ligeiramente
rosas
innersmile
Uma tarde a minha mãe chegou a casa e estava ansiosa por me contar. Nesse dia, à hora do almoço, no pequeno centro comercial ao lado do trabalho, onde ia tomar café, tinha visto o poeta Fernando Assis Pacheco em demorada e tranquila conversa com o Sr. Machado, que era o mais conhecido livreiro de Coimbra.

A minha mãe sabia que eu era fã da escrita de Assis, fosse enquanto jornalista, poeta ou escritor de romances, crónicas ou novelas.

Eram deste tipo as coisas importantes que tínhamos urgência e prazer em partilhar um com o outro. As coisas quotidianas, quase inúteis. As coisas que apenas nos faziam agitar ligeiramente o coração, num sobressalto manso e feliz.

não tem consolo
rosas
innersmile
R., 1992

Quando os anos passarem
sobre esse teu desgosto
vais ver que te curaste
não de vez mas um pouco

pois o que a gente busca
nas dobras do amor
é a cura para a morte
que não tem consolo

e por falar em f'ridas
até as que mais doem
acabam por fechar
só ela vence o corpo


- Fernando Assis Pacheco, RESPIRAÇÃO ASSISTIDA

Faz hoje quatro anos que a minha mãe morreu.

leituras de fevereiro
rosas
innersmile
Foram as seguintes as leituras durante o mês de fevereiro.



Gostei muito deste romance musical, como lhe chama o autor. Nascido da vontade de contar a história do kuduro, Também Os Brancos Sabem Dançar, num registo em que a ficção e as memórias reais se cruzam, traça um mapa, e mesmo uma árvore genealógica, da música pop que se ouve hoje em dia, em especial a que resulta do cruzamento entre as músicas africana, sobretudo angolana e cabo-verdiana, electrónica e de dança.

Noutro plano, o livro de Kalaf Epalanga, de uma forma sempre positiva e bem humorada, reflete sobre o racismo,sobre o convivio, nomeadamente cultural e artístico, entre as raças,sobretudo a negra e a branca, e, de uma forma que podemos dizer mais política, sobre a forma como a Europa olha os contingentes de emigrantes e refugiados que todos os dias tentam passar as suas fronteiras.

Finalmente, Também Os Brancos Sabem Dançar é ainda uma generosa homenagem a Lisboa, e por extensão a Portugal, como o lugar perfeito onde as diferentes culturas africanas e europeias se podem encontrar de forma criativa.

Um livro 5 estrelas, escrito de forma simples e escorreita, com sentido de humor. Num tempo em que o racismo e os conflitos raciais voltaram às agendas noticiosas, são libertadores e esperançosos o olhar e as reflexões de Kalaf Epalanga.



Que fantochada. Li este livro porque me veio parar às mãos, passei os olhos por curiosidade, e percebi que o conseguia ler numa tarde. O único vago interesse que o livro possa ter é clínico, e resulta de tentar perceber a personalidade do seu autor.



Demorei muito tempo até chegar a este livro, mas ainda bem que cheguei. É difícil dizer o que é mais impressivo, se a qualidade gráfica da narrativa, se a força da história de quem viveu a revolução iraniana por dentro e enquanto adolescente, se a franqueza implacável com que é contada na primeira pessoa do singular uma história coming-of-age.



A elegância e a perfeição da escrita, a subtileza, a erudição e o humor de Jan Morris, criam um travelogue muito sui generis.

Como o título indica, a ideia é, mais do que descrever, talvez recriar o que era a vida em Manhattan no ano em que terminou a Segunda Grande Guerra. Vários aspectos são abordados, da política às artes, da economia aos transportes, das comunidades aos bairros, entre outros.

O resultado é o que deve ser o de um livro de viagens: falar-nos dos lugares e das pessoas, mas sobretudo captar a energia de um momento único. Mais do que incitar-nos à viagem, ser ele próprio uma viagem vívida e inesquecível.

the place where lost things go
rosas
innersmile
Como apenas vi a cerimónia dos Oscar's em diferido e dois dias depois, e não vi nenhum nos filmes candidatos (mentira, vi um), a coisa não me despertou grande entusiasmo.

O meu momento preferido foi este. A Divine Miss M!

Pôs-me lágrimas nos olhos, a letra é linda e comovente, principalmente para quem já teve perdas sérias na vida. Sobretudo quando cantou "Maybe all you're missing lives inside of you".



Do you ever lie
Awake at night?
Just between the dark
And the morning light
Searching for the things
You used to know
Looking for the place
Where the lost things go

Do you ever dream
Or reminisce?
Wondering where to find
What you truly miss
Well maybe all those things
That you love so
Are waiting in the place
Where the lost things go

Memories you've shared
Gone for good you feared
They're all around you still
Though they've disappeared
Nothing's really left
Or lost without a trace
Nothing's gone forever
Only out of place

So maybe now the dish
And my best spoon
Are playing hide and seek
Just behind the moon
Waiting there until
It's time to show
Spring is like that now
Far beneath the snow
Hiding in the place
Where the lost things go

Time to close your eyes
So sleep can come around
For when you dream you'll find
All that's lost is found
Maybe on the moon
Or maybe somewhere new
Maybe all you're missing lives inside of you

So when you need her touch
And loving gaze
Gone but not forgotten
Is the perfect phrase
Smiling from a star
That she makes glow
Trust she's always there
Watching as you grow
Find her in the place
Where the lost things go

bruno ganz, patricia nell warren
rosas
innersmile
Chegou por estes dias a notícia da morte do actor Bruno Ganz. O actor alemão tornou-se conhecido sobretudo pela sua interpretação de Adolf Hitler no filme A Queda, do qual várias cenas se tornaram memes na internet.

Mas eu tenho a sorte de conhecer o seu trabalho já desde os anos 70, quando ele fez, com Wim Wenders, O Amigo Americano, uma adaptação muito livre de um livro que, anos depois, se tornaria num dos meus livros preferidos, O Talentoso Mr. Ripley, da Patricia Highsmith. Aliás, comprei a minha edição do livro em Londres, em 1984, precisamente por causa do filme de Wenders.

