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o índio



Na quinta-feira à noite, no show a que assisti, Maria Bethânia disse, entre muitos poemas que eu desconhecia, um que achei lindo e poderoso, e que me agarrou de imediato. Não sabia de quem era, é claro, mas memorizei a ideia forte do poema, e na sexta-feira procurei-o na net. Quase à hora que o encontrei, soube da notícia da morte de Bernardo Sassetti, e de alguma maneira o poema ficou marcado por essa notícia tão infeliz.

Por uma série de razões, e as piores nem sequer vêm ao caso, a semana que passou foi terrível. Passei-a sempre triste, mas, pior, passei-a em sofrimento, muito angustiado, cheio de medo da vida e do futuro. Ainda hoje de manhã, acordei de madrugada e não consegui reconciliar o sono, sempre a temer o pior que pode estar para acontecer.

O poema de Reynaldo Jardim é lindíssimo, comovente, erótico e inspirador. Descobri-lo, ouvi-lo dito por Bethânia, lê-lo e aprendê-lo (e apreendê-lo), foi uma das coisas boas que me aconteceram numa semana tão triste. Aqui o convoco, ao poema e ao seu índio, para que me acompanhe e me ajude sempre na vida.



O que se odeia no índio
não é apenas o ocupado espaço.
O que se odeia no índio
é o puro animal que nele habita,
é a sua cor em bronze arquitetada.
A precisão com que a flecha voa
e abate a caça; o gesto largo
com que abraça o rio; o gosto de
afagar as penas e tecer o cocar;
O que se odeia no índio
é o andar sem ruído; a presteza
segura de cada movimento; a eugenia
nítida do corpo erguido
contra a luz do sol.
O que se odeia no índio é o sol.
A árvore se odeia no índio.
O rio se odeia no índio.
O corpo a corpo com a vida
se odeia no índio.
O que se odeia no índio
é a permanência da infância.
Tags: caro diario, citações, fotos
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