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dead combo

Grande concerto dos Dead Combo, ontem à noite no TAGV. Os DC devem ser dos projectos nacionais que mais me entusiasmam. Por causa do som, é claro, mas também por causa do próprio projecto, da sua coerência, da sua força. Os DC são uma ideia, uma ideia muito forte, de música, naturalmente, mas mais do que isso, uma ideia estética, um determinado universo, que passa muito pelo cinema, por uma certa geografia (ou melhor dito, por uma ideia de geografia), por referências e evocações, por ambientes e culturas. E depois os discos são explorações dessa ideia, formas de a trabalhar para ver até onde é que ela pode ir, misturá-la com outras variantes, cruzá-la com outras ideias e outros caminhos. Não admira que, para além do próprio trabalho da banda, eles façam muitas colaborações: mais do que uma forma de levar a ideia deles até aos outros, suspeito bem que essas colaborações, para os dois elementos da banda, sejam maneiras de testar os limites do projecto e de ver o que conseguem absorver desses encontros.

E o concerto de ontem, como aliás os discos, em vez de um desfile de canções, podiam ser quase uma longa suite, muito fluída e dinâmica, com vários andamentos, vários temas, variações e fugas. O encadear dos temas pode ser visto como um festival de curtas-metragens, mas também como uma longa-metragem em episódios, em que os elementos de que a banda dispõe, as personagens, os enredos, vão saltando de episódio para episódio, criando novas histórias. Ou um daqueles filmes mosaico, em que várias sequências que parecem autónomas e diversas entre si, depois encaixam-se num todo harmonioso.

Não é fácil escapar às metáforas cinematográficas ao falar da música dos Dead Combo. Aquilo é tudo muito evocativo, muito forte do ponto de vista da sugestão. E depois eles são excelentes músicos, com uma criatividade quase sem limites e um apuro técnico rigoroso. Dá um prazer imenso ver os tipos a correrem riscos e depois aquilo sair tudo bem, sem nada se perder. Para além da música, o concerto é ainda muito bonito visualmente, com um desenho de palco também muito cinéfilo e elegante, sóbrio mas depois com notas muito fortes, a fazer jus à ideia de Lisboa Mulata, o título do seu CD do ano passado, e em cuja digressão o concerto de ontem se integrou.

Foi a segunda vez que vi os DC ao vivo. A anterior tinha sido também no TAGV, integrado no festival de blues de Coimbra, e em que eles tocaram com o guitarrista Gary Lucas. De resto, o Tó Trips recordou o facto de o concerto de ontem ser a primeira vez que os DC estavam a tocar sozinhos em Coimbra.

Um dos temas do disco Lisboa Mulata é um fado lindíssimo, intitulado Esse Olhar Que Era Só Teu, que, como é facilmente identificável, é um verso do poema de Alexandre O’Neill para o fado A Gaivota, criado por Amália Rodrigues. A música parece-me muito construída sobre a melodia de outro fado de Amália, Povo Que Lavas No Rio. Deixo aqui o clip, porque é de facto um tema belíssimo, em que as pausas e os silêncios são muito bem explorados para dar lirismo e intensidade à canção. E se ele é bonito assim, ao vivo então é uma experiência quase religiosa, uma coisa de uma intensidade verdadeiramente arrepiante.

Tags: clips, concertos
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