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vietname 08.3
rosas
innersmile
23.3.08

Em Halong, a bordo de um dos barcos que fazem o cruzeiro da baía. Acho que é dos lugares mais bonitos onde já estive. Tão fantástico, que é daquelas ocasiões em que tendemos a acreditar no divino, descrentes da capacidade de o acaso natural produzir um lugar assim tão espantoso: uma baía imensa, cheia de pequenas ilhas, pequenas montanhas de calcário, inóspitas na sua maior parte, altas todas, de formas as mais irregulares, das mais redondas às mais escarpadas, com vegetação. Ilhas e mar de cor verde, e uma imanência de tranquilidade absoluta. Como toda a beleza, é indescritível. Como se tivesse havido uma explosão e centenas de pedaços tivessem ficado espalhados, sem ordem aparente, numa superfície vasta e plana.

Interrompo para tirar uma fotografia. Tiro a foto. Mas nenhuma fotografia no mundo poderá fazer jus ao que estou a ver neste momento (porque nenhuma fotografia no mundo poderá capturar o que estou a sentir). É quase noite. Estou sentado na cama, a janela rasgada da cabine toda aberta, a ver a água a correr, chumbo derretido, as ilhas escarpadas enormes manchas negras. É um daqueles momentos que sei que nunca mais vou voltar a viver, que nunca vou esquecer, e parece que quase sinto saudades do tempo em que viver um momento assim era uma insuspeitada promessa escrita no meu destino.

À tarde saímos para um escaler que nos levou até uma das pequenas ilhas, com uma pequena praia. Os outros subiram até ao cimo do morro (sim, na sua forma estas ilhas têm qualquer coisa dos morros do Rio de Janeiro) para visitar um pagode, mas eu fiquei deitado na areia (dizem-me que a praia é artificial, não sei), a ver os enormes barcos de turismo, a apanhar sol e a experimentar o primeiro mergulho no mar.

Há na baía umas poucas de aldeias de palafitas, habitadas por pescadores. As mulheres dessas aldeias vêm nos seus botes até junto dos barcos dos turistas vender pacotes de batatas fritas e latas de cerveja. Os miúdos acompanharam todo passeio ao longo da aldeia, uns a vender búzios e conchas de ostras muito mal-cheirosas, outros sem qualquer pretexto a pedir ‘un dollar’ com pronúncia afrancesada. Mal o escaler se afastou houve um acidente, um dos pequenos botes dos miúdos submergiu e desfez-se na água. Felizmente a menina, mal se apercebeu do acidente, saltou para um dos outros botes, mas começou a chorar. Os outros miúdos ficaram muito aflitos, e mal o nosso escaler se aproximou das primeiras casas, começaram a gritar e a apontar na direcção do acidente. Percebia-se que, de um lado e do outro, havia preocupação, e até a tripulação do escaler comunicou alguma coisa para os das casas.
Não sei se me fez impressão ver aquelas crianças, meninas quase todas, a mendigar o dólar. Será um sinal de miséria, mas não se podemos estar fora da ordem das coisas. Que são como são. Aquelas crianças são felizes? Se o forem, pronto. E poderiam ser mais felizes? Isto é, se tivessem mais bens materiais, mais possibilidades? Sim, claro que sim. Mas também poderiam ser mais infelizes, muito mais infelizes. E são quase todas tão bonitas. E têm um modo de remar os seus pequenos botes tão eficaz e bonito. Fico sempre um pouco embaraçado quando me cruzo com pessoas que parecem ser mais apetrechadas para a vida do que eu. Sinto-me sempre tão ‘gauche’, como diria Drummond.

No regresso da aldeia um pôr do sol de bilhete postal, o sol a desaparecer por detrás das ilhas.







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quase que sinto a Ásia. lindo lindo. essa cor do sol... deu-me uma saudade...

As fotos, belìssimas, complementam perfeitamente o relato...
Abraço, pinguim

can i be your personal cormorant? or make one of those gorgeous pictures my wallpaper? I´ll settle for the later. godspeed!

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