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a matança
rosas
innersmile
Se isto parece ter acontecido no século passado, é porque de facto aconteceu. E estava o século ainda longe de acabar, eram ainda os anos 70, do meio para o fim. Os guinchos do bicho chegaram à sala onde eu estava, sentado à braseira, a olhar para um televisor de imagem a preto e branco.

Saí de casa e subi para o Largo do Castelo, que não tinha razões visíveis ou memoráveis para se chamar assim. Quase ao cimo da rua, antes de abrir para o largo, quase em frente à tasca (também havia um café, mas era lá em cima, do outro lado, junto à entrada de quem vem pela estrada velha, ao pé da eira, 'dageirage', como lá diziam), na vasta garagem atrás do portão de ferro da casa dos Tenreiros (invento o nome, não me recordo do verdadeiro), matava-se o porco.

Um espectáculo medonho e imundo, com o bicho a esvair-se em sangue que corria para bacias de plástico, os guinchos dos outros bácoros a denunciarem o irracional medo da morte, mas era igualmente o lugar mais quente da aldeia. O sangue fervia a correr do corpo do bicho e a cozer em enormes panelas de alumínio. Os cães e o seu bafo a um tempo tristonho e esfomeado. As chamas do maçarico a chamuscarem a pele do porco, empestando o ar com um odor enjoativo e horrífico. As crianças em algazarra, atrás dos cães e dos alguidares. As mulheres azafamadas, de mangas arregaçadas até ao cotovelo e as faces ruborescidas. E os homens, em camisa interior e a escorrer sangue pelos antebraços nus, a desmancharem o bicho.

É, estava-se em Janeiro, e ultrapassado o horror do sangue e da porcaria e a estonteante e nauseabunda anarquia, a garagem onde se matava o porco era o lugar mais quente da aldeia, de toda a Beira Alta e até de toda esta parte do mundo que me separava da minha mãe.


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(fiquei com uma vontade incontrolável de comer sangue de porco frito)

isso come-se? frito como? só o sangue ou misturado com alguma coisa? já agora, comes isso onde, em que região?
:)

come-se e eu acho um pitéu.. a minha mãe costuma fazer frito em azeite, com muito alho e pimenta. desde pequena que me lembro de comer (e por vezes era substituído por sangue de galinha). e também cozido. sou de ovar mas não acho que seja uma coisa típica de cá. o meu pai é de amarante, talvez tenha sido importado de lá.

acho que passo :) sangue só mesmo o de galinha, na cabidela

aconteceu-me muitas vezes acordar com os guinchos suínos de morte do outro lado das persianas, sempre aos sábados. Parecia que o bicho agonizava dentro do meu quarto.

é mau, é muito mau. e o pior é que eles adivinham que chegou o dia e começam a guinchar horas antes.

Nunca assisti a nenhuma matança, do que quer que fosse, e pela descrição não quero assistir.

Gostei muito do teu modo de escrita neste texto.

Lili, obrigado por teres reparado no 'estilo'. esforcei-me, não sei bem como nem em que sentido, mas para que a escrita não fosse neutra.

De nada, ora essa.
Não parece nada esforçado, assim até parece que é simples, mas só para quem pensa que escrever não custa nada.

Estive a ver Rapariga Com Brinco de Pérola, é lindíssimo pictoricamente, e a Scarlette, é linda e muito parecida com a rapariga do quadro. Só achei que a história não está ao nível da imagem e da mestria da filmagem.

um filme lindo de ver, tens muita razão.

(Deleted comment)
é realmente uma coisa muito estranha. é um espectáculo um bocado decadente mas tem esse lado de festa popular, de grande acontecimento.

Gosto muito desta tua escrita.

obrigado, meu caro. sem falta modéstia também achei o resultado engraçado.

Incrível!
Uma vez assisti no Douro, a uma matança. "Assisti" ao longe. Penso que falei nisso no lj.

Das experiências mais medonhas que alguém pode viver.

é medonha, concordo, mas como digo aí para cima tem certo um lado festivo. um pouco a história de que 1º, temos um porco para matar, e 2º vai-nos alimentar o ano todo.

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