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xadrez
rosas
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Devia ter uns nove ou dez anos quando aprendi a jogar xadrez. Ou, pelo menos, a movimentar as peças. Quem me ensinou os movimentos foi, tanto quanto me lembro, um daqueles jovens militares que passavam por casa dos meus pais, em Nampula, a caminho ou de regresso das missões de combate durante a guerra colonial. E num tabuleiro miniatural, de viagem, que eu tinha recebido de oferta, e que ainda deve existir na casa dos meus pais, com a caixa de plástico partida e, muito provavelmente, incompleto.

Com dez anos entrei para o primeiro ano do ciclo. Foi ainda antes do 25 de Abril, e o ciclo preparatório estava dividido: o dos rapazes era na escola comercial e industrial (Neutel de Abreu, já agora) e o das meninas no liceu. A escola (a escola técnica, como a chamávamos) tinha um núcleo bastante activo da Mocidade Portuguesa, com karting, acampamentos, aeromodelismo, entre muitas outras coisas, mas eu, a única actividade que fui autorizado a praticar, foi o grupo de xadrez, que funcionava aos sábados, na sala de trabalhos manuais. Esses dois anos do ciclo preparatório, pelo menos até o 25 de Abril me ter apanhado no último período do segundo ano, foram o meu apogeu enquanto xadrezista.

Guardo, desse tempo, uma meia dúzia, se tanto, de livros de xadrez, nomeadamente um acho que da autoria de João Cordovil sobre o célebre match que opôs o Bobby Fischer ao Boris Spassky. Já agora, a minha carreira de jogador de xadrez coincidiu com a de ladrão, uma vez que alguns desses livros foram roubados na Livraria Villares. Mas apenas pelo prazer de roubar a meias com um amigo, já que a minha mãe me comprava os livros todos que eu quisesse.

Lembro-me de que participei num torneio, onde fui acompanhado pelo Tó Esteves, outro dos tropas que paravam lá por casa, e cuja primeira jornada serviu para inaugurar as novas instalações de um stand de automóveis. Contra todas as expectativas, e contra um adversário mais velho, com fama de bom jogador, e que momentos antes da partida me tentava desmoralizar debitando nomes de jogadas famosas, ganhei a eliminatória. Na segunda ronda, disputada nas instalações do Clube Niassa, e perante um adversário que achei fácil, perdi. Acho que foram as minhas primeiras lições em concentração através da ansiedade, por um lado, e em excesso de confiança, por outro.

Depois disto só voltei a jogar xadrez, en passant, nas três ou quatro semanas em que frequentei o liceu da Amadora, tinha 15 anos, ainda jogava razoavelmente, e depois quando já andava na faculdade, no segundo ano. Durante uns anos viveu em casa dos meus pais um rapaz de fora que veio para Coimbra estudar engenharia, e que em certa ocasião me pediu para lhe ensinar a jogar. Chamava-se Bravo. Ensinei-lhe os movimentos das peças e começámos a disputar umas partidas. Em muito pouco tempo não só deixei de lhe conseguir vencer, como era sistematicamente derrotado e sempre de forma cada vez mais implacável e eficaz. Fiquei tão chocado com a forma como ele me cilindrou, e pelo que isso significava quanto à sua capacidade de jogar e quanto à minha total inabilidade, que acho que nunca mais disputei uma partida na minha vida. Excepto com um jogo de computador, ainda no tempo dos pc’s 286 e 386 da IBM, que tinha um nível que era tão fácil tão fácil que até eu era capaz de vencer.

Lembrei-me disto a propósito do livro do Arturo Pérez-Reverte que estou a ler, A Tábua de Flandres. De repente dei por mim a olhar para as quadrículas que representam graficamente o tabuleiro, a estudar a posição das peças e a analisar os movimentos possíveis, passados e futuros. E a ter vontade de ver novamente um tabuleiro verdadeiro, físico, e de tocar as peças e de as dispor e de as movimentar. Só mesmo a literatura seria capaz de me fazer voltar a ter vontade de jogar, a experimentar o frémito de tensão e concentração que se sente durante uma partida de xadrez.

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