rosas

melhor do que o silêncio

Ontem à noite, quando me ia deitar, vi nas redes sociais a notícia da morte de João Gilberto. Vieram-me logo à ideia dois versos de uma canção do Caetano Veloso: "melhor do que isso só mesmo o silêncio, melhor do que o silêncio só João". A canção chamava-se Pra Ninguém, e é de um dos melhores discos do Caetano, Livro. Se não me engano, é o tema que encerra o alinhamento do disco, o Caetano escolhia sempre umas canções muito especiais, muito delicadas, para fechar os álbuns.



João Gilberto foi um músico excepcional, quer como cantor, quer como executante do violão. Mas foi também, e sobretudo, um revolucionário da música. Conjuntamente com um grupo de outros músicos, entre eles o António Carlos Jobim, criou a Bossa Nova, um estilo musical que transformou a canção popular brasileira numa das mais perfeitas expressões mundiais da música popular.

O seu disco Chega de Saudade é o disco seminal por excelência da Bossa Nova. Mas quando ouço na minha mente o João Gilberto a cantar, e sempre nesta que foi, talvez, a primeira canção de João de que me lembro, lá no tempo já longínquo da infância.

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crochet



Quando penso na minha avó, a imagem que me vem imediatamente à ideia, é a dela sentada numa das cadeiras da sala de jantar, encostada à janela que ficava entre a sala de jantar e de visitas, a ler mas sobretudo a fazer crochet. A minha avó fazia crochet continuamente, trocava amostras, fazia naperons e outros trabalhos normalmente com uma linha Âncora absolutamente alva.

Ao pequeno-almoço a minha avó tomava bebidas de cevada com chicória, como o Mokambo ou o Pensal, que vinham em enormes frascos cilíndricos de vidro, que, depois de vazios, se usavam para guardar as coisas da despensa.

A minha avó lembrou-se de começar a fazer capas em crochet para forrar os frascos e eles ficarem mais bonitos. Quando esvaziei a casa dos meus pais, depois da morte da minha mãe e do meu pai ter ido para a casa de saúde, encontrei um desses frascos na despensa.
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leituras

Continuo a entrar e sair do hospital por causa das infecções. Desde a última vez que escrevi aqui, já tive alta e, ao fim de 6 dias em casa, voltei a ser internado, e hoje tive alta de novo. Claro que com isto tudo as leituras ficam para trás, tanto mais que, muitas vezes, nem sequer tenho disposição para ler. Assim, nos últimos meses apenas li os livros seguintes.


Um thriller jurídico que aborda a questão dos crimes de guerra e dos tribunais penais internacionais. Tem os seus momentos mas achei um bocadinho arrastado.


Uma colecção dos textos que JSM escreveu sobre teatro ao longo de toda uma vida dedicada ao texto e ao palco. Tratando-se, naturalmente, de uma perspectiva pessoal, e com a escrita culta e sedutora do autor, este volume é, no mínimo, um guia para o teatro que se fez e faz em Portugal e na Europa nos últimos sessenta anos.


Relido quase 25 anos depois de o ter lido pela primeira vez. O mesmo entusiasmo, e o mesmo poder de sedução da escrita de Armistead Maupin, do seu sentido de humor, da atenção aos detalhes, do tom ligeiro com que aborda os seus personagens em profundidade. Um livro muito divertido de ler, e que deu vontade de reler todos os volumes da série.


Mais do que uma História da literatura gay norte-americana na segunda metade do século XX, Eminent Outlaws é uma narrativa do que foi esse tipo de literatura, e do seu significado social, político, artístico e cultural no processo de reconhecimento civil dos direitos dos homossexuais.

A construção dessa narrativa baseia-se na análise das obras literárias que foram publicadas, mas entre os autores focados, e são bastantes, há dois que de certo modo constituem a espinha dorsal do livro, primeiro Gore Vidal, e depois Edmund White.

Gostei mais da primeira metade, ou dos primeiros dois terços, do livro, não tanto porque conheço melhor a obra dos autores aí abordados, mas porque achei essa narrativa mais coerente.

