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(no subject)
rosas
innersmile

Terminei a leitura este fim de semana de A Tábua de Flandres. E vão cinco do Arturo Pérez-Reverte, e acho que por enquanto não vai mais nenhum. Os livros do escritor espanhol são fáceis e bem feitos, com elevado potencial de entretenimento, e podem tornar-se viciantes. Acho que dos cinco este foi o melhor, o mais bem construído, um livro muito justinho, quase sem ganga ou gorduras. Sabe bem ler um livro assim, em que se progride quase linha a linha, em que tudo parece fazer sentido, e desse modo nos mantém completamente subjugados, e suspensos do evoluir da história. Não gostei muito do desenlace final (é o segundo final de romance do AP-R de que não gosto, mas mesmo assim não é tão mau como o de O Cemitério dos Barcos Sem Nome), mas pelo menos é muito honesto e aparece como um desenvolvimento natural da história.

O que mais gostei nos romances do AP-R, para além, é claro, da sua capacidade de criar histórias bem esgalhadas e verosímeis, foi do facto de serem livros muito bem pesquisados, em que tudo na narrativa, o vocabulário, os lugares, a própria lógica interna da acção, tem a ver com um tema. Acho que este será mesmo o seu aspecto mais apelativo, e inclusivamente o maior factor de sucesso, porque permite ao leitor entrar assim numa espécie de sistema, um universo e um ambiente que lhe preenche a imaginação e o põe verdadeiramente a respirar a atmosfera do romance. Foi assim com o xadrez em A Tábua de Flandres, com os barcos e a navegação em O Cemitério..., com a esgrima no Mestre de Esgrima, com o tráfico e com os carteis em A Rainha do Sul. Mas para mim o caso mais conseguido, e também o mais espectacular, digamos assim, foi o de A Pele do Tambor, que é um romance de uma cidade, Sevilha, em que toda a narrativa respira a cidade.

Fiquei fã do Arturo Pérez-Reverte e da sua escrita honesta e impecável, das histórias bem buriladas, do universo de referências, do papel da música nas narrativas, e até de algumas das suas personagens, apesar de achar que, no geral, elas são inferiores à trama (a excepção é, para mim, o Coy do Cemitério dos Barcos Sem Nome. Acho que este personagem vai ficar para sempre comigo).
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É muito curiosa essa espécie de empatia abstracta que se estabelece com personagens de papel, sem rosto e cujos contornos vão sendo alinhavados pela nossa imaginação.

Ainda por aqui andam o Joseph Wayne de "a um deus desconhecido", que li por volta dos meus 13 anos, ou o Caleb Trask de "a leste do paraíso", que em nada corresponde ao retrato que dele fez o sr. Elia Kazan.

não é muito frequente, mas quando acontece é muito real.

Graças a este e, principalmente, ao outro post, peguei no livro - e olha, que bela história! Agarrei-me ao livro e foi difícil largá-lo (passei todo o fim-de-semana entre páginas).
E tal como dizes, é impossível lê-lo sem ter vontade de voltar a pegar num tabuleiro. O xadrez é um jogo apaixonante, e é bom ter quem nos lembre disso de quando em vez. :)

Gostei :) - e teve para mim uma curiosidade: o livro tem muitos pontos em comum com outro que ando a ler (este mais devagar, que não é livro para se ler a correr) - o "Gödel, Escher, Bach" de Douglas Hofstadter. Não só há citações deste livro no início de alguns capítulos d'"A Tábua de Flandres", como alguns temas surgem em ambos - a música de Bach, as gravuras de Escher, a matemática e a completude (ou não) dos seus sistemas. Foi uma coincidência engraçada. :)

adoro essas referências cruzadas, envios de uns livros para outros, ou para músicas, ou seja o que fôr.

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