Mas de todos os papéis que o vi fazer (ainda recentemente vi dois filmes com ele, O Leitor e O Complexo de Bader-Meinhof), aquele que ficou e sempre ficará comigo foi o de Damiel, um dos anjos de As Asas do Desejo, novamente dirigido por Wim Wenders, papel que retomaria na sequela So Faraway, So Close.

Der Himmel über Berlin, o belíssimo título original de As Asas do Desejo, é um dos meus filmes favoritos, que revejo frequentemente, e muito por causa do trabalho de Bruno Ganz, no papel de um anjo que sofre demasiado por causa do sofrimento humano, e que escolhe tornar-se num ser mortal por amor a uma trapezista de circo. Há sequências e diálogos do filme tão belos e tão tristes que sempre me dão vontade de chorar. Como esta do clip que ponho a seguir.



Foi através dos meus amigos da Index eBooks que soube a notícia de outra morte pessoalmente significativa, a da escritora norte-americana Patricia Nell Warren. Aliás, a Index deu-me o privilégio verdadeiramente sublime de ter livros meus editados pela mesma editora que publicou a única tradução em português do mais conhecido livro da escritora, The Front Runner, que na edição da Index levou o título O Corredor de Fundo (e que pode ser comprado aqui: http://www.indexebooks.com/o-corredor-de-fundo.html).

Li o livro em 2002, encomendado da Amazon, numa fase em que lia muita literatura gay, e talvez por isso a sua leitura não tenha sido um coup-de-foudre. Mas quando o reli, anos depois, a propósito da edição da Index, aprendi a respeitar mais aquela história, surpreendentemente inédita na altura em que foi publicada, meados dos anos 70, por apresentar um olhar francamente positivo de uma relação entre duas pessoas do mesmo sexo, para mais dois desportistas.

Talvez por isso, pelo olhar positivo e pela época em que foi publicado, o livro foi um enorme best-seller, estando semanas a fio nas listas dos mais vendidos. Lembro-me igualmente, na altura em que o li, de ter visto na net que ocupava o primeiro lugar nas listas de livros de temática gay preferidos pelos leitores.

Alguns anos depois, li a sequela Harlan's Race, que encontrei, numa edição em inglês, num livraria gay em Barcelona.


aperto libro, senhor sommer
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innersmile
Passei metade do mês de janeiro no hospital, e tanto nesse período como nos dias que se seguiram à alta, sentia-me tão fraco que não tinha sequer a capacidade de concentração necessária para a leitura. Ainda assim terminei o livro que já estava a ler antes de ser internado, e retomei a leitura, de forma muito lenta, com um livro que me emprestaram quando estava internado mas que só consegui começar a ler já em casa.



Ao longo dos últimos anos, à medida de um livro por ano, Eugénio Lisboa publicou cinco volumes das suas memórias, um livro de viagens, um volume póstumo das memórias dedicado in memoriam da sua sua mulher, e, agora, o primeiro volume dos seus diários.

Muitas das passagens dos diários tenham sido utilizadas nas memórias e por isso Lisboa publica agora o que dê certo modo “sobrou”. O período abarcado neste primeiro volume vai de 1977 a 1990, apesar de haver muitos intervalos em branco, mais ou menos extensos.

Para além das peripécias do dia a dia, em que EL não é muito prolixo, constituem matéria mais substancial destes diários as reflexões e impressões do autor acerca da arte em geral e da literatura em especial. Quer sobre as suas preferências quer sobre as suas embirrações e mesmo pequenos ódios. E quem conhece os livros de Lisboa sabe que ele não tem papas na língua nem se poupa nas críticas, sendo francamente, e por vezes um pouco injustamente, negativa a sua opinião sobre o estado da arte da literatura portuguesa, e ainda pior no que respeita ao millieu literário nacional.



Como disse acima, fui retomando o gosto pela leitura com um livrinho muito breve, A História do Senhor Sommer, da autoria de Patrick Suskind, que além de ter poucas páginas, muitas delas são ocupadas com fantásticas ilustrações de Sempé. É uma narrativa muito simples,quase juvenil, que constitui uma memória de infância, desconheço se com alguma correspondência na realidade ou se absolutamente ficcionada.

Trata-se de uma obra ternurenta e bem-humorada, mas onde o humor não esconde a tristeza e o drama da vida, os seus mistérios e as suas inevitabilidades. Inspirado e inspirador.

birthday boy
rosas
innersmile


Fiz hoje 57 anos. Durante o último ano, foram vezes demais aquelas em que pensei que não chegaria a este dia. Mas não sinto que ter chegado aqui tenha sido vitorioso. Não me consigo sentir feliz, tenho a alma demasiado pesada com preocupação e angústia pelo mais que possa acontecer. E já esta semana que se aproxima traz-me mais motivos de preocupação.

Mas o dia de hoje correu bem,e depressa. Estive bem disposto e tranquilo. Tive muitos telefonemas, todos me souberam muito bem, e recebi imensas mensagens. Encomendei o almoço, um belo caril de gambas a fazer-me lembrar outros caris da minha vida, e tive a melhor companhia que poderia desejar. À tarde tive visitas, e até o meu gato me veio visitar, apesar de parecer que está amuado comigo e não me ter ligado nenhuma. Mas eu amo-o na mesma.

Tive ainda um bolo, que foi o meu bolo de aniversário, e que foi especial, primeiro porque estava óptimo, e principalmente porque foi feito por uma senhora com 92 anos, num acto de generosidade que me comoveu.

mundu nôbu
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Foi uma daquelas associações, no caso nem muito inesperada ou surpreendente. O livro que estou a ler agarrou-me ao Google e ao YouTube, comecei a cruzar várias vezes com o nome do Dino d’Santiago e fui ouvir o seu mais recente disco Mundu Nôbu, editado em finais do ano passado. Excelente.

Lembro-me relativamente bem do Dino num dos primeiros concursos de talentos que houve na TV portuguesa, creio que foi a Operação Triunfo. Ao longo dos anos fui cruzando vagamente o seu nome, sem prestar grande atenção à sua música, nomeadamente o seu encontro com as raízes familiares, que o fizeram assumir no nome artístico o nome da ilha cabo-verdiana de onde a sua família é original.