Pessoalmente, o livro agradou-me imenso. Porque me permitiu fazer uma síntese das minhas próprias leituras com esta temática, mas também porque enriqueceu e aprofundou essas minhas leituras.
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vitae summa brevis

Não me apetece escrever. Continuo com longos períodos de internamento no hospital. Agora estou no hospital há mais de três semanas. É deprimente, isto. Agora a solução parece passar por nova intervenção cirúrgica, e depois ficarei a fazer hemodiálise.

Quando tenho disposição, e a saúde deixa, tenho seguido na RTP 2 os episódios da série britânica The Durrells, que adoro. Baseia-se na trilogia que Gerald Durrell escreveu sobre os anos da sua infância, passados, com a mãe e os irmãos, na ilha grega de Corfu, nos anos 30. Um dos irmãos era o escritor Lawrence Durrell, o autor do célebre Quarteto de Alexandria.

No último episódio que vi, evocando o seu falecido marido, a matriarca da família, Louisa, lê um poema de Ernest Dowson, que me tocou porque parecia dialogar com estes meus dias.

O poema tem como epígrafe um conhecido verso do poeta Horácio: 'Vitae Summa Brevis Spem Nos Vetat Incohare Longam', o que quer mais ou menos dizer que a soma breve dos dias nos impede a esperança de durar muito tempo.

They are not long, the weeping and the laughter,
Love and desire and hate:
I think they have no portion in us after
We pass the gate.

They are not long, the days of wine and roses:
Out of a misty dream
Our path emerges for a while, then closes
Within a dream.
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papa-figos



Vi um documentário sobre o Armistead Maupin e apeteceu-me tentar reler o livro Tales Of The City, tantos anos depois. Como é um livro que já tenho há muito tempo, desde antes de vir morar nesta casa, ainda é do tempo em que tinha as estantes arrumadas e foi fácil encontrá-lo.

Encontrei dentro do livro uns papéis. Um postal da Livraria Papa-Figos, que ficava no Redondo, no Alentejo, e que mandava vir livros do estrangeiro. Uma folha de fax com uma lista de livros de Michael Carson que a Papa-Figos me mandou. O recibo da venda do livro do Maupin, que custou 1.600 escudos, à volta de uns 8 euros. Comprei-o em Setembro de 1995.

Não foi o primeiro livro da famosa série de Maupin que li. Comecei pelo segundo volume, o More Tales of The City, que comprei em Dublin, numas férias, em Julho desse ano. Mas apaixonei-me de tal maneira que tentei logo ler os restantes livros que já tinham sido editados até então.

Foi na segunda metade dessa década de 90 que a loja Amazon se começou a expandir e que eu a descobri. E, claro, comecei logo comprar livros online, não só a oferta era maior como o circuito de entrega era mais abreviado e, por isso, mais rápido.

Mas houve ali uns bons anos em que fui um cliente assíduo e muito satisfeito da Livraria Papa-Figos. Eu ia a Londres frequentemente, e, além de vir carregado de livros, trazia muitas referências, quer de livrarias como a Gay's The Word, quer de revistas como a Time Out ou a Gay Times. E depois era através da Papa-Figos que ia fazendo as minhas encomendas.

Caramba, como as coisas mudaram, como o mundo mudou. A Papa-Figos com certeza acabou, ou pelo menos teve de se adaptar, porque dificilmente poderia sobreviver nesta era das compras online, e em que a Amazon se tornou num monstro, porém muito útil, que seca e destrói tudo à sua volta, no que toca a comércio livreiro.

Mas se a Papa-Figos morreu, não está esquecida, e aqui fica a minha homenagem a essas pessoas que nunca conheci, mas com quem falei ao telefone e troquei faxes, e que durante uns tempos resolveram as minhas necessidades de leitura.
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la confession

Com a minha provecta idade, foram já muitos os artistas, músicos, actores e actrizes, escritores, etc, que eu admirei por me comoverem e inspirarem, por me darem horas de prazenteira fruição, e que já morreram.

