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bernardo sassetti

«O gajo tem ar de beto e é daqueles tipos que a falag não diz os égues, como o Mogais Sagmento. Mas senta-se ao piano, dobra-se para a frente, e transfigura-se, e o concerto foi das coisas mais lindas a que eu já assisti, lindo assim de um lirismo imenso e pungente, lindo como quando vamos de carro numa noite de Verão pela auto-estrada e temos a sensação de que a viagem se prolonga até ao infinito, até as luzes do automóvel se confundirem com as estrelas no céu, e nós já não sabemos se ainda somos o que somos por fora ou se somos já o nosso melhor sonho de nós próprios. Já o disco, Indigo, era muito bonito, mas ao vivo é uma experiência transcendente. Só gostava que os temas se prolongassem um bocadinho mais, fica a sensação de que ainda havia mais estrada para nos perdermos. Não sei se foi um dos concertos do ano, mas assistir ao Bernardo Sassetti a tocar ao vivo, em piano solo, foi uma das maiores experiências musicais do ano, sem dúvida.»

Foi isto que eu escrevi aqui, no dia 4 de Dezembro de 2004, a propósito da primeira vez que vi o Bernardo Sassetti a tocar ao vivo. Depois vi-o, que me lembre, em pelo menos três outras ocasiões: a tocar em trio, com Carlos Barreto e José Salgueiro, na apresentação ao vivo da banda sonora do filme Alice, e com Mário Laginha e Pedro Burmester, na série de concertos 3 Pianos. Todos eles concertos inesquecíveis

Sassetti foi, durante alguns anos, uma presença fulgurante na minha vida de ouvinte de música. De certo modo a sua música amadureceu a minha relação com a música jazz, porque raras vezes, até aí, eu tinha percebido tão nitidamente, e aceite de maneira tão natural, a linguagem do jazz, como se a sua música falasse comigo, fosse feita para mim. Para além dos concertos, ouvi-lhe, até ao limite da intensidade, os discos, sobretudo o Nocturno e o indigo, dois discos que eu adoro em absoluto. Comprei cd’s de outros músicos apenas porque contavam com a colaboração de Sassetti. Fui ver filmes apenas porque tinham a assinatura de Sassetti na banda sonora. E ainda o ano passado, um dos discos que mais me surpreendeu, e que mais ouvi, foi o que gravou em colaboração com o Carlos do Carmo.

Por todas estas razões, ainda estou aqui aflito, a tentar perceber algum sentido na morte absurda de Sassetti. Mas a sua perda, é claro, ultrapassa muito o choque que eu, como certamente muitos e muitos admiradores da sua música, estou a sentir. Bernardo Sassetti era um dos maiores músicos portugueses, um nome incontornável do jazz nacional, mas que não se cingia às barreiras do género. Tocava muito e com muita gente. Era, como são quase sempre os músicos de jazz, de uma generosidade sem limites, e ainda por cima de uma generosidade viva e entusiasmada. Era um compositor genial, como o atestam, por exemplo, as suas obras para o cinema, meio que o atraía especialmente. Tal como a fotografia, cujo gosto e entrega parece estar na origem do acidente que o vitimou.

Eu sei que já é um pouco um lugar comum, mas suponho que raras vezes faça tanto sentido dizer, com o poeta, que "morre jovem o que os deuses amam".
Tags: obituário
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