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leituras de março

Foram as seguintes as leituras do mês de março.


Um thriller emocionante que nos leva ao coração do regime totalitário da Coreia do Norte, ou seja aos próprios Kim, os grandes, queridos e amados líderes. Um dos aspectos interessantes do livro é a forma como ele assenta não apenas na realidade da Coreia mas na sua própria história, o que contribui decisivamente para o efeito de suspensão da incredulidade.


Nova edição do volume que reúne toda a poesia de Fernando Assis Pacheco, aumentada com inéditos. Sou fã da escrita de FAP, seja a poética, seja a prosa, de ficção ou jornalística. Mas os seus poemas são verdadeiramente incontornáveis, entre muitas outras razões pelo conjunto de poemas que reflectem, e reflectem sobre, a sua experiência da guerra colonial. Mas o que verdadeiramente me prende na poesia de FAP é o modo como ela testemunha o olhar de quem vive os dias, de quem vive os outros, de quem vive o mundo.


Um thriller bem esgalhado, com excelente ritmo e uma grande capacidade de nos prender a atenção e fazer querer ler sempre mais uma página. Passa-se em Londres, o tempo está sempre húmido e gelado, tem um serial killer à solta, e uma detective policial sui generis.


A primeira aventura publicada por Edgar P. Jacobsen. Longe do apuro de Blake e Mortimer, mas já a prometer uma arte limpa e uma narrativa de aventuras.


Apesar de faltarem alguns aspectos habituais das histórias de Blake e Mortimer (como a ficção científica ou o mundo da espionagem), este Caso do Colar traz os dois heróis para as ruas e principalmente para os subterrâneos de Paris, num thriller policial puro.


Uma excelente biografia de uma das mais consagradas figuras da literatura portuguesa contemporânea. Mesmo para quem, como eu, não é grande leitor da obra de Agustina. Isabel Rio Novo escreve esta biografia, não apenas baseada em entrevistas e documentos históricos, mas principalmente numa close reading da obra agustiniana, e é esse aspecto que lhe confere uma marca de destacada qualidade.


A vantagem deste livro é a de que em duas tardes conseguimos ficar com uma ideia muito razoável, se não da história da Alemanha, pelo menos das linhas principais da sua evolução história, dos seus principais protagonistas, dos acontecimentos mais marcantes.
A desvantagem é que o livro tem, logo à partida, "uma tese" e limita-se a olhar a história da Alemanha, com o único e firme propósito de a confirmar.
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abide my time

O passado já passou mas há cicatrizes que, depois da queimadura da ferida, guardamos com um certo sentido de beleza.

Mesmo quando, entre o passado que passou e aquele que ainda está a passar, muita água tenha já corrido sob a ponte, água tumultuosa, escura e profunda, densa e dura.

Como uma canção que conhecemos e amamos desde sempre, e da qual, um dia, na primavera, de maneira inesperada, solar e precisa, descobrimos o verdadeiro sentido.

Como se sempre tivesse estado à nossa espera, aguardando o momento em que a canção e a nossa vida se encaixassem na perfeição.

E que de vez em quando ouvimos e nos lembramos, não da ferida magoada, mas da feliz cicatriz.

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the crown

Houve aí uma altura em que se dizia que o cinema tinha perdido vitalidade e que a sua capacidade de reflectir a vida se tinha passado para as séries de televisão. Hoje em dia, com o aparecimento e a diversificação das plataformas que disponibilizam conteúdos audiovisuais, por assinatura, já não tenho a certeza de que isso ainda seja verdade. A maior parte das séries que encontro nessas plataformas são pobres, quer do ponto de vista dos valores de produção quer do ponto de vista narrativo. Mas há exceções.

E uma delas, de que acabei de ver as duas temporadas já produzidas, é The Crown, cujo tema é, grosso modo, o reinado da Rainha Isabel II, de Inglaterra. A série foi escrita por Peter Morgan, o mesmo autor que escreveu, aqui há uns anos, o filme The Queen, que deu um Oscar a Helen Mirren precisamente no papel de Isabel II. Entre a equipa de realizadores está o Stephen Daldry, que tem no currículo filmes como Billy Elliot, As Horas ou O Leitor.

A série está de facto muito bem escrita, tentando ser o mais fiel possível à verdade da História, mas não desperdiçando as oportunidades de conflito. O retrato psicológico de Elizabeth tem densidade e, principalmente, ajuda a caracterizar não apenas a sua personalidade, mas o modo como encarou a responsabilidade que lhe calhou e a marca que quis imprimir ao seu reinado.

Para além de muito bem escrita, a série tem um elevado valor de produção, ou seja, teve grandes recursos e soube utilizá-los muito bem. Como se vê logo pelas escolhas do elenco, mas também por muitas outras razões: as escolhas dos sets, a qualidade dos cenários exteriores, a preocupação e o rigor das reconstituições dos interiores.

Para além de nos mostrar o que é a vida das realezas lá nos altos palácios onde habitam, a série traça de igual modo um retrato muito eficaz de como se fazia política em Inglaterra nos anos do pós-guerra (e que em muitos aspectos se mantém actual). E ainda, numa espécie de reflexo do reflexo, do que era vida da classe média inglesa, ainda que, na série, ela seja apenas entrevista, um pouco desfocada, através dos vidros nem sempre muito transparentes das janelas dos automóveis de luxo.
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ao volante pela cidade

Chegou, pelas redes sociais, a notícia da morte do arquitecto Manuel Graça Dias. Nos anos 80 e 90, creio que nas páginas do jornal O Independente, o arquitecto escrevia crónicas que eu lia religiosamente. Foram esses textos que me ajudaram a criar e a alimentar um gosto pela arquitectura, e também um modo diferente de ver, e viver, as cidades. Nesses artigos de jornal, e também nos livros que Manuel Graça Dias publicou, um deles, Ao Volante pela Cidade, ainda o devo ter aqui por casa.

