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numbers

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Estou a terminar a leitura de Numbers, o segundo livro de John Rechy, depois de ter lido, há poucas semanas, o seu primeiro romance, City of Night. Apesar da semelhança temática, as duas obras são diferentes: Numbers é, de certa maneira, uma obra mais ficcionada, enquanto em City of Night era muito nítida a ligação ao real, nomeadamente à própria experiência pessoal do autor. No entanto, Numbers inspira-se directamente na experiência de Rechy enquanto prostituto em Los Angeles, para criar uma personagem, Johnny Rio, e descrever um regresso á cidade dos anjos, durante dez dias, para fazer uma espécie de teste à sua capacidade de ainda ser um objecto do desejo masculino. Outra diferença de realce relativamente a City of Night, é que Numbers é muito mais explícito no que toca à descrição das actividades sexuais; mas apesar da ousadia gráfica (para os tempos pré- porno na internet, é claro) creio que, de qualquer modo, estamos longe da pornografia ou sequer da literatura erótica. Acho que o sexo é muito mais usado para chocar, com a crueza da linguagem, do que propriamente para facturar com o factor porno. Claro, é preciso contextualizar, e este livro foi publicado em 1967, quando, apesar de tudo, o mundo da homossexualidade masculina, literário e não só, era muito diferente do actual.

Há um aspecto muito interessante no livro, que já estava presente em City of Night mas é mais explicitado neste Numbers, e que é a forma como a personagem usa a prostituição para concretizar o seu desejo homossexual sem abdicar do seu quadro mental heterossexual: Johnny Rio entrega-se a outros homens, apesar de já não ser por dinheiro, apenas para se assegurar da sua condição de objecto do desejo, de deus cobiçado pela pulsão dos outros, e não porque ele próprio sinta desejo ou pulsão. Claro que é uma falácia, como de resto o próprio romance desmonta. Mas não deixa de ser curioso observar como este era um dos caminhos possíveis para viver a condição sexual, nos anos 60; esta forma de negação que é viver-se a experiência homossexual como uma forma ainda de afirmação heterossexual, era ainda muito comum quando eu era jovem, por exemplo na determinação dos papeís dos parceiros na relação: o activo não era verdadeiramente homossexual, apenas o passivo. Apesar de ultrapassada, estou convencido de que esta espécie de auto-desculpa para a transgressão, ou para a cedência, ainda é muito usada hoje em dia.

Há um outro aspecto que me prendeu ao livro: às tantas, comecei a ler um dos capítulos do livro e achei que uma das personagens daquele capítulo era o Christopher Isherwood; com esta referência, todos os pormenores que rodeavam a personagem batiam certo: o facto de ser escritor, a descrição física, o facto de ter um companheiro bastante mais novo e que era um aspirante a artista plástico, e até o círculo literário que se reunia na casa de Santa Monica, precisamente onde Isherwood viveu. No fim de ler o capítulo, fui ao segundo volume dos diários de Isherwood, referentes aos anos 60, e lá estavam as referências a Numbers e à presença daquela espécie de caricatura de Isherwood e de Don Bachardy. Não achei o retrato de todo negativo, mas também não é propriamente lisonjeiro, e apesar de nos diários, o Isherwood até ser um bocado blasé acerca do assunto, uma pesquisa na net sobre o tema, diz-me que a reacção não foi propriamente a melhor, sobretudo da parte de Bachardy, que achou que a inclusão do casal no livro tinha sido um acto de grande deslealdade.
Tags: john rechy, livros
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