miguel (innersmile) wrote,
miguel
innersmile

chloe 3*

Há uma enorme razão para ir ver Chloe, o último filme de Atom Egoyan (o filme em Portugal chama-se O Preço da Traição, e é um tema sociológico a escolha dos distribuidores de títulos sempre tão fundamentada em critérios de taxonomia). E essa razão é a Julianne Moore, que faz aqui possivelmente o seu melhor papel de sempre. Esta mulher é um prodígio, porque consegue adicionar à subtileza do seu jogo uma espécie de opacidade, que nos impede de ler de forma evidente a personagem, e nos instiga e chama para a complexidade da sua psicologia. Acho que só há uma outra actriz que é assim tão perfeita a revestir de humanidade as suas personagens, que é a Meryl Streep.

Ok, e então tirando La Moore, o que fica? O filme tem, digamos assim, duas partes. A primeira, que é a maior, é a mais interessante, porque o filme está cheio de equivocos e ambiguidades, e nós sentimo-nos tão desorientados como a personagem da JM. O filme é denso, bem construído do ponto de vista narrativo, e até um pouco perturbador. Depois na parte final as coisas simplificam-se muito e o filme fica muito superficial, muito rasinho, quase constrangedor de tão simplório. Há na última cena do filme, mesmo no último fotograma, uma tentativa de recuperar alguma da complexidade perdida, mas aí já é tarde (Inês é morta!) porque entretanto começa a desenrolar-se o genérico.

Para além da Moore há outra coisa fantástica no filme que é a escolha dos sets, quer, sobretudo, dos exteriores, quer mesmo dos interiores. Brilhante trabalho de 'repérage'. Filmado creio que integralmente em Toronto, o filme devolve-nos uma cidade com que parece fácil indentificarmo-nos, mas que tem um toque de sofisticação que a torna intangível, quase diáfana, um pouco a fazer a correspondência à própria personagem principal.

Chloe, por todas estas razões, é um filme que está sempre muito à beira de nos intrigar, de nos desinquietar do lugar seguro de espectadores, mas que se perde um pouco, e dir-se-ia irremediavelmente, no desenlace e na maneira como ele nos é servido. Mas, e porque não é demais reforçá-lo, é um filme obrigatório porque a interpretação da Julianne Moore é estratosférica.
Tags: cinema
Subscribe
  • Post a new comment

    Error

    default userpic
    When you submit the form an invisible reCAPTCHA check will be performed.
    You must follow the Privacy Policy and Google Terms of use.
  • 17 comments