miguel (innersmile) wrote,
miguel
innersmile

nova e velha democracia

Começa a esmorecer nos media a questão do deputado do PND ao parlamento da Madeira que desfraldou uma bandeira nazi em pleno hemiciclo, justificada, segundo ele, como manifestação de protesto pelas regras pouco-democráticas que vigoram na política madeirense. Curiosamente o grosso da discussão, especialmente ao nível da classe política, versou a questão da suspensão, pelos vistos ilegal, do mandato do referido deputado, decretada pelo presidente da Assembleia Regional.

Ora, na minha opinião, a questão importante aqui é outra. Não está em causa a minha opinião acerca do governo da madeira e do seu presidente e respectivos caciques. Mas considero totalmente inaceitável recorrer-se a um símbolo tão negativamente carregado enquanto instrumento de acção política. Ao desfraldar a bandeira nazi, o deputado do PND não ofendeu o presidente do governo da Madeira, mas sim os milhões de vítimas da barbárie nazi.

A nossa conduta em sociedade faz-se no quadro de uma determinada exigência moral (mesmo que seja para a contrariar), e, por maioria de razão, a intervenção política tem de ter um quadro de valores que lhe sirva de referência. Mostrar uma bandeira nazi porque se quer denunciar modos pouco democráticos de um governo cuja legitimidade democrática não tem discussão é no mínimo desproporcional.

Isto para já não falar nos efeitos preversos da banalização de determinadas imagens e símbolos. Quando vemos os neo-nazis desfilar com os seus símbolos em que é que a cruz suástica que exibem é diversa da que o deputado do PND exibiu no parlamento da Madeira?

Francamente não sei se os regulamentos estão ou não a ser ultrapassados nesta questão do deputado regional. O que sei é que reduzir esta questão à burocracia dos regulamentos é já, em si, desvalorizá-la naquilo que tem de essencial. Pela minha parte o que o deputado madeirense mostrou foi uma irreparável falta de cultura cívica e política, que o desabilita completamente a exercer o seu mandato de representante do povo. Por isso das duas uma: se fez o seu gesto infeliz à revelia do partido, então a direcção deste deveria exigir que ele próprio pedisse a suspensão do seu mandato. Se a direcção do partido sabia do que se iria passar, ficamos a saber que a democracia do partido não é nova nem velha, não é democracia.
Tags: crónica
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