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porto seguro, 2008 / 4
graças
innersmile
27 de Agosto
Dia passado na Fazenda Mãe Tereza, que é um sítio ecológico. Não achei grande piada, porque a maior parte das actividades causam-me stress: não gosto de andar a cavalo, não consegui equilibrar-me no caiaque, descer a tirolesa estava fora de questão. Na verdade a única actividade a que me dediquei com afinco foi espreguiçar na rede. O almoço foi um churrasco uruguaio, muito bom.

Foi o último dia de excursões com a companhia do guia. A partir de amanhã vamos ter carros alugados e já há planos.

O motorista da van em que temos andado pediu-me hoje de manhã para eu lhe dar a minha mochila (a "sacola"). Diz que é para o "netinho" levar para a escola. A maneira mimalha e 'pidona' de falar é irritante, sobretudo num tipo que tem cara e corpanzil de praticante de jiu-jitsu! Como já não vai andar mais connosco, pediu-me para eu deixar a sacola ao colega que, no Sábado, nos levar ao aeroporto. Claro que eu passo bem sem mais uma mochila, apesar desta ser engraçada e muito funcional. Logo se vê.

Estou a gostar muito das férias, mas férias são férias, e eu estou a gostar muito desta segunda visita ao Brasil. É aquela coisa do trópico, aquela coisa negra, mulata. A descontracção. Até a aldrabice, em versão soft, o paleio, tentar dar o golpe mas sem forçar a nota nem perder a simpatia. O dizer as coisas só por dizer, o sentimento fácil, dizer aquilo que se acha que o outro quer ouvir. Parece sempre que não se pode confiar muito, fazer muita fé. Mas por outro lado também parece que essa é a maneira mais fácil de viver.







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Ui, tu nem sabes o que perdeste em não encaixar-te no caiaque. E provavelmente, para descer o tirolês, já não desdenharias, rsrsrsrs.
Mas tens razão, a mim também me mete impressão a alegria apardalada, que tresanda a artificial e andava permanentemente travestida de fraternidade. Ou então é de sermos tristes europeus, não sei... Se calhar estamos sempre à espera que a porca torça o rabo, ou o leitão nos pregue uma rasteira, sei lá... Achas que é do clima?! Eu tenho essa teoria. :)

Catatau


Posso lhe assegurar que não é uma alegria falsa - mas que ela vem misturada com um tanto de cálculo, um tanto de malícia, um tanto de premeditação... sim, também é verdade.

Mas quem disse que a sinceridade não pode vir mesclada ao interesse? Só os europeus pensam que as duas não convivem bem juntas!

(e vou logo parando de dizer essas coisas, porque senão você(s) pode(m) pensar que, antes de mais nada, falo de mim próprio - o que não é, absolutamente, a verdade aqui. É só que convivo com brasileiros há quase 36 anos, então posso dizer que sou um especialista neles... Esse povo tem uma carência enorme. Não é por mal que pedem a mochila, ou pedem a caneta, ou querem um pouco do lanche que estamos levando. São como crianças, ficam deslumbrados com qualquer brinquedo, qualquer rebrilho. Ouvem a palavra "Europa" e imaginam o Eldorado. Há algo profundamente marcado nos genes deles que diz que devem, sim, explorar ao máximo os "gringos", mas de forma nenhuma prejudicá-los seriamente. Não querem roubá-los, querem apenas lucrar convosco; lucrar desonestamente, mas não desonestamente demais. A maioria seria incapaz de roubá-los, mas seriam capazes de lhes cobrar por uma laranja 10 euros, embora as vendesse por 50 centavos a outro brasileiro...)

é do clima, é. entre outras coisas, é claro.
quanto ao caiaque, acredita que eu tentei encaixar-me. o pior foi conseguir menter-me direito... so to speak :)

Não sei se gosto desse retrato que você está fazendo - não porque ele não tenha nada a ver com o modelo. Justamente porque me parece fiel demais...

Por outro lado...

Por outro lado, parece o retrato que os europeus vêm fazendo de nós há 500 anos. Aquela coisa meio "le bon sauvage", ingênuo e naïf, que não faz por mal quando pede, mas como pede! Se calhar, leva-nos até as ceroulas!

Enfim, confesso que meus sentimentos estão dolorosamente divididos.

Ponto (positivo) pra você! Poucas são as pessoas ou coisas que conseguem mexer comigo a esse nível... Só podia ser mesmo você.

meu querido, nem pensei que o que eu escrevi lá em cima no texto pudesse ser lido como critica, como um juizo de valor.
não tenho um pingo de preconceito em relação aos brasileiros, nem mesmo quando assaltam bancos rsrsrs. e tento (e acho que consigo a maior parte do tempo) olhar para os 'povos do sul' (ou mesmo para todos os povos não europeus) sem aquela superioridade europeia feita metade de desprezo e metade de paternalismo.
e já agora deixa-me dizer mais uma coisa. uma das coisas que admiro no Brasil é o modo como se conseguiu livrar do 'trauma colonial', como se emancipou desse passado de colónia de Portugal (quem sabe um dia se cura do trauma esclavagista). uma das coisas que percebi e achei curiosa, nestas férias passadas na costa do descobrimento, é a maneira como os acontecimentos ligados à chegada do Cabral fazem parte da história do Brasil, da herança brasileira, e não da herança colonial. Percebes o que quero dizer? Olhar para essa chegada tão determinante dos colonos não como uma coisa alienígena, estrangeira, mas como uma coisa que é nossa, faz parte da nossa história. claro que eu não sou burro, e também percebo o que essa adopção do que chegou de fora como uma coisa inicial representa em relação ao que já existia, ao que era nativo.

Mas ter me deixado tão "confuso" é um ponto positivo pra você, já disse ;-)

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