miguel (innersmile) wrote,
miguel
innersmile

os dedos pela palavra

passo ao de leve os dedos pela palavra, sinto-lhe as nervuras, a tensão dos nós, as sílabas precipitadas. digo-lhe as letras, como se tentasse, calma e desesperadamente, reter-lhe a luz, a água fresca das manhãs.

tento erguer-me acima dos bichos, esquecer-me do que arde no fundo dos lençóis, na noite sem fios. mas, ao menos por enquanto, é inútil pensar no voo. agarram-se-me à pele com a interminável cadência das horas.

tarde ou cedo, não sei se regressas. não sei se me afasto da parede e, voltando-me, te vejo de novo aqui, entre os livros, ou se espero que o esquecimento te resgate como ervas selvagens crescendo entre ruínas.

não são as horas que desta vez te afastam, dir-se-ia um pequeno milagre, de mim. é a espada. são as garras, mais fortes que os meus dedos.

nomear-te ou não, entre o fogo e o pesadelo, há-de revelar com nitidez cruel e infalível o teu lugar. guardarei para sempre a ternura do teu cheiro. entretanto, vou passando ao de leve os dedos pela palavra, resisto a seguir o som que me chama, e penso que virão outros dias.
Tags: poemas
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