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jim, companhia paulo ribeiro
rosas
innersmile
Uma das coisas de que gosto muito no trabalho do coreógrafo Paulo Ribeiro é do seu carácter não-narrativo; o foco prende-se na dança, na sua linguagem e na sua abstracção, e se isso não facilita o trabalho do espectador, o ponto é que também é muito mais exigente em relação ao próprio trabalho, no caso, à peça que se apresenta.

Talvez por isso haja uma certa aflição nos trabalhos de Paulo Ribeiro, uma espécie de iminência do desastre, ou pelo menos do falhanço, que se manifesta, por exemplo, na hesitação dos bailarinos, nas trocas de olhares à procura do sentido. Por outro lado, são sempre espectáculos em crescendo, à medida que o espectador vai sendo capaz de construir e perceber a linguagem utilizada. E finalmente são propostas muito coerentes, quer em termos de opção coreográfica quer de alfabeto utilizado.

Tudo isto a propósito de Jim, um espectáculo produzido pela sua própria companhia e que eu vi, sábado à noite, no Teatro Aveirense. A proposta da peça passa pela música de Jim Morrison e dos Doors, sobretudo a do álbum An American Prayer, como ponto de partida de um processo de libertação do corpo (assumido de forma explicita nos derradeiros momentos do espectáculo).

Mas logo a abrir, Paulo Ribeiro sobe ao palco para dançar um pequeno solo com a música Indigo, de Bernardo Sassetti. Se fica assim evocada, à laia de homenagem, uma proposta de trabalho conjunta entre o coreógrafo e o músico, este intróito serve também a Paulo Ribeiro para fazer uma espécie de explanação do que se vai passar a seguir em termos de dança, um pouco como os resumos que antecedem os artigos científicos.

Do excelente conjunto de seis bailarinos em cena (não estou a contar o solo inicial de Paulo Ribeiro), é importante referir o trabalho e a prestação da Leonor Keil, como sempre. É que vê-la em palco é quase um milagre, uma experiência de maravilhamento. Não é só o controlo rigoroso do corpo, é também um domínio perfeito do movimento, como se o ar não fosse um espaço vazio à espera de ser preenchido, mas uma densa camada que o corpo conquista, ultrapassando limites. Lá está, numa ânsia de liberdade que, mais do que na música e até mais do que nas palavras, se encontra inscrito na vocação icónica de Jim Morrison.
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Se a tua inveja é absolutamente normal, no que concerne a certos espectáculos a que eu tenho acesso e tu não, devido á macrocefalia do nosso país, já eu não deveria tê-la em relação ao que tu assistes, pois com raras excepções, o que vês em Coinbra, na Figueira, em Aveiro, no Porto, eu sei lá onde mais, eu poderia ter visto por aqui se estivesse mais atento e sobretudo mais disponível.
Tu respiras cultura e dentro do teu universo geográfico és um consumidor quase compulsivo, e ainda bem.
Não é para te fazer inveja, mas há uma companhia de teatro que tu bem conheces, desde há anos, os Artistas Unidos, e à qual não tens podido assistir às últimas apresentações, até porque elas estão geralmente pouco tempo em cena e é uma pena, pois irias gostar de ver gente nova a gostar de fazer teatro e a fazê-lo bem. Disso dou conta no meu último post depois de ter visto a peça "Punk Rock".
O bailado, de que tanto gosto, será com a ópera, o tipo de manifestações culturais que menos tenho visto, infelizmente.

vi algumas peças dos Artistas Unidos cá em Coimbra. e tenho ideia de que de vez em quando eles ainda trazem alguns espectáculos cá, tenho de estar mais atento. leste o livro do Jorge Silva Melo? é muito bom, se não o tiveres e quiseres ler, avisa :)

Século Passado. edição Cotovia, um livro para aí de 2007. uma colecção de crónicas organizada em forma de livro de memórias.

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