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treze casas



Casas Contadas, da autoria de Leonor Xavier, e que li nas minhas férias, é um livro assaz extraordinário. Desde logo pelo tema: a autora propõe-se fazer uma coisa que é rara em Portugal, seja a de contar a sua própria vida, num tom que oscila entre a autobiografia e o registo mais solto das memórias. Depois porque o faz partindo de um pressuposto curioso: arrumar a sua vida em capítulos que correspondam às treze casas onde viveu.

Mas o que dá fôlego à obra de Leonor Xavier é o riquíssimo testemunho do que foi uma vida portuguesa nos últimos sessenta anos, começando pelo estilo de vida da média e alta burguesia lisboeta dos anos 50, e passando pela feira cabisbaixa que era o modo funcionário de viver português dos anos sessenta ( O’Neill dixit), pela ida para o Brasil no rescaldo do 25 de Abril e do verão quente por parte dessa burguesia pouco animada com a perda dos pergaminhos do ancién regime, pela explosão hedonista que foi viver a descoberta da liberdade no Brasil dos anos oitenta, enfim pelo regresso a um Portugal apesar de tudo diferente (e quase novo?) nos anos noventa. O registo de Leonor Xavier é impressionante, pela extensão e pelo nível dos nomes citados (e devidamente elencados em índice onomástico, hábito tão raro entre nós), pelo volume e pelo interesse da informação, pela profusão de anedotas e pequenas histórias. Enfim, pela capacidade de a autora nunca abandonar a esfera privada e íntima, sempre balizada pela pública, e sem nunca ceder à tentação do gossip e da inconfidência.

Depois, para além disso, há o estilo de Leonor Xavier. Com uma lista impressionante de nomes e de histórias, para além de nunca cometer inconfidências, o registo é sempre elegante, não há uma nota de maledicência. Quando se refere às coisas más ou desagradáveis que lhe fizeram, LX sempre omite o nome dos visados de tal modo que, tenho a certeza, eles se hão-de rever no relato, mas não descaindo o livro para o terreno da revanche ou sequer da má-língua. É admirável o modo como a autora conta episódios da sua vida pessoal, sempre mais subtil do que explícito, sem chamar os bois pelos nomes, mas também sem nunca se esconder ou dissimular.

Enfim, Leonor Xavier é uma Senhora, e isso transparece em cada página do livro. E mostra-o também, já agora, na maneira totalmente desprovida de preconceitos como que se refere a amigos que tinham comportamentos mais alternativos. Por tudo isso o seu livro é, como comecei por dizer, verdadeiramente extraordinário: não há nele ponta de vulgaridade, em qualquer dos sentidos que a palavra possa tomar.
Tags: leonor xavier, livros
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