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um homem, uma causa
rosas
innersmile
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1.
Aqui há uns dias pus aqui um conto que era vagamente inspirado em três linhas de uma entrevista que fazia parte de um livro que li recentemente. Mal li esse breve trecho imediatamente me apeteceu escrever um conto ficcionando o último dia de alguém que é, nos tempos actuais, condenado à morte por razões políticas, num cenário que me diz muito, o de uma ex-colónia africana de Portugal. Ao contrário do que deveria ter feito, ou não claro, só depois de escrever o contito é que me lembrei de ir pesquisar na net sobre o tema, e, de pesquisa em pesquisa, cheguei a um livro que por coincidência está à venda em formato e-book na Amazon, em português; fiz o download da amostra, comecei a lê-la na sexta-feira passada à noite, e tive de comprar o livro todo.

Trata-se de Uria Simango, Um Homem. Uma Causa, da autoria de Barnabé Lucas Ncomo. Suponho que o nome de Simango não diga nada aos portugueses, mas nos meus anos de continuador da revolução moçambicana, era uma das figuras mais vilipendiadas pelo regime, por ser um nacionalista moçambicano que tinha sido um reaccionário e um traidor à Frelimo, e à luta pela libertação de Moçambique do jugo colonizador e fascista. Trata-se de uma biografia reparadora, digamos assim, que pretende resgatar a memória de Simango do opróbio a que a história de Moçambique o condenou, voltando o tom acusatório para os dirigentes da Frelimo que lideraram o país após a independência, nomeadamente nos anos escaldantes da ditadura popular de feição marxista-leninista, e que, afinal, constituem ainda a actual elite reinante do país.
É importante referir, como pressuposto, que li o livro com cautela, ou seja, com a distância necessária para saber que o tema é demasiado complexo e emotivo para aceitar versões, perspectivas ou opiniões definitivas. Mas foi a primeira vez que eu aceitei o desafio de prestar atenção àqueles que sempre me habituei a considerar os maus da fita.

Foi, apesar de fascinante, uma leitura incómoda. Primeiro porque constatei que todo o processo da luta armada e que conduziria à independência de Moçambique, foi vivido na mais aberta das hostilidades no seio do próprio movimento Frelimo; desde a primeira hora que houve gravíssimas disputas de poder, golpes e rupturas, alianças e traições contínuas, tendo como pano de fundo a luta pelo poder, não só pessoal, não apenas político e ideológico, mas de tribalismos e etnias, ou até de mero regionalismo.

Outra constatação foi a de que essas lutas e disputas foram sanguinárias, passavam quase sempre pela eliminação física de rivais e adversários. Há um ponto em que nos perguntamos se não terá havido mais vítimas das lutas internas do que as baixas infringidas pelo inimigo, ou seja pelo exército colonial português! O debate e a disputa política resolvia-se num clima de intriga e boatice, de golpes baixos e traiçoeiros, mas a arma mais eficaz para vencer discussões, e por vezes pouco passavam disso, era mesmo o assassinato: as pessoas incómodas eram atraídas com subterfúgios, raptadas para a selva e pura e simplesmente eliminadas fisicamente.

Também me incomodou muito perceber que aquilo que se passou em Moçambique nos anos a seguir à independência não foi mais do que a continuação e o corolário dos métodos e das práticas que vinham de trás. E incomodou-me, porque sempre me habituei a considerar os acontecimentos e os problemas que houve como excessos próprios do tempo revolucionário, mesmo aqueles que redundaram em situações de maior gravidade. Este livro mostrou-me que não, que tudo se resumiu a uma enorme falta de preparação política e sobretudo a uma total ausência de valores axiológcos ou mesmo ideológicos. Não foram desmandos de comunistas radicais e impreparados; foram estratégias iníquas de conquista e manutenção de poder.

2.
Mesmo colocando distância em relação às teses defendidas no livro, este tem a vantagem imediata de pôr em crise a história oficial da Frelimo e, por extensão, a de Moçambique independente. É verdade que a história é o que foi e, na circunstância, foi a Frelimo, de que Uria Simango foi elemento fundador, que conseguiu levar o país à sua independência. Poderia ter sido de outra maneira, com outras pessoas ou outros movimentos políticos? Não o sabemos, nunca saberemos; e só sabemos que não foi de outra maneira.

De certo modo o livro também traz a lume a inevitabilidade da guerra civil impiedosa e cruel em que o país mergulhou quase a seguir à sua independência. E que essa guerra, por muito que tenha sido, pelo menos num primeiro momento, impulsionada do exterior, nomeadamente por parte do regime de apartheid da África do Sul que não queria perder um certo perímetro de segurança que não o isolasse completamente na região, cedo se transformou numa luta fratricida que emulou e prolongou a violência que marcou o percurso político da Frelimo desde a sua fundação até á independência e à consagração da democracia popular.

Uria Simango, preso ainda antes da independência e, após esta, à guarda do estado moçambicano, esteve preso num campo de reeducação, de onde desapareceu num período que vai de 1977 até 1980: em 1976 estava vivo, foi entrevistado por jornalistas que visitaram o campo, em 1980 a sua morte era mais ou menos dada como certa. As teorias que explicam a sua execução diferem nos pormenores, na data, no método, nos agenters, nos mandantes, mas todas partilham o carácter sórdido.

Não sei se, como é defendido no livro, uma das coisas que separavam Simango da direcção da Frelimo, era o facto daquele defender a democracia multi-partidária assente em eleições livres. Sei sim, que Moçambique demorou muitos anos e muitos milhares de mortos para chegar a essa conclusão.


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Já tinha ouvido falar deste homem...

o nome dele foi referido quer antes do 25 de abril, quer no período pós-revolução

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