Num dos intervalos do festival da canção da Eurovisão deste ano, que se realizou em Lisboa no mês de Maio, o meu momento preferido foi a participação de um coletivo de cantores luso-africanos organizado pelo músico de electrónica e dj Branko, que ficou conhecido com o êxito global dos Buraka Som Sistema. Os cantores foram a Sara Tavares, Plutónio, a Mayra Andrade e o Dino d'Santiago. Assisti ao festival num televisor com imagem e som péssimos, internado no hospital, mas depois não me cansei de ver e rever, e ouvir principalmente, essa sequência no YouTube.



Depois disto, e ao longo do ano, o Dino d’Santiago foi aparecendo no Instagram da Madonna, como um dos seus guias na cena da música que se vai fazendo em Lisboa com a marca e autoria das comunidades e dos músicos cabo-verdianos, moçambicanos, angolanos, guineenses e até brasileiros.

Tudo isto para dizer que adorei o disco Mundu Nôbu do Dino. Um conjunto de 10 canções onde o ritmo e o tom da música africana, em especial a de Cabo Verde, é como que filtrado, ou tratado, pela electrónica, num registo muito contido, quase minimal, que faz sobressair a voz e os arranjos vocais.

Não tem momentos fracos o disco, os temas conseguem soar ao mesmo tempo muito globais mas sempre muito fiéis a uma raiz, seja ela a ilha de Santiago ou a cidade de Lisboa. Aliás, Nova Lisboa, com produção de Branko, é um dos temas mais fortes do disco (e que fez parte do set do eurofestival), tal como o mais recente single a ser lançado, a fantástica Como Seria. Escolhi para ilustrar este texto aquela que foi, acho eu, a canção de apresentação do disco, Nôs Funaná, só porque me fez lembrar com mais intensidade a minha ida a Cabo Verde.

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intorno a me girava il mondo como sempre
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innersmile
O poder da música pop, desses três breves minutos de sonho e evasão, é fantástico.

Um tipo está triste e desanimado, a sentir-se a pessoa mais infeliz do 'mondo', num final de tarde do primeiro fim de semana do ano, na cama do hospital, com a máscara de oxigénio enfiada na cara, sem a qual a definição de respirar começa a ser um conceito muito indeterminado.

Na TV pendurada na parede da enfermaria, ao alto, em frente à cama, um filmezinho de final de tarde, uma comédia romântica, começa a prender-nos uma vaga atenção, dificultada pela falta dos óculos, que não encaixam na máscara de oxigénio.

Às tantas, numa sequência do filme alguém põe a tocar um disco com um antiquíssimo êxito da música italiana dos anos sessenta: Il Mondo, de Jimmy Fontana.

E por breves instantes o quarto de hospital desaparece, tudo parece desaparecer, e apenas apetece abrir os braços o mais possível, até conseguir tocar com os dedos o mundo que gira à nossa volta.

E este texto é para a Ana, que partilha comigo a capacidade de abrir os braços para tocar 'il mondo', mesmo nos momentos mais tristes.



No, stanotte amore
Non ho più pensato a te
Ho aperto gli occhi
Per guardare intorno a me
E intorno a me
Girava il mondo come sempre
Gira, il mondo gira
Nello spazio senza fine
Con gli amori appena nati
Con gli amori già finiti
Con la gioia e col dolore
Della gente come me
Oh mondo, soltanto adesso
Io ti guardo
Nel tuo silenzio io mi perdo
E sono niente accanto a te
Il mondo
Non si è fermato mai un momento
La notte insegue sempre il giorno
Ed il giorno verrà
No, stanotte amore
Non ho più pensato a te
Ho aperto gli occhi
Per guardare intorno a me
E intorno a me
Girava il mondo come sempre
Gira, il mondo gira
Nello spazio senza fine
Con gli amori appena nati
Con gli amori già finiti
Con la gioia e col dolore
Della gente come me
Oh mondo,…

same old same old
rosas
innersmile


Tinha pensado escrever uma espécie de balanço do que foi o ano de 2018, um verdadeiro annus horribilis, passado quase todo no hospital, com três intervenções cirúrgicas, duas delas major, e vários episódios de infecções bacterianas, alguns deles por bactérias hospitalares, muito resistentes, que só cedem a antibióticos muito agressivos. Cheguei ao fim do ano com um rim único, sem bexiga, e com uma urostomia cutânea.

Mas no fim de semana que antecedeu o Natal, foi-me diagnosticada mais uma pielonefrite. Passei o Natal no hospital a fazer antibiótico, depois fui para casa a fazer o tratamento em ambulatorio e em hospital de dia. Na véspera de Ano Novo, senti umas dores muito fortes no peito e vim ao hospital. Fiquei internado, julgo que com uma infecção pulmonar. Tenho imensa dificuldade em respirar, e qualquer pequeno esforço me deixa ofegante. Estou a fazer tratamento com outro antibiótico, juntamente com o que já estava a fazer.

Nunca tinha tido este tipo de infecção, e estou verdadeiramente à rasca e muito desanimado. Ano Novo? Nah. Same old same old. Assim não me apetece brincar mais...

inventário
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Como passei a maior parte do ano internado no hospital ou de baixa em casa, sem energia ou mesmo possibilidade de sair, este ano não há oportunidade para grandes balanços.

De qualquer forma, pelo menos no princípio do ano consegui ver uma excelente peça de teatro e uma mão cheia de filmes interessantes. Aqui fica lista.

Teatro

Actores, encenada por Marco Martins, e com o Bruno Nogueira, o Nuno Lopes, o Miguel Guilherme, a Rita Cabaço e a Carolina Amaral. No TAGV.

Cinema

Star Wars, The Last Jedi, de Rian Johnson
The Greatest Showman, de Michael Gracy
Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, de Martin McDonagh
The Post, de Steven Spielberg
Call Me By Your Name, de Luca Guadagnino
Phantom Thread,de Paul Thomas Anderson
Film Stars Don’t Die in Liverpool, de Paul McGuigan
The Florida Project, de Sean Bake
Lady Bird, de Greta Gerwig
Ready Player One, de Steven Spielberg
Mission: Impossible, Fallout,de Christopher McQuarrie

Por outro lado, tive muito tempo para ler, e, felizmente, não me faltou a disposição e a concentração necessárias para a leitura, tirando breves períodos em que não o conseguia mesmo fazer, como os pós-operatórios ou os momentos em que as infecções atacaram com mais força.

