miguel (innersmile) wrote,
miguel
innersmile

dizer-te a palavra, uma a uma

1
Dizer-te a palavra, uma a uma. Esperar por ti. Acreditar no dia. Sair.

2
Contar os marcos da estrada. Afastar-me sem saber para onde. Estar à tua espera. Sair para o dia do sol depois da chuva. Tudo está limpo como uma criança acabada de nascer, e eu vou contando os marcos da estrada enquanto espero por alguém que me leve.

3
Radiosa e medonha é a face com que espreitas para fora. Estendes a mão, os dedos, e tocas o visco do vazio. É frio. É noite. São sorrisos e lágrimas como uma fotografia. Desejas-me e dizes-me outra vez, mas, desta vez, não acredito. Vou despegando pétala a pétala.

4
Não há lugar para a beleza, não há campainhas, não há artifícios, não há distância que possas medir com os olhos. Despes-te porque pressentes que é a última vez. Ou a vez primeira. Estendes-te devagar e deixas que te toque cada superfície do corpo. Rezas. Deitas-te. É nessa altura que olhas para o dia e ele corre à tua frente como um filme, um feixe de luz. Tudo o que precisas.

5
Toco o país verde e regresso depois às cidades. É isso que me interessa. Os bulevares, as avenidas, os cruzamentos onde parado esteja, ou em trânsito, o teu olhar. A tua pele, a temperatura das tuas mãos, o sopro venenoso que exalas quando expiras, se expirasses, para a minha boca, as minhas narinas.
É aí que te procuro porque só aí eu sei que não te encontro. Outra vez.

6
De nada adianta perturbares-te com o tropel dos animais à desfilada. Essa é uma estrada que não percorrerás. Não sentirás o frémito, o calor da carne túmida, nem o sal te escorrerá nos lábios.
Ao teu lado corre um rio verde e frio, e apenas nas suas águas profundas encontrarás consolo. Fecharás os olhos e, por uma vez apenas, o teu sono não será transtornado. Haverá uma serenidade plúmbea e pensarás que estás de regresso. Que estás no início. Que tudo te será permitido porque a tudo te darás.
Mas não é ainda esse teu tempo. E quando o for será outra a pele, outras as manchas no lençol, outros os soluços que ouvirás à noite.
Aquieta-te agora. Por enquanto. Dorme.

7
Levanto-me subitamente e tu. Foste.

8
Depois de tudo ter desaparecido, permanece ainda um odor. Quando me debruço, desatento, sobre a folha branca de papel, a tua pele, és tu que permaneces. Tu, a tua cama, a tua manhã, a tua imagem reflectida ao espelho, os teus cabelos no lavatório, o calor do teu corpo nos lençóis há muito tempo abandonados. O peso do teu gesto sobre o meu peito.

9
Ouço de novo quando respiras.
Ouço de novo quando o teu desenho cai lentamente sobre os meus olhos, a sombra da noite no meu quarto. Ouço quando dizes e ouço quando olhas. Ouço quando viajas devagar e eu não sei se partes se regressas. Ouço quando (sempre) me trazes as mãos vazias, quando já não és sequer uma lembrança, quando um silêncio oco é tudo o que resta no que era a tua mancha no lençol. Ouço isso também. De novo. Ouço quando amortalhas. Ouço quando as flores bebem a água que outrora corria no teu sangue. Ouço quando cerras e ouço quando abres. Ouço quando te voltas e ouço o teu reflexo (sempre) na parede, a sombra do teu reflexo, a subtil impressão do que já nem sabemos se foi. Ouço os teus últimos passos. Ressoam (sempre).
Tags: poemas
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