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beautiful shadow
rosas
innersmile


Terminei finalmente a leitura de Beautiful Shadow, A Life of Patricia Highsmith, uma biografia da autoria de Andrew Wilson sobre a criadora de Tom Ripley. Chateia-me ler livros muito grandes, porque leio muito devagar e demoro muito tempo a lê-los. Este, com mais de 500 páginas e uma mancha de texto muito densa e um tipo pequeno, demorou mais de um mês!

Trata-se de uma obra admirável, e dificilmente poderá surgir uma outra que atinja o mesmo nível de acutilância e profundidade na análise que faz da vida de Patricia Highsmith tendo como referência a sua obra literária. Wilson teve algumas condições extraordinárias na feitura do livro, nomeadamente pelo acesso a todo o espólio literário de Highsmith. Durante toda a sua vida, a escritora manteve cadernos de notas onde assentava, diariamente, as suas experiências, o seu dia a dia, as suas reflexões, as leituras; tudo, desde o mais prosaico, como o rótulo de uma garrafa de vinho, até complexas reflexões sobre filosofia, ou profundas sessões de auto-análise. Além disso, manteve ainda cadernos (os seus 'cahiers') que serviam para anotar e organizar as suas ideia literárias, sendo que muitas delas se transformaram em romances ou contos publicados, muitas deram em obras que se mantiveram inéditas, e muitas outras não passaram de esboços, projectos, ideias que nunca encontraram concretização.

Como se imagina, trata-se de um material riquíssimo, que permite a Andrew Wilson fazer uma close reading de toda a obra literária de Patricia Highsmith, e de que resulta uma biografia literária muito completa, e que abre perspectivas e avança interpretações não apenas em relação aos grandes temas de Highsmith, mas que desce a pormenores e detalhes, chegando ao ponto de identificar, por exemplo, a origem de determinadas frases dos livros ou os lugares onde se desenrola a acção de algumas sequências.

É impossível resumir aqui um esboço que seja do universo literário e da personalidade, como escritora, de Patricia Highsmith. É interessante notar que dos testemunhos recolhidos resultam muitas vezes perspectivas contraditórias, embora quase todas concordem com uma nítida misantropia, uma angústia, que lhe vinha desde a infância, provocada por uma relação atormentada e dolorosa com a mãe, e uma homossexualidade sempre assumida mas nem sempre de modo muito pacífico. Se as ideias políticas de Highsmith eram algo incoerentes e nem sempre muito simpáticas, o olhar negro que deitou à sociedade contemporânea, particularmente em relação à sua América natal e com a qual manteve sempre uma relação muito difícil (Highsmith viveu a maior parte da sua vida adulta expatriada na Europa), originaram uma obra literária que sempre fugiu ao cânone do policiário, justificado apenas pelo enorme fascínio que o crime lhe suscitava, não tanto enquanto puro exercício de maldade (mas também), mas sobretudo como ponto de ruptura da moralidade com que a sociedade pretende constranger o indivíduo, e do dilema que essa ruptura lhe provoca, ou seja, o modo como ele vive a culpa.

Suponho que esta seja uma obra que interessa sobretudo aos fans de Patricia Highsmith, entre os quais naturalmente me incluo. É no entanto mais do que isso; já nem refiro um comentário ao século XX tal como foi vivido, e sofrido, pelo homem ocidental. Beatiful Shadow é, sobretudo, a história de uma mulher que viveu enormes e dilacerantes angústias e fragilidades, e que as escreveu sob a metáfora do crime e da maldade, com uma escrita rigorosa e simples, que ela trabalhava de forma obsessiva porque era a única maneira que sabia de se salvar de si própria.


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Admiro-a. E que bom compartilhar isto contigo.

Fascinam-me todos aqueles autores que trabalham na linha limítrofe entre o popular e a alta literatura. Acho que ela pertence à classe de Edgar Allan Poe, a dos autores que sim são lidos durante a vida deles, mas que escrevem obras que vão durar.

Os intemporais, que conseguem chegar a toda agente.

ah, fico mesmo contente pr também admirares a PH.

Mon dieu, a capa da Biografia é linda!

Tenho lá minhas dúvidas se a publicarão no Brasil (embora grande parte, se não toda, da obra de Highsmith esteja disponível por aqui em tradução).

É possível, embora não provável, que eu consiga topar com a tradução francesa. Os franceses são loucos por escritos e escritores policiais, mesmo os americanos. E Highsmith tinha fortes laços com a Europa...

Lembro-me que foi numa tradução francesa que consegui ler a autobiografia de Reynaldo Arenas, porque a edição brasileira estava caríssima!

Como é bom termos uma alternativa idiomática, não? Sinto-me às vezes um abençoado.

Saint, que bom ter-te aqui de novo, estava cheio de saudades.

o livro tem fotos muito bonitas. para quem, como eu, só conhecia o rosto envelhecido de Highsmith é surpreendente como ela foi uma mulher bela.

encontrei a edição inglesa livro por acaso, numa Fnac. o que é espantoso é que muitas vezes as edições estrangeiras que se vendem cá são mais baratas do que as edições nacionais. claro que este livro provavelmente nunca será traduzido cá, e por isso, sim, é mesmo uma benção podermos ler noutras línguas.

queria muito saber de ti, o que se tem passado, como correm as coisas, enfim, nouvelles de ta vie. mande-me um mail, siozinho, por favor.

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