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o maior sonho da minha vida

O Pinguim desafiou-me a revelar o maior sonho da minha vida. É um desafio terrível, porque vai directo ao mais íntimo e profundo de nós próprios. E também ao mais frágil, ao mais desprotegido.

A verdade é que há sonhos e sonhos, e os melhores, os mais doces e os menos perturbadores, são os do Natal! Aqueles de que tenho mais medo são os que sonho a dormir. Nas raras vezes em que me lembro do que sonho, normalmente naquele sono da manhã, mais perto da vigília, sinceramente preferia não me lembrar. Não porque sejam necessariamente maus ou embaraçosos, mas porque se há uma parte de mim que aproveita eu estar a dormir para delirar, então prefiro que fique assim, cada macaco no seu galho, e o eu acordado passa bem sem conhecer as arrumações e outros trabalhos do eu a dormir.

E depois há os sonhos a que este desafio se refere, os sonhos que sonhamos acordados. E esses, como disse, são de facto os mais complicados. São sonhos que se situam ali na fronteira entre a ambição e o desejo. São, se se quiser, menos realistas do que as ambições, mas mais racionais do que os desejos. São sempre egoístas. Sonhamos só coisas que queremos para nós. Mesmo que isso, numa espécie de benefício colateral, passe pela felicidade dos outros. Querer que a população que vive num bairro degradadíssimo de uma cidade indiana tenha melhores condições de vida, não pertence ao domínio dos sonhos, ainda que seja tão irrealista como eles, mas sim ao das intenções. Sejam elas boas ou cínicas. Digamos que o sonho padrão, aquele cujo confronto nos dá a medida dos nossos sonhos, é ganhar a lotaria. Qualquer coisa que não implique esforço, que caia do céu, que nos seja dado como prova da existência de deus.

Neste âmbito, claro que tenho os meus sonhos. Normalmente de