?

Log in

No account? Create an account

Previous Entry Share Next Entry
estação seca . 16/25
a_seco
innersmile
16

Vai haver um dia em que te vais confrontar com a verdade. A máscara vai cair e a sombra que te embeleza o rosto vai ser cruel como a primeira luz de uma manhã de verão. Vai haver um dia em que não te vão sobrar as desculpas e vai faltar o pano com que cobres as chagas. Vai haver um dia em que o teu corpo inábil e desesperado vai finalmente aceitar o desastre e tu vais penar à chuva e ao frio e ao vento da verdade com que te tentas iludir. Vai haver um dia em que os cães vadios te vão ladrar às canelas e tu vais pensar que afinal o desespero não mora do lado de fora, mas está colado por dentro, ao interior da tua pele, e te corre pelos subterrâneos das veias e te mina os ossos como a soda cáustica ou como o tempo. Vai haver um dia em que não te vais conseguir mirar ao espelho, em que o rosto do teu reflexo vai ser agonizante como uma camisa rasgada, e ramos queimados e ressequidos, furando a fétida pele, te nascem do rosto e dos membros. Vai haver um dia em que vais desistir, dizer basta, cansado deitar a cabeça no teu próprio colo vazio e dormir sem conseguir adormecer. Vai haver um dia em que vais subir ofegante a escada da tua casa, na mão um saco plástico molhado com o pão nosso de cada noite em claro, e te vai arder no rosto a certeza de que se cumpriu a oca promessa da tua vida, de que finalmente chegaste ao vazio que sempre te estava destinado, que não vai haver nem mais um dia em que possas mais fugir da tua derrota.
Tags:


  • 1
Estamos todos condenados a essa derrota.

"Há-de vir um Natal e será o primeiro em que se veja à mesa o meu lugar vazio
Há-de vir um Natal e será o primeiro em que hão-de me lembrar de modo menos nítido
Há-de vir um Natal e será o primeiro em que só uma voz me evoque a sós consigo
Há-de vir um Natal e será o primeiro em que não viva já ninguém meu conhecido
Há-de vir um Natal e será o primeiro em que nem vivo esteja um verso deste livro
Há-de vir um Natal e será o primeiro em que terei de novo o Nada a sós comigo
Há-de vir um Natal e será o primeiro em que nem o Natal terá qualquer sentido
Há-de vir um Natal e será o primeiro em que o Nada retome a cor do Infinito".

São os infinitos do Tempo.

Lili, é impressão minha ou tu detestas estes textos da 'estação seca'?

Não, não detesto nada estes textos, são até muito bonitos e bem escritos, e que me apraz ler, mas mentiria se dissesse que não bulem comigo duma maneira depressiva.
É um pouco, o mesmo sentimento que a escrita do Lobo Antunes me incute.

olha eu gosto e muito.e não vai haver nem mais... perú ke já és.

(Deleted comment)
sem apelo nem agravo, como se dizia antigamente. acho deliciosa a ideia de se poder dizer que alguém sofre de um optimismo doentio :)

Eu gosto muito destes textos porque noto neles uma raiva benigna. Aliás nem devia comentá-los com medo de queimar as mãos, só lê-los, mas acabo por abrir a torneira dos vasos comunicantes... Valerá a pena lutar contra o tempo?

rui:alexandre

  • 1