Não me lembro, em anos mais recentes, de ler tantos livros como neste que agora termina. Li livros de alguns dos meus autores preferidos (Rubem Fonseca ou Graham Greene, por exemplo), descobri uma nova escritora nórdica de policiais (a Sara Blaedel), fiz, ainda que poucas, releituras, li óptimas autobiografias.

Mas sobretudo li muitas bandas desenhadas e novelas gráficas. Não apenas porque era uma leitura que exigia menos compromisso nos momentos mais complicados, mas sobretudo porque descobri dois autores maravilhosos,que despertaram em mim a vontade de ler tudo o que escreveram e desenharam: Miguelanxo Prado e, principalmente, Jiro Taniguchi. Os livros do mestre japonês de mangá foram mesmo uma das poucas coisas boas que me aconteceram este ano, e muitas vezes a beleza das histórias, a sua natureza contemplativa e introspectiva, e uma espécie de sabedoria emocional profunda, me ajudaram a ultrapassar momentos verdadeiramente difíceis.

Público a seguir as capas dos meus cinco livros preferidos de 2018, e depois a lista completa dos livros lidos, agrupados por géneros, línguas, e afinidades afectivas.



Livros

Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula - Epílogo
Afonso Cruz, Jalan Jalan
Pedro Rolo Duarte, Não Respire
Rita Ferro, A Menina É Filha de Quem? (no Kindle)
José Saramago, O Último Caderno de Lanzarote

Rubem Fonseca, O Selvagem da Ópera
Rubem Fonseca, O Seminarista (no Kindle)
Eduardo Pitta, Persona (releitura)
Isabela Figueiredo, O Meu Tio
Afonso Reis Cabral, Uma História de Pássaros
Mia Couto, Mulheres de Cinza
Mia Couto, A Espada e A Zagaia
Mia Couto, O Bebedor de Horizontes
José Eduardo Agualusa, Vendedor de Passados (no Kindle)
Mário de Carvalho, Burgueses Somos Nós Todos ou Ainda Menos
Carlos Ademar, Na Vertigem da Traição
Luís Rainha, Adeus.
Germano Almeida, O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo
Nuno Oskar, Todo Teu - Aniversário (no Kindle)

Adília Lopes, Estar em Casa
Alberto de Lacerda, Labareda
Joaquim Manuel Magalhães, Para Comigo

John Boyne, The Heart's Invisible Furões (no Kindle)
Alan Bennett, The Complete Talking Heads
Jerome K. Jerome, Three Men On A Boat (releitura, no Kindle)
Haruki Murakami, Do Que Eu Falo Quando Eu Falo de Corrida (no Kindle)
Haruki Murakami, A Rapariga Que Inventou Um Sonho
Dawn French, Oh Dear Sylvia
Melissa Pimentel, Procura-se Homem (Sem Compromisso)
ET Ville, Bump This (no Kindle)
Alan Hollinghurst, O Caso Sparsholt
Richard Zimler, Os Dez Espelhos de Benjamin Zarco
Arturo Pérez-Reverte, Falcó
Arturo Pérez-Reverte, Eva

Graham Greene, O Terceiro Homem
Graham Greene, Ways of Escape
Robert Graves, Eu Cláudio
Yuval Noah Harari, Sapiens: História Breve da Humanidade
Paul Theroux, Sul Profundo
Patrick Leigh Fermor, Tempo de Silêncio
Felice Picano, Nights at Rizzoli (no Kindle)
Augusten Burroughs, Lust & Wonder (no Kindle)
Marina Abramovic, Walk Through Walls
David Lynch, Espaço Para Sonhar

Nelson DeMille, Vertigem Assassina
Sara Blaedel, As Raparigas Esquecidas
Sara Blaedel,O Trilho da Morte
Sara Blaedel, As Mulheres da Noite
Sara Blaedel, A Mulher Desaparecida
C.J. Tudor, O Homem de Giz
Lars Kepler, O Porto das Almas
Lars Kepler, O Caçador

Amedeo Balbi e Rossano Piccioni, Cosmicomix - A Descoberta do Big Bang
Miguelanxo Prado, Presas Fáceis
Miguelanxo Prado, Ardalén
Miguelanxo Prado, A Vida é Um Delírio
Miguelanxo Prado, Traço de Giz
Jiro Taniguchi, O Homem Que Passeia
Jiro Taniguchi, Terra de Sonhos
Jiro Taniguchi, O Diário do Meu Pai
Jiro Taniguchi, El Gourmet Solitario
Jiro Taniguchi, Paseos de Un Gourmet Solitario
Jiro Taniguchi, A Zoo in Winter
Jiro Taniguchi, Os Guardiões do Louvre
José Carlos Fernandes, A Agência de Viagens Lemming
Will Eisner, Um Contrato Com Deus
Edgar P. Jacobs, A Armadilha Diabólica
Yves Sente, O Julgamento dos Cinco Lords
Yves Sente, O Vale dos Imortais, Livro I

Granta 1, Fronteiras
Granta 2, Deuses

o selvagem, para comigo, o caçador
rosas
innersmile

Rubem Fonseca ensaia uma biografia pouco convencional e surpreendente do compositor e maestro brasileiro Carlos Gomes.

Hoje muito pouco conhecido, Gomes, o selvagem, caipira e caipora, foi, no século XIX, autor de várias óperas, algumas delas representadas no célebre Scala de Milão (e, já agora, no São Carlos de Lisboa), tendo vivido e trabalhado a maior parte da sua vida em Itália, mas sempre fiel à pátria e ao imperador.

Se o livro se distingue do que habitualmente encontramos na obra do autor, nem por isso foge à excelência da sua escrita e ao seu génio narrativo.


Em Para Comigo, Joaquim Manuel Magalhães revê, mais uma vez, a sua poesia, republicando dois livros, um deles que apenas conhecera edição de autor, e, o outro, o tão celebrado Toldo Vermelho.

Numa altura em que leio pouca poesia, os poemas de JMM atraem-me, primeiro pelo desafio, depois pelo mistério que vamos aprendendo a desvela a cada leitura.


