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gonzales + vinicio capossela
rosas
innersmile
Não há milagres que se repitam, e por isso a segunda noite, e última, de concertos do Festival Sons em Trânsito a que assisti não foi tão especial como a anterior. Também prejudicou a função o facto de eu ter ficado numa das últimas filas do balcão, incrivelmente longe do palco, em vez da intimidade da segunda fila na véspera. Mesmo assim dois excelentes concertos.

O primeiro muito inesperado, com Gonzales que, tanto quanto julgo saber, fez nome na área da música electrónica de dança. Em Aveiro, o canadiano apresentou-se a solo ao piano, vestindo uma bata de laboratório e luvas brancas: a ideia era tratar a música como uma experiência científica. Foi, como se calcula, um concerto muito marcado pelo humor, em que Gonzales se revelou um virtuoso do piano, demonstrando e desconstruindo algumas regras da música, especialmente da música para as massas, a música popular.

O segundo concerto da noite foi de Vinicio Capossela, em relação ao qual eu tinha grandes expectativas, que se confirmaram todas. Apresentando um espectáculo total, com um intenso sentido do teatral, grande preponderância de elementos cénicos (especialmente chapéus, não houve uma canção em que VC não usasse um chapéu, quase todos diferentes), e criando um ambiente entre o intimista com tons góticos e o festivo. O resultado é uma performance muito forte, um espectáculo denso e profundo, e verdadeiramente inesquecível.
Para além da qualidade da prestação, o que mais me impressionou foi o compromisso de Capossela com a própria função do concerto, e claro com o público. Esse compromisso revelou-se, por exemplo, no esforço de comunicação, que passou não só pelo facto de Capossela se ter dirigido ao público sempre em português, mas também no de ter traduzido os textos das projecções e ter feito distribuir um guião com as traduções dos poemas das canções.
O final do concerto foi verdadeiramente apoteótico, em clima de festa, com todo o público de pé a dançar e Vinicio Capossela sempre a esforçar-se ao máximo por servir, não tanto o público, mas sobretudo a própria noção de espectáculo, de prestação teatral e musical.

No fim do concerto ainda houve os tradicionais bolos e uma sessão de música com a DJ Raquel Bulha. Em suma, e apesar de apenas ter assistido a duas das quatro noites do festival, foi mais uma belíssima edição do Sons em Trânsito. O único senão é os concertos começarem tão tarde. Já nem falo, é óbvio, no facto de eu no fim ainda ter de voltar para Coimbra, porque essa é a minha circunstância, mas, pelo menos para mim, houve algum prejuízo de concentração e atenção durante o concerto do Capossela, que começou depois da meia-noite. Ou seja, nas partes mais suaves do concerto eu ficava cheio de sono!
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