Aliás, com 57 anos atrevo-me a dizer que é já maior a minha galeria de ídolos mortos do que a dos deuses vivos.

Além disso, há muitas pessoas, artistas em geral mas também, por exemplo, políticos ou pensadores, cuja morte senti como uma verdadeira perda, um empobrecimento, para o mundo mas também quase a um nível pessoal.

Mas não há assim muitas pessoas que já desapareceram, públicas evidentemente, de quem se possa dizer que tenha verdadeiras saudades, que me lembre delas com saudade, com uma vontade quase irreprimível de as ver ou ouvir ou ler de novo.

Assim de cabeça vêm-me à ideia umas quatro ou cinco. O Mário Viegas, as saudades que eu tenho de o ver trabalhar, seja no cinema ou no teatro, seja a dizer poesia seja na sua intervenção político-teatral.

Mas agora lembrei-me da Lhasa de Sela. Tenho saudades da Lhasa. De a ouvir, claro, mas acho que tenho saudades até da sua presença no mundo, da riqueza multicultural e do desejo de viajar que ela inspirava, de sonhar com viagens. A Lhasa fazia canções perfeitas, que contavam histórias, como As Mil e Uma Noites, canções musicalmente evocativas e com letras de grande profundidade e com um agudo sentido do humano.

Uma vez, no longínquo ano de 2004, assisti a um concerto da Lhasa, no Gil Vicente, que foi das noites mais especiais e mágicas da minha vida.

Apesar de conhecer razoavelmente a curta discografia da Lhasa de Sela, as suas canções são tão ricas que, de vez em quando, me lembro de uma delas com o prazer de uma descoberta, com o deslumbramento de quem ouve uma história de encantar.

Por estes dias tenho-me lembrado muito de La Confession, uma obra-prima de um disco cheio delas, The Living Road. Com um certo embalo de chanson, é uma canção que ilumina uma zona sombria da nossa alma.



Je n'ai pas peur
De dire que je t'ai trahi
Par pure paresse
Par pure mélancolie
Qu'entre toi
Et le Diable
J'ai choisi le plus
Confortable
Mais tout cela
N'est pas pourquoi
Je me sens coupable
Mon cher ami

Je n'ai pas peur de dire
Que tu me fais peur
Avec ton espoir
Et ton grand sens
De l'honneur
Tu me donnes envie
De tout détruire
De t'arracher
Le beau sourire
Et meme ça
N'est pas pourquoi
Je me sens coupable
C'est ça le pire

Je me sens coupable
Parce que j'ai l'habitude
C'est la seule chose
Que je peux faire
Avec une certaine
Certitude

C'est rassurant
De penser
Que je suis sûre
De ne pas me tromper
Quand il s'agit
De la question
De ma grande culpabilité

Je n'ai pas peur
De dire que j'ai triché
j'ai mis les plus pures
De mes pensées
Sur le marché
J'ai envie de laisser tomber
Toute cette idée
De "vérité"
Je garderais
Pour me guider
Plaisir et culpabilité
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mais filmes

9. BOY ERASED, de Joe Edgerton. Com Nicole Kidman e Russell Crowe. O filme pretende ser uma denúncia dos programas de reorientação de identidade sexual,ou seja, de cura da homossexualidade. Mas onde eu achei que ele foi mais eficaz foi no retrato opressivo e sufocante que se vive no seio das famílias muito dominadas pela religiosidade. Quando se fala de fundamentalismo religioso, fala-se de qualquer coisa de muito parecida com aquilo que o filme nos mostra.****

10. JOHN MCENROE: In The Realm of Perfection, de Julien Faraut. Um filme muito interessante que nos fala de ténis, de desporto, e da condição humana. E que parte de um pressuposto muito cinematográfico, sendo por isso uma excelente reflexão sobre o cinema. O único senão é que passar praticamente uma hora e meia a ver o John McEnroe a servir, a jogar e a refilar com os árbitros, pode não ser o mais animado dos programas.****

