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not on my terms

Não deixa de haver uma certa ironia, e até preversamente divertida, na coincidência de Sara Montiel e de Margaret Thatcher terem falecido no mesmo dia; apesar da idade aproximada, nada poderia afastar mais estas duas mulheres, e o lugar que cada uma delas reclama no imaginário do século XX, nomeadamente no masculino.

Sobre Sarita Montiel, melhor do que eu alguma vez conseguiria, o meu amigo João Roque, enquanto fã incondicional, fez-lhe uma belíssima homenagem, cheia de clips dos seus filmes, e que pode ser vista no seu blog Why Not Now, neste link.

Já quanto a Thatcher, quando cheguei a Londres pela primeira vez, em março de 1984, o thatcherismo estava no auge. A vitória na guerra das Malvinas tinha deixado Margaret Thatcher no máximo da popularidade, e de certo modo deu-lhe a carta branca para o seu processo de reformas que iria alterar o rosto, desfigurando-o, diria eu, do Reino Unido.

Os noticiário eram dominado pela greve dos mineiros, que tinha começado há poucas semanas, e que iria terminar mais de um ano depois. Nunca me esqueci do nome de Arthur Scargill, o presidente do sindicato dos mineiros. Thatcher nunca cedeu ao movimento unionista, e quando a greve dos mineiros terminou, chegara igualmente ao fim a era em que os sindicatos tinham peso decisivo nas decisões políticas.

A implementação daquilo a que chamou o capitalismo popular representou a privatização de todos os importantes serviços públicos ingleses, e o desmantelamento do estado de bem-estar inglês. Thatcher inventou verdadeiramente os homeless, as pessoas que, sem emprego e sem segurança social, não tinham outro remédio senão vir viver para as ruas. A sua sanha contra o Estado levou-a a encerrar inúmeros serviços públicos, e, na passada, extinguiu todos aqueles que representavam bastiões do poder trabalhista (a câmara de Londres foi uma delas, apenas restaurada na era Tony Blair, e que hoje, curiosamente, está nas mãos de um Tory).

Na saúde, fechou inúmeros hospitais psiquiátricos, lançando multidões de doentes para as ruas, com a desculpa de os devolver à comunidade. Na educação aplicou a infâme Cláusula 28 que proibia as escolas de utilizarem material didático, nomeadamente livros, obras literárias, mesmo clássicos incontornáveis, que de algum modo pudessem “promover” a homossexualidade, nomeadamente porque a representassem de forma não descriminatória.

A semana passada, por ocasião da sua morte, o parlamento inglês promoveu uma moção em tributo da baronesa Thatcher. Num video que já corre o YouTube, a MP trabalhista Glenda jackson, antiga actriz de excelente memória, traça um retrato negríssimo da era Thatcher, alertando para o facto de a Inglaterra poder estar a entrar num período de novo thatcherismo. Com a finura que os ingleses têm sempre nestas coisas, diz Glenda Jackson que nem sequer homenageia Thatcher por ter sido a primeira mulher a exercer o cargo de primeiro-ministro no Reino Unido. Pode ter sido o primeiro primeiro-ministro do sexo feminino, mas “Thatcher a woman? Not on my terms.”

Tags: clips, crónica
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