miguel (innersmile) wrote,
miguel
innersmile

alfaiate



«Por um obscuro salto mental, associei este anil ‘para endemoninhados’ à sonâmbula aparição do pintor flamengo. Como se a minha vocação para a solidão estimulasse os solitários, não foi ele o primeiro estranho a fazer-me confidências, só que desta vez a confissão vinha acompanhada de reflexões meio enigmáticas. A certa altura opinou que o ser humano é um ser sem razoável razão de ser. Terei ouvido bem? Com o seu ar de oráculo, seria esta frase mais uma amostra do gosto dele pelo mistério, mais uma pirueta verbal para me impressionar? Murmurou ainda algo acerca do tempo, falou em tempos de ruído e tempos de silêncio, interrogou-se sobre se alguém sabe o que é o tempo, sobre se o tempo passa por nós ou nós por ele. Comentou que tratamos o tempo como se fossemos o alfaiate dele, tiramos-lhe as medidas, vestimo-lo de acordo com o nosso gosto, as nossas conveniências, encurtamos aqui, alargamos ali, condenados a jamais conseguirmos definir de que matéria ele é feito. Enfrentamos aliás o sonho e o tempo da mesma maneira, sem discernirmos a fronteira entre o que no sonho é onírico e o que é retrato das nossas vidas, como se cada um dos nossos sonhos fosse sonhado por outras pessoas, todas diferentes umas das outras e diferentes entre si. No fundo, faltam-nos palavras para pensarmos o sonho, o tempo, o espaço, o essencial.»

- Almeida Faria, O MURMÚRIO DO MUNDO (Tinta da China)
Tags: almeida faria, citações, fotos, livros
Subscribe
  • Post a new comment

    Error

    default userpic
    When you submit the form an invisible reCAPTCHA check will be performed.
    You must follow the Privacy Policy and Google Terms of use.
  • 2 comments