11. THE FAVOURITE, de Yorgos Lanthimos. Com Olivia Colman, Emma Stone e Rachel Weisz. O trabalho brilhante das três actrizes pode ofuscar o resto do filme, uma comédia estranha e perturbadora sobre o poder e a sua relação com os afectos.****

12. VICE, de Adam McKay. Com Christian Bale, Amy Adams e Sam Rockwell. Não fiquei muito convencido com o tom de farsa, apesar de haver duas ou três soluções muito bem esgalhadas e divertidas. Seja como for, o filme também funciona como uma espécie de “American politics for dummies”, além de que ficamos a saber o que já sabíamos: quem é que de facto mandava no tempo em que George W. foi POTUS.***

13. THE MULE, de Clint Eastwood. Com Clint Eastwood, Bradley Cooper e Andy Garcia. Ah, que classe, que estilo, que cool. Aquele fio da navalha entre a fragilidade da idade e a dureza da vida, é assombroso. *****

14. THE HIGHWAYMEN, de John Lee Hancock. Com Kevin Costner, Woody Harrelson e Kathy Bates. Uma perspectiva diferente sobre a famosa dupla Bonnie & Clyde, a dos Texas Rangers que os perseguiram e abateram. O filme recupera uma certa secura western muito à Eastwood, e uma planura e vastidão que tínhamos saudades de ver no cinema.****

15. AINDA NÃO ACABÁMOS: COMO SE FOSSE UMA CARTA, de Jorge Silva Melo. Um comovente documentário que funciona como se fosse uma autobiografia cinematográfica do autor. Mas dizer isto assim parece artificial e solene ao pé da franqueza e da honestidade com que Jorge Silva Melo olha a câmara que ele próprio filma. *****

16. BLACKkKLANSMAN, de Spike Lee. Com John David Washington, Adam Drivers e Harry Belafonte. Já tinha saudades de ver “a joint by Spike Lee”, com o seu mix excitante de activismo político e liberdade narrativa. A história é um achado, um daqueles casos em que a realidade parece mais fantasiosa do que a ficção, e o realizador aproveita bem a ironia para dar o tom de comédia a um caso muito sério. Vale a pena prestar atenção à música de Terence Blanchard. E ver Harry Belafonte no ecrã é uma emoção.*****

17. A STAR IS BORN, de Bradley Cooper. Com Lady Gaga, Bradley Cooper e Sam Elliot. 1) A tearjerker is born. 2) Baby Jesus Loves Lady Gaga. ***
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fingir

Estive três semanas internado no hospital, entre o dia 10 de abril e ontem, 1° de maio, de novo com uma infeção bacteriana. E desta vez foi a doer. A função renal ficou muito comprometida, passei muito mal, pelo menos nos primeiros dias, o cocktail de antibióticos era devastador, ao ponto de ter estado praticamente três semanas sem comer nada, alimentando-me apenas com suplementos de calorias e proteínas. E a situação actual é incerta, ao ponto de médico que me deu alta ter dito que corro o risco de dentro de poucos dias estar de volta ao hospital. Estive em modo off durante este mês no que toca a leituras, pois no hospital nem ler conseguia. E estive sempre muito ansioso e deprimido, começa a faltar a resiliência emocional para conseguir lidar com todas estas contrariedades. Não sei se a vida voltou ao normal, mas neste momento, e apenas por um momento, vou fingir que acredito que sim.
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cordeiro

Um cordeiro entrega-se ao sacrifício com mansidão. Há um ano. Se fosse outro, como seria? Guincharia como um porco na hora da matança? Rebelar-se-ia? Explodiria em revolta? Lutaria determinadamente para se manter à tona de água? Este, não. Aceita manso e conformado o seu destino. Chegará um dia em que o sacrifício será a vida toda do cordeiro. Aos poucos desfazer-se-á em poeira a memória de outra vida que não a do sacrifício. É assim que os cordeiros se entregam à vida mansamente, aceitando o sacrifício como um destino.