O Caçador, da dupla sueca que assina com nome de Lars Kepler, traz-nos de volta Joona Linna. Podemos dizer que é mais do mesmo, mas para quem gosta, é eu gosto, isso é uma coisa boa.

consolo
rosas
innersmile
Faz hoje quatro anos levei a minha mãe para ser internada nos cuidados paliativos. Hoje, no culminar de um annus horribilis, qual cereja no topo do bolo, fiquei internado no hospital com mais uma infecção. Passo cá o natal, e, se as coisas não correrem de feição, posso ficar internado até ao ano novo, para poder fazer todo o curso do antibiótico.

Tive visitas, fiz a minha aula de italiano, li um pouco, e agora a única coisa que me fazia falta era poder ligar à minha mãe, ouvir a sua voz, sentir o seu consolo.

tarzan, febre
rosas
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Uma passagem do primeiro volume dos diários de Eugénio Lisboa, que estou a ler, traz-me de volta o nome de Edgar Rice Burroughs, o criador do célebre Tarzan. É engraçado, quando me lembro dos livros e dos escritores que me marcaram, vêm-me sempre à ideia aqueles que me formaram enquanto leitor, na idade adulta. Nunca me lembro dos que me marcaram na infância e na juventude, e desenvolveram em mim o gosto pela leitura.

É uma injustiça nunca referir o nome de Edgar Rice Burroughs na lista dos escritores que foram importantes. O Tarzan foi uma das personagens que de facto me preencheram a infância e até uma certa fase da adolescência. Comecei a ler as aventuras do Tarzan nos livros aos quadradinhos, mas lembro-me muito bem da minha mãe me estimular a ler os próprios livros do escritor. O Tarzan não foi apenas um dos meus heróis dos livros de aventuras, foi também, se bem me lembro, um dos primeiros, se não mesmo o primeiro, símbolo homoerótico que reconheci.



Mudando de tópico, desde ontem que voltei a fazer febre. Estou mesmo desanimado. Ainda não sei se é um nova pielonefrite ou se se trata de um resfriado. Amanhã vou fazer análises e se se confirmar a infecção, vou ter de fazer mais tratamento com antibiótico o que certamente implica internamento no hospital. All I want for christmas? Pois...

back in business
rosas
innersmile
Na sexta-feira fui ao serviço de manhã, e desde ontem que estou de novo a trabalhar. Entre março e junho trabalhei apenas 27 dias, e desde 15 de junho que não vinha sequer ao meu local de trabalho.

É muito estranho estar de volta. Não é apenas o tempo prolongado da ausência. É também o completo afastamento dos problemas, das pessoas, da cultura institucional. Durante todo este tempo estive exclusivamente concentrado na minha saúde, apenas focado no esforço de resistir, quer do ponto de vista físico quer em termos emocionais. O resultado é assim uma espécie de distância mental que dificulta o meu envolvimento nas questões do trabalho e a minha disponibilidade para os outros.

Mas é pior. Durante esta ausência o meu corpo foi seriamente mal tratado, e o meu cérebro também. Fiz grandes cirurgias, muito prolongadas, com anestesias muito pesadas. Foram cirurgias muito complicadas, com grandes perdas de sangue. Além disso fiz muitos tratamentos com antibióticos por causa de uma série (foram seis episódios) de infecções, algumas antes de fazer a nefrectomia, e outras mais recentes, na sequência da cistectomia. Quase todos esses antibióticos eram muito fortes e agressivos. Além disso ainda não me habituei completamente à urostomia, nem, principalmente, à ideia de que os acidentes acontecem e tem de se lidar com eles com alguma tranquilidade.

Ou seja, a minha capacidade de resistência física está muito diminuída, sinto algumas dificuldades de concentração e de memória. Ontem experimentei dificuldades em navegar no programa de correio electrónico, e hoje tive de pedir ajuda para gravar um documento em word porque, sob pressão do tempo e das solicitações externas, não consegui acertar nos comandos adequados.

Como diria a minha sobrinha-neta, isto não é fácil. Sinto-me assim um bocadinho a pairar, e não num bom sentido. Tenho receio de não recuperar o equilíbrio emocional e tenho ainda muitas inseguranças em relação à minha saúde, nomeadamente que as coisas tornem a descambar.

Mas hoje voltei a almoçar no refeitório, como fazia habitualmente, e, às tantas, dei por mim a pensar que este último ano, sobretudo os últimos seis meses, é como se não tivessem existido.

o terceiro homem, os guardiões do louvre
rosas
innersmile


O Terceiro Homem é uma novela que dá forma literária a um argumento cinematográfico da autoria do próprio Graham Greene. O filme, já agora, foi realizado em 1949 por Oliver Reed e conta com os desempenhos de Joseph Cotten e de Orson Welles nos principais papéis.

Rollo Martins é um escritor de livros de cowboys que inadvertidamente se vê perdido na selva política e policial da Viena nos tempos do final da segunda grande guerra, onde, entre outras desventuras, é confundido com um escritor sério que comunga do mesmo apelido do seu pseudónimo literário. Trata-se de um típico "herói" de GG: um loser que mantém um padrão moral quando tudo à sua volta se desmorona.

No fim deste texto, ponho um clip com uma das cenas mais famosas do filme, passada numa das cabines da roda gigante do Prater,e onde se pode constatar porque é que o Orson Welles era tão bom actor, com um esboço de sorriso onde aflorava o próprio sorriso do diabo.



Um dos meus livros preferidos do Mestre. Uma aventura solitária e contemplativa no museu mais famoso do mundo, onde a deriva fantasista e emocional nos conduz através das infindáveis salas estranhamente desertas.

Acho que apenas O Homem que Passeia, o primeiro livro que li de Jiro Taniguchi, me deu tanto ou mais prazer a ler do que este Os Guardiões do Museu.


selfie
rosas
innersmile
Comecei há uns dias a sentir vontade de publicar uma selfie mostrando a minha urostomia. Acho que esta vontade resulta de vários factores. Primeiro, por uma questão de identidade. É este que eu sou agora, é esta a realidade. E mostrar uma foto da urostomia ajuda-me, porque os outros são o nosso reflexo, a assumir que este é o que eu sou agora.

Por outro lado, há já duas semanas que não tenho infecções, e nasce a esperança de que possa estar a caminho de um nova normalidade. A minha vida nunca mais vai ser como era, mas vai haver uma outra maneira de viver a vida. E faz parte deste processo de encontrar uma nova normalidade assumir que, agora, sou uma pessoa ostomizada.

