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o quarto do filho (sequência)

É uma sequência longa, dolorosa e admirável, que começa quando um pequeno-almoço em família, dominical e descontraído, é interrompido por um telefonema de um dos doentes de Giovanni, que, em crise, pede a sua presença.
Não constituindo propriamente um factor desencadeante, é no entanto um momento fracturante do filme: a vida como se parte, desprotege-se, expõe as pessoas a uma vulnerabilidade absoluta – Paola é assaltada numa feira de rua, Irene brinca com os colegas em cima de uma motorizada arriscando o acidente. Andrea, gorada a hipótese de ir correr com o pai, prepara-se para mergulhar no oceano com os amigos. O doente de Giovanni chamou-o porque não aguenta a angústia de suspeitar que sofre de um tumor. De um momento para o outro, inesperadamente, a vida que até aí parecia serena e feliz, segura e calma, entra numa espécie de convulsão. Como uma jarra que se despenha do alto de uma mesa para o chão e que nos deixa já adivinhar os estilhaços em que se vai transformar. Mas é uma convulsão tranquila, quotidiana, como que a dizer-nos que é a nossa própria vida que está permanentemente em risco (“viver mata”, como se dizia aqui há tempos), frágil como um telefonema para casa que vai encontrar apenas o gravador de chamadas.
Mas a sequência continua. Instaurado o caos, passamos ao momento em que Giovanni o olha pela primeira vez na cara, quando chega a casa e a desgraça está literalmente à sua espera. O caos espalha-se. Alastra. Vem, a seguir, aquele que é para mim o plano mais forte do filme: no decorrer de uma partida de basquete, Irene, a bater a bola na eminência do passe, vê o pai entrar no pavilhão, sorri-lhe, mas o sorriso morre quando descobre no rosto do pai um desamparo total, um desespero absoluto. Irene paralisa no meio do campo enquanto a partida prossegue à sua volta. Estamos já do outro lado da dor, de um sítio de onde não há regresso.
Mas há, nesta dor imensa e chocante, nesta agonia da ferida mortal, ainda um sentido. Há telefonemas a fazer, é necessário tratar das diligências relativas ao funeral, as rotinas de outras vidas que se cumprem enquanto a nossa parece estar suspensa num limiar qualquer.
Depois, sim, instala-se o vazio. No lugar do caos, fica o vazio. Sentimo-nos ocos, somos só uma carcaça desventrada soprada por dentro por um vento frio e vazio. Somos desespero. Somos uma boca aberta e surda que grita amarfanhada de encontro à colcha da cama.
Num Luna Park, Giovanni procura saturar os sentidos de sensações fortes, que lhe preencham o terrível vazio emocional. Procura alguma coisa que o faça sentir de novo, que o faça sentir-se de novo, que o roube do estado anestésico em que mergulhou. Mas mesmo no movimento violento da diversão de feira, o corpo tenso a defender-se instintivamente da agressão, é ainda o rosto vazio de Giovanni que nós vemos, um rosto que não nos olha directamente, porque apenas parece conseguir contemplar o abismo.
Fade.
A sequência termina. A vida seguirá dentro de momentos, primeiro só os estilhaços espalhados pelo chão, as vidas dos que se amam separadas pela dor, mais tarde a tentativa de colar os estilhaços, como fizemos com o nosso bule favorito quando se partiu. No tempo do filme, passaram doze minutos desde que o som da campainha do telefone interrompeu o pequeno-almoço, e suspendeu aquelas vidas. Doze longos, dolorosos, mas admiráveis minutos, em que a vida esteve verdadeiramente interrompida. E que transformam este O QUARTO DO FILHO, de Nanni Moretti, num filme sublime, terrivelmente humano e pura e simplesmente genial.
Tags: cinema, moretti
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  • azul velho

    Esta foto tem mais de 11 anos, foi feita em Março de 2008 na piscina de um resort em Hoi An, no Vietname, por um outro hóspede que eu não…

  • I wanted to dance

    Há já algum tempo cruzei-me com um poema de Allen Ginsberg de que gostei muito, e que me ficou na memória. Há uns dias, a propósito de uma leitura,…

  • papa-figos

    Vi um documentário sobre o Armistead Maupin e apeteceu-me tentar reler o livro Tales Of The City, tantos anos depois. Como é um livro que…

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  • azul velho

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