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nação crioula
rosas
innersmile

Depois dos três volumes de Millennium, mais de 1800 páginas de crimes e atmosferas sombrias, precisava de qualquer coisa breve e refulgente para me distrair. De um amouse bouche. Tinha cá em casa um livro do José Eduardo Agualusa, há muito tempo (fui ver a data em que o assinei, Março de 1998) e que, por qualquer razão, nunca tinha lido. Nação Crioula, creio que um dos primeiros do autor e um dos mais premiados.

O livro é uma pérola, mais até de concepção, de ideia criativa, do que propriamente de escrita. Quer dizer, o livro está muito bem escrito, mas nota-se que é ainda um livro de maturação, de um escritor que está a fazer mão. Sobretudo se comparado com os livros mais recentes de Agualusa. Mas a ideia do livro é genial: Carlos Fradique Mendes, o "português mais interessante do século XIX", personagem criada por Eça de Queirós e cuja obra conhecida é constituída essencialmente por correspondência, escreve uma série de cartas que se centram na sua passagem por Angola e pelo Brasil.

Para além de relatarem a sua paixão por uma mulher, personagem admirável, que nasceu escrava, tornou-se dona de escravos e mais tarde militante anti-esclavagista, as cartas de Fradique vão ainda dando conta do seu próprio processo de consciencialização da tragédia humana que foi a escravatura, por oposição ao seu papel decisivo na economia novecentista, e de como essa tomada de consciência se transformou em acção.


Um dos poucos homens que não quis ficar foi Cornélio, o velho hausa de quem lhe falei em carta anterior: veio ter comigo muito sério, com o antigo orgulho da raça, explicando que pretendia regressar a África, e visitar a Meca, e depois morrer. «A vida de um escravo», disse-me, «é uma casa com muitas janelas e sem nenhuma porta. A vida de um homem livre é uma casa com muitas portas e nenhuma janela».

- José Eduardo Agualusa, NAÇÃO CRIOULA

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Gostava de ter o hábito de assinar os meus livros... Quero sempre fazê-lo e nunca o faço não sei porquê. Vou ver se mudo isso!
Uma amiga minha acabou de entregar tese de mestrado sobre a alteridade nas obras do Eça e do Agualusa, a propósito do Fradique :)

assiná-los é só um dos maus tratos que eu dou aos livros.

Fazê-los parte de nós dificilmente poderá ser mau trato :)

pois. não sou nada daquele género que o livro é sagrado, não se pode riscar nem sublinhar nem escrever nas margens.

O Agualusa é um dos meus autores em língua portuguesa preferidos. Sei que já lhe disse isso algumas vezes e estou ficando tedioso, mas hei de ainda lhe dizer isso várias e várias vezes...

Quando leio o Agualusa o meu coração fica tão leve, leve. E isso desde o primeiro livro que li dele, Um estranho em Goa. A sua prosa me é admirável, queria saber escrever tão limpidamente e com tanta leveza quanto ele. Já reparou que não nos sentimos fatigados quando lemos qualquer coisa escrita por ele? Não é um autor que nos pese.

em mim ele provovca sempre um efeito de euforia, como se estivesse a entrar no recinto de uma festa, da melhor festa.

Dele só conheço as crónicas semanais que escreveu no Público e que adorava ler. Pode ser que um dia, tenha eu tempo, ainda venha a ler um livro dele.

infelizmente essas crónicas terminaram. eram deliciosas. e muitas vezes serviam de tubo de ensaio para os romances.
acho que o Agualusa é um dos melhores escritores (e seguramente dos mais divertidos) de língua portuguesa neste momento.

Vou contar-te um segredo que não me fica nada bem: Desde que soube que o Agualusa apoia a purga em Maio de 77, em Angola, não consigo lê-lo.

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