Contra publicar a foto, há sobretudo uma razão de pudor. A urostomia é uma coisa íntima, e tem limites a parte da minha intimidade que estou disponível para partilhar com os outros, sejam eles amigos mais chegados, meros conhecidos ou completos estranhos. Mas pudor por vezes pode-se confundir, e estou apenas a falar por mim, com vergonha, e vergonha é o que eu não quero sentir em relação à urostomia. Aliás, já tive sentimentos de vergonha na minha vida que chegaram, não preciso de mais.

De certo modo, mostrar uma foto da minha urostomia é como sair do armário. E também por isso dizia que mostrar uma selfie não é apenas um gesto destinado aos outros, é também, e sobretudo, uma maneira de me ajudar a construir uma nova imagem de mim próprio, a minha selfie mental. Tenho de atingir um ponto em que, quando penso em mim, penso-me como uma pessoa ostomizada. Da mesma maneira que quando penso em mim, estão presentes todos os outros aspectos da minha vida que constituem a minha identidade e até a minha maneira de ser.

Claro que não consigo por uma selfie com a urostomia no Facebook, aquilo é um antro de coscuvilhice. Apetecia-me publicá-la no Instagram, mas mesmo aí ia-me sentir muito exposto. Pelo menos neste momento, pode ser que mais tarde publique. Por isso só faz sentido por a foto aqui, nesta espécie de diário aberto, um lugar que me dá, ao mesmo tempo, o aconchego da intimidade e a liberdade do anonimato.


benjamin zarco, blake & mortimer
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Adorei este mais recente livro de Richard Zimler. Li-o com o coração, e muitas vezes com os olhos rasos de água. É impossível não amarmos a personagem de Benni,mas também Shelly, George ou Ewa. Aliás, a sequência narrada por Ewa, que conta como Benni conseguiu escapar aos nazis, foi a minha preferida.

Gostei do aspecto místico do livro. Apesar de não ser dado a misticismos, neste livro esse aspecto é sempre misterioso, nunca é claro se as coisas acontecem mesmo ou se são projecções emocionais das personagens, modos de lidar com realidades que nos ultrapassam.

Mas achei sobretudo um livro de uma ternura imensa, o que é tanto mais admirável quanto o livro aborda a questão tão dolorosa do holocausto e dos seus sobreviventes.



A primeira parte de uma nova aventura da dupla Blake & Mortimer. Yves Sente, o novo argumentista da série, consegue criar um ambiente muito próximo ao das histórias originais de E.P. Jacobs, de onde resulta um livro entusiasmante e divertido.

the fighter still remains
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In the clearing stands a boxer
And a fighter by his trade
And he carries the reminders
Of every glove that laid him down
Or cut him till he cried out
In his anger and his shame
"I am leaving, I am leaving"
But the fighter still remains


Ontem à noite vi no Instagram do Paul Simon um clip de um concerto no Hyde Park, em 2012, com a última estrofe da canção The Boxer, que deve ser a minha canção preferida, já agora numa versão muito bonita, com um cheirinho a country (está neste link: https://www.instagram.com/p/Bqx3Y4JBVik/?utm_source=ig_share_sheet&igshid=15hcot7332lyy)

Já devo ter aqui escrito que o disco Bridge Over Troubled Water, onde aparece o original desta canção, da dupla Simon & Garfunkel, foi um dos meus primeiros LPs. Vem já do tempo de Moçambique, troquei-o pela minha bicicleta, com um miúdo da minha rua. Para além da música, este disco deu-me as minhas primeiras e mais eficazes lições de inglês, tanto mais que tinha um encarte com as letras das canções, o que na altura, acho eu, não era muito vulgar.

Não consigo expressar o quanto gosto desta canção, tudo o que ela me diz, e, é claro, a quantidade de vezes que a ouvi. Conheço versões fabulosas, mas prefiro sempre ouvi-la cantada pelo Paul Simon, com ou sem o Art Garfunkel, na versão original do disco ou numa das incontáveis versões ao vivo.

Mas ontem à noite, a ouvir quase em loop o clip com essa tremenda última estrofe, achei que era de mim que o Paul Simon estava a falar, e desatei a chorar.

biblioteca de alexandria
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"Quando eu tinha os meus cinco ou seis anos, disse-me que numa vida passada trabalhara na Biblioteca de Alexandria.
- E que trabalho fazias? - perguntei-lhe. Íamos de mãos dadas a caminho da escola.
- Nada de importante; limitava-me a manter tudo arrumado e limpo - respondeu, como se fosse a coisa mais natural do mundo acreditar nisso.
- Gostavas de lá trabalhar?
O seu rosto iluminou-se.
- Céus, se gostava! Podia ler todos os pergaminhos que me apetecesse e era fluente em grego e egípcio. À hora do almoço ia nadar no Mediterrâneo. Água quente, mulheres bonitas, sol, cerveja, bons livros... Eu, eu tinha tudo o que queria!"


- Richard Zimler, OS DEZ ESPELHOS DE BENJAMIN ZARCO (Porto Editora)

bernardo bertolucci
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O primeiro filme de Bernardo Bertolucci que vi no cinema foi o díptico 1900, em duas sessões especiais, ao fim da tarde, no velhinho Teatro Avenida, na Avenida Sá da Bandeira. Nessa altura apenas conhecia o nome do realizador pela fama de dois dos seus filmes anteriores, A Estratégia da Aranha, e sobretudo O Último Tango em Paris, um filme que deu escândalo um pouco por todo o mundo, e nomeadamente em Portugal, onde apenas estreou depois do 25 de Abril, e que eu apenas vi alguns anos depois, em vídeo.

Depois de 1900 acho que vi quase todos os filmes de Bertolucci, desde o seguinte La Luna, que também deu um certo escândalo por abordar o tema do incesto, até ao recente The Dreamers, um filme que tentou recuperar para o realizador italiano uma certa aura subversiva.

Pelo meio, Bernardo Bertolucci fez alguns filmes que o tornaram num realizador mais popular, como o oscarizado O Último Imperador, Um Chá no Deserto ou O Pequeno Buda. Nesta fase, o realizador deixou de merecer os favores da crítica, mas eu continuei a gostar imenso dos seus filmes.

