miguel (innersmile) wrote,
miguel
innersmile

toque-se o hino

A notícia seria boa demais se não fosse verdadeira: hoje mesmo começa a ser julgado num tribunal de Faro um jovem que, no âmbito de uma cadeira de um curso de artes visuais de uma universidade algarvia, criou uma instalação pública, todavia erigida em propriedade privada, representando uma bandeira portuguesa pendurada numa forca. O trabalho valeu-lhe a nota de 17 na cadeira, e um processo por ultraje ao símbolo da República que é a bandeira nacional, crime previsto e punido com pena de prisão até 2 anos nos termos do artigo 332º do Código Penal (dos jornais, não fui confirmar).

Isto, note-se, no país onde há milhares de bandeiras nacionais penduradas nas janelas e nos postes, algumas já rasgadas e esfarrapadas (na minha rua, há um resto de bandeira que subsiste desde o Euro 2004, há 10 anos portanto), onde as lojas chinesas vendem bandeiras com pagodes no lugar dos castelos, e onde, há menos de um ano, o presidente da República hasteou a bandeira nacional de pernas para o ar, na cerimónia oficial das comemorações do 5 de Outubro, que decorreu na varanda dos Paços do Concelho no município de Lisboa (e sem qualquer perturbação vagal, assinale-se). E isto para não ir mais longe e lembrar os tempos em que se rasgavam e ateava fogo a bandeiras por razões de combate político.

É que nem sequer está em causa o gosto ou a valia artística da obra em causa. Parece-me suficientemente evidente a proposta de uma leitura política, para mais numa altura em que os próprios governantes assumem que Portugal está com a corda na garganta. Poderá ser provocatória, mas essa é uma das funções essenciais da obra de arte, como se pode ler, a um nível diferente, é certo, mas não de todo descoincidente, por exemplo, nas obras que uma Joana Vasconcelos expôs no palácio da Ajuda, que é uma das sedes do governo português.

O que se retira desta história ridiculamente triste, é que em Portugal podem ofender-se os símbolos da República por razões desportivas ou políticas. Mas já no que toca à arte, esta quer-se domesticada e alinhada, sem levantar ondas. Só me vêm à ideia os versos de Alexandre O’Neill: “Ó Portugal, se fosses só três sílabas / de plástico, que era mais barato!”
Tags: crónica
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