Não conseguimos evitar um sentimento de empobrecimento, e de tristeza, quando partem aqueles que, mesmo sem o saberem, tanto contribuíram para o nosso conhecimento, para a nossa cultura, para o enriquecimento das nossas vidas.
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o limerick da bactéria

Havia na Internet um chato de um bestunto
Que um dia desarvorou e deixou de ser assunto
Mas como uma bactéria
Que não deslarga a matéria
Volta e meia que não volta, reaparece o defunto


Há muitos anos que eu não escrevia um limerick. Este é, como todos os outros, um poema supostamente jocoso e com endereço, como devem ser os limericks.

Mas hesitei em pô-lo aqui. Eu sou supersticioso e acredito no karma. Ora, a vida já me tem feito tantas maldades, que eu não quero ser mauzinho e despertar mais bad vibes.

Quero ser bonzinho, e quero sê-lo com toda a gente. Mas há coisas, e situações, e pessoas, que nos fizeram mal e que por isso as deixámos lá atrás, exactamente no lugar onde nos magoaram e do qual nos afastámos em definitivo.

Por isso, sem karma, aqui fica o limerick da bactéria.
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american crime story

Vi de seguida as duas temporadas de American Crime Story, a série da autoria do Ryan Murphy, criador, produtor e realizador de séries de TV e de alguns filmes de que gostei muito.

Adorei a primeira temporada, The People v. O. J. Simpson, a recriação do julgamento de OJ por homicídio da sua ex-mulher e de um seu amigo, uma sucessão de eventos que dominou os media de todo o mundo, ali por meados dos anos 90. A recriação histórica, a capacidade de dar espessura e densidade psicológica às personagens, o constante movimento da acção, com as suas tendências e reviravoltas, são alguns dos vários factores que me puseram sempre ansioso por ver mais um episódio, mais uma sequência.

Já não achei tão interessante a segunda temporada, The Assassination of Gianni Versace, que se centra sobretudo em acompanhar a descida aos infernos da alma encetada por Andrew Cunanan, o assassino do célebre designer italiano. A própria estrutura e sequência dos episódios prejudica, acho eu, o sentido de progressão da narrativa. Além disso, a tentativa de reconstruir um quadro emocional ou mental em processo de desagregação, e que culminaria na série de crimes que o assassino perpetrou em pouco tempo, não me convenceu muito, achei-a superficial e artificial.
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ventre calmo da terra

TRAVESSIA DO DESERTO

Que caminho tão longo
Que viagem tão comprida
Que deserto tão grande
Sem fronteira nem medida

Águas do pensamento
Vinde regar o sustento
Da minha vida

Este peso calado
Queima o sol por trás do monte
Queima o tempo parado
Queima o rio com a ponte

Águas dos meus cansaços
Semeai os meus passos
Como uma fonte

Ai que sede tão funda
Ai que fome tão antiga
Quantas noites se perdem
No amor de cada espiga

Ventre calmo da terra
Leva-me na tua guerra
Se és minha amiga


Conheço esta canção do José Mário Branco há décadas, desde que o disco Ser Solidário foi editado, um dos melhores discos da música popular portuguesa de sempre. Já ouvi a canção dezenas de vezes, nomeadamente ao vivo. E, no entanto, as circunstâncias da vida fazem descobrir novos sentidos. Mais pessoais, mais íntimos. Mais dolorosos.

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after life

Gosto muito do Ricky Gervais. As séries The Office ou Extras estão entre as coisas mais geniais que eu já vi em termos de comédia. Mas há qualquer coisa que me incomoda nele, mais até na sua stand up, e que é uma certa implacabilidade, que por vezes chega a ser cruel. Às vezes a comédia do RG até me parecia conter um certo desprezo pela condição humana, pelas nossas fragilidades e fraquezas. A verdade é que eu achava o Ricky Gervais muito divertido, mas sentia um certo medo.

Até que comecei a ver, há poucos dias, a sua nova série, After Life. A princípio pareceu-me reconhecer a sua habitual crueldade, mas aos poucos fui percebendo melhor a série e o seu protagonista, Tony, bem como as restantes personagens. E o ponto é que cada episódio me divertiu imenso, mas também me comoveu muito, quase ao ponto das lágrimas nos olhos.

Por detrás do humor implacável de Gervais, descobre-se um olhar humano, demasiado humano, compassivo, cheio de uma ternura pelos nossos aspectos mais frágeis, que são precisamente os mais ridículos e risíveis. Acho que After Life, ao fim destes seis episódios, já é uma das minhas séries preferidas de sempre.
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notícias

morreste, foste embora
trocou-se uma ausência
por outra

os dias lá foram andando
a vida vivida como
uma doença incurável

lembro-me de ti
vez em quando
uma hora por outra

mas vejo-te ao longe
como se o teu silêncio
fosse indolor

uma leve perturbação
incómoda e aguda:
não tenho notícias
não sei nada de ti