Gosto de um certo tom culto, diria mesmo literário, dos seus filmes. Aliás, Um Chá no Deserto foi mesmo a adaptação de um romance autobiográfico de Paul Bowles. Hoje já não há muitos cineastas assim, e Bertolucci aparece como um dos últimos representantes do grande cinema italiano de meados do século passado, o cinema que nos deu cineastas como Fellini, Antonioni, Visconti ou Pasolini.

Tenho ainda de confessar que outra das razões porque gosto muito dos seus filmes é porque vários deles têm bandas sonoras escritas pelo Ryuichi Sakamoto que é um dos meus compositores favoritos.

255
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Arrepiei-me verdadeiramente com as notícias, e as imagens, do desastre que aconteceu a semana passada com a derrocada da estrada que liga Vila Viçosa a Borba, junto à zona das pedreiras do famoso mármore de Vila Viçosa.

Há perto de um ano, passei, com duas amigas, a semana entre o Natal e o Ano Novo em Vila Viçosa, e foram inúmeras as vezes que passámos por essa estrada que agora caiu. E o que me arrepiou foi precisamente o facto de ter passado tantas vezes por essa estrada sem a mínima noção, nem digo do perigo, mas de que estava a passar pelo topo de um estreito muro que separava os poços vertiginosos de duas pedreiras.

Não sendo propriamente uma estrada interessante, tinha algumas características que a tornavam apelativa. Desde logo o facto de ficar junto à pousada onde ficámos instalados, no Paço Ducal de Vila Viçosa, poupando-nos a ter de atravessar toda a povoação para ir apanhar a variante. Depois, por essa estrada Borba ficava “logo ali”, uma cidade com o seu atractivo, nomeadamente em termos históricos. Finalmente, as próprias pedreiras emprestam um certo atractivo a esse percurso, com a sua imponência e sensação de estranheza quase lunar.

Por outro lado, durante esses dias não vi ou tomei conhecimento de qualquer alerta para a eventual perigosidade da estrada. Além disso posso garantir que quem nela transitava não tinha a mínima noção de como a plataforma da estrada era estreita e de como era vertiginosa a profundidade das pedreiras logo ali ao lado da estrada. Acredito que se alguma vez tivesse visto as imagens aéreas que agora foram divulgadas nunca teria transitado pela estrada. Ou, vá lá, tinha lá ido, sozinho, uma única vez, espreitar as pedreiras de mármore.
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aprender a cair
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Ontem uma amiga enviou-me por mensagem o link para o clip de uma canção recente da Márcia, que se intitula Tempestade. Gosto muito da Márcia, até já assisti a um concerto dela, apesar de não ser um ouvinte frequente da sua música. Mas acho que ela tem algumas características que me agradam bastante. Gosto de um tom sempre um pouco cool que ela imprime às canções e à sua maneira de cantar, gosto das letras das canções, que são sempre sérias e reflexivas, gosto da simplicidade do resultado dos seus trabalhos.

Na mensagem que escreveu a acompanhar o link, e pegando nas palavras da canção, a minha amiga diz que se arrepiou quando a ouviu porque se lembrou logo dos “azares” que tem tido, e também dos meus. De facto, esta minha amiga tem passado por tempos extremamente difíceis, que têm a ver com a sua condição de Mãe, e porque não há maior aflição nem maior angústia do que a de uma Mãe que tem um filho com graves problemas de saúde.

Comoveu-me muito que ela tenha partilhado comigo a canção da Márcia, e que tenha arranjado, no meio do seu próprio sofrimento, espaço e disponibilidade para pensar em mim e nos meus “azares”. A canção, como seria inevitável, agarrou-me à primeira, por várias razões, uma das principais, claro, por causa da letra, que fala da necessidade que temos de aprender a passar por maus momentos, de aprender a atravessar a tempestade.

É evidente que estas palavras da canção da Márcia me dizem muito, para mais cantadas no seu tom suave e descomprimido. Fica-me nos ouvidos e na mente, quase como um mantra, esta frase melódica do refrão: “e aprender a cair”. Acho que já aprendi há muitos anos a resistir, a aguentar-me de pé. Se calhar neste momento estou mesmo a aprender a cair.



Espera sempre dos momentos
Alguma coisa que ao passar
te leve mais além
A mais algum conhecimento
Mas não queiras salvamento
se faltar a alguém

Dança o teu azar
enterra-o por aí
Vem passar por dentro
da tempestade
Lança-te a voar
nada como abrir
as asas ao vento
e aprender a cair

Convence o próprio pensamento
a abrir as portas para passar
sem vetar ninguém
Cada Ser seu sentimento
e talvez o salvamento
nos salve a nós também

Dança o teu azar
enterra-o por aí
Vem passar por dentro
da tempestade
Lança-te a voar
nada como abrir
as asas ao vento
e aprender a cair

espaço para sonhar
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A principal originalidade deste livro é ser escrito a duas vozes. Cada capítulo estrutura-se, ainda que de forma um pouco flexível, à volta dos grandes projetos cinematográficos de David Lynch, e é constituído por duas partes.

Uma primeira, mais narrativa, escrita por Kristine McKenna, segue os trâmites da biografia clássica, quer no tocante as fontes de informação (familiares, colaboradores, amigos, bem como fontes documentais) quer quanto à quantidade e ao detalhe das informações.

A segunda parte de cada capítulo é da autoria do próprio David Lynch e constitui-se umas vezes essencialmente como um comentário ao texto precedente, outras como um verdadeiro registo memorialista.

No conjunto, Espaço para Sonhar não apenas traça o percurso pessoal e artístico de Lynch, como nos dá pistas e abre caminhos para conhecermos mais e melhor uma das mais fascinantes, originais, estranhas e misteriosas obras cinematográficas contemporâneas.

E, claro, é um regalo para os fãs do realizador. Pessoalmente, deu-me especial prazer ler os capítulos dedicados aos meus filmes preferidos de David Lynch: Blue Velvet, Wild at Heart, e The Straight Story, o meu preferido de todos.

tacto
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as paredes afastam-se
lentamente
do lugar a que chamam lar

os olhos ainda procuram
ávidos de beleza
a cor refulgente do sol a bater nos vidros

a mão tacteia, em vão
a imponderável expressão do sono

guarda-me, ao menos, na memória dos teus sonhos
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A segunda aventura de um novo herói criado por Arturo Pérez-Reverte, Lorenzo Falcó, um esbirro ao serviço das polícias secretas nacionalistas no tempo da guerra civil espanhola. Como o próprio autor definiu, Falcó é um verdadeiro f-d-p, mas tem um charme aventureiro que o torna irresistível.

