miguel (innersmile) wrote,
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smut



Li há umas semanas pela primeira vez um livro do Alan Bennett, e gostei tanto que já reincidi. Smut recolhe dois contos, que têm em comum, do ponto de vista narrativo, o facto de serem ambos histórias que têm no seu centro duas mulheres de meia-idade, de classe média, que têm de lidar com segredos e com aquelas coisas de que as pessoas bem educadas não falam em público.

O Alan Bennett tem uma escrita muito elegante e meticulosa, com frases simples mas muito bem construídas e um humor que parece muito contido mas é sempre muito destravado, sobretudo por aquilo que não é dito, que é apenas insinuado, ou que é referido muito breve e subtilmente.

Não faz grande sentido falar aqui dessas histórias, mas como suponho que ninguém que esteja a ler isto vai ler o livro (spoilers ahead, portanto!), em traços breves posso dizer que uma, a mais longa, é sobre uma mulher, recém enviuvada de um casamento desinteressante e sem chama (sim, nesse sector que estamos a pensar), que decide colaborar com o hospital-escola onde o seu marido foi tratado, encarnando personagens com problemas de saúde para aulas práticas do curso de medicina, e que, para compor o seu orçamento e contra a vontade da sua filha, arrenda um quarto a um casal de estudantes. As coisas vão-lhe correr bem, sobretudo quando os hóspedes propõem métodos alternativos de pagar as rendas em atraso, e a senhora vai descobrir emoções que o seu longo casamento nunca lhe proporcionou.

Na outra história uma outra mulher, também da classe média e de meia-idade, muito arrogante e com ambições de escalada social (só me fazia lembrar a Hyacinth Bucket - Bouquet! - da série Keep Up Appearences), tem uma relação de veneração com o seu filho. Este, que para além de muito bonito e atraente, é um homossexual armarizado, casa com uma mulher feia e rica. A nora e o marido da Hyacinth (chamemos-lhe assim para simplificar) tornam-se muito amigos, muito amigos mesmo, enquanto o jovem marido começa a ser vitima de chantagem por parte de um tipo que engatou na véspera do casamento, e que é um polícia que lá na esquadra dele é o responsável pelas acções em favor da não-descriminação dos polícias gays. Confused? Pois, parece um episódio da Soap, essa mítica série de finais dos anos 70.

O que é divertido é que, como comecei por dizer, esta loucura toda é servida por uma linguagem muito contida, parece tudo muito certinho e conforme, muito british e five o’clock tea. Para além de serem, em última análise, histórias sobre a solidão e a desconformidade, há muito análise social nesta prosa do Alan Bennett, muita radiografia a uma certa maneira muito inglesa de estar em sociedade, na qual tudo é possível desde que se mantenha um certo decoro, desde que não se perca a face perante a sociedade.

Pois, é, parece-me que não ficarei por aqui em matéria de Alan Bennett. Na livraria já tenho fisgado um outro livro dele, também em inglês (acho que A Leitora Real é a sua única obra traduzida e publicada cá), que quero ver se não me escapa.
Tags: alan bennett, livros
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