Se o primeiro livro da série terminava em Portugal, este segundo começa com uma sequência alucinante nas ruas de Lisboa. Depois a acção muda-se para Tânger, e, pelo menos na minha opinião, vai perdendo algum fôlego narrativo.

Por outro lado, se Falcó e Eva se tornam um pouco estereótipos, o pistoleiro Paquito Arana é delicioso e uma nova personagem, Moira Nikolaos é mais uma belíssima personagem bem ao estilo das criadas pelo autor.

Além disso, a escrita de Perez-Reverte é sempre deliciosa e os pormenores de caracterização de ambientes, épocas e personagens têm a qualidade e o rigor habituais no autor.



Este segundo número da Granta em Língua Portuguesa ainda não me conseguiu convencer inteiramente das vantagens de reunir autores dos vários países lusófonos, tanto mais que apenas publica textos de autores brasileiros e portugueses, deixando de fora as riquíssimas literaturas africanas em língua portuguesa.

Entre os textos originais em português, gostei muito do da brasileira Vanessa Bárbara, e também dos da portuguesa Ana Cristina Leonardo e do veterano contista brasileiro Sérgio Sant'Anna. Com exceção do conto de Isabel Rio-Novo, que me fez recordar o tom um pouco gótico dos textos de Teresa Veiga, os restantes textos originais em língua portuguesa deixaram-me mais ou menos indiferente.

Como acontece habitualmente os meus textos preferidos são os traduzidos da edição original da Granta. Adorei o de Claire Messud, que me comoveu imenso, e também gostei bastante dos da canadiana Susana Ferreira, sobre o crescimento das religiões evangélicas no Haiti e a forma como têm contribuído para o desaparecimento da tradicional religião vudu, e da reportagem sobre O Prisioneiro da guerra santa, da autoria de Wendell Steavenson.

Este volume traz ainda dois ensaios fotográficos, que não me entusiasmaram por aí além, excelentes ilustrações de André da Loba, e uma capa fabulosa de André Carrilho, como de resto é habitual deste autor.

último caderno
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Um regresso, apesar de tudo inesperado, dos Cadernos de Lanzarote, os diários que José Saramago publicou ao longo dos anos 90.

E sauda-se o regresso do Autor, dos seus apontamentos, das cartas que escreveu, dos artigos e dos textos de conferências e apresentações, porque é sempre um prazer e uma lição podermos acompanhar o escritor fora do seu espaço nobre, ou seja a obra literária que pretende trazer a público.

Isto apesar de ser mais ou menos evidente que este volume tem uma razoável dose de decisão editorial, ou seja não se trata de um texto que vem a luz tal como o seu autor o projectou e realizou.

Esta em princípio derradeira edição dos Cadernos tem o chamariz de abranger o ano em que Saramago recebeu o Nobel, 1998.

um dia de ilusão
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Estive mais uns dias internado no hospital com nova infecção, e chegou-me, através das redes sociais, a notícia da morte de Maria Guinot. Há muitos anos, a participação de Guinot no festival da canção, e depois no festival da Eurovisão,foi tão inesperada quanto inesquecível. Praticamente sozinha em palco, acompanhando-se ao piano, Guinot cantou, de sua autoria, Silêncio e Tanta Gente, uma balada introspectiva, capaz de nos deixar, ao mesmo tempo, mansamente tristes e melancolicamente alegres.

O ano dessa arrebatadora canção foi um dos anos impossíveis da minha vida, tanto que assisti ao eurofestival em Londres, onde estava fazer tratamentos para o cancro, cujos efeitos, desses tratamentos, a longo prazo, são a causa dos problemas de saúde de que sofro actualmente.

Desde esses tempos longínquos, ouvi dezenas de vezes essa canção da Maria Guinot e se bem que nunca tenha deixado de ser uma das canções da minha vida, foi ficando arrumada na poeira das nossas memórias emocionais mais ou menos intensas.

Mas há uma frase, a do refrão, que continua a ser poderosíssima, tão verdadeira em todos os momentos da minha vida, aliás tão verdadeira quão cheia de sortilégio. É uma benção tanto quanto uma quase maldição, essa ideia de que todos os dias estamos dispostos, e fazêmo-lo deveras, a trocar as nossas vidas por um dia de ilusão.


tatul
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Uma destas noites estava a dar uma voltinha pelo facebook antes de me ir deitar, e dou com este clip no meu mural, publicado por uma das pessoas que eu sigo na rede social, ela própria uma artista que já tive oportunidade de assistir a um concerto que deu cá em Coimbra.



Fiquei de imediato encantado e fascinado pela música e pelo seu intérprete, pelo som do instrumento. Evocou-me o canto do muezin, ouvido nas ruas sinuosas do souk de Marraquexe ou nas margens tranquilas e misteriosas do Nilo. Evocou-me a cidade velha de Damasco ou a estrada que atravessa o deserto na Síria, quando chegamos a Palmira. Ou o céu profundo da noite num acampamento no Wadi Rum.

Um sentimento ao mesmo tempo de paz e exaltação, de uma solidão triste e tranquila, mas ao mesmo tempo de intensa comunhão com os meus irmãos humanos. A certeza aguda de que a minha vida é forte como tudo o que é humano e frágil como todo o transcendente, ou vice versa.

Encontrei outros clips no YouTube e apurei muito pouco, apenas que o miúdo se chama Tatul Hambardzumyan, terá sete anos de idade, à volta disso, e é considerado um menino prodígio a tocar o duduk, um instrumento de sopro tradicional da Arménia.

Mas nenhum dos outros clips que ouvi na net se igualam a este. É a música, sem dúvida, que nos chama a atenção para a leveza espessa do ar. É o sortilégio do som do instrumento, que parece apelar ao que trazemos dentro de nós. Mas é também o admirável contraste entre a fragilidade vertical de uma criança a tocar de olhos fechados, e todo o poder do mundo contido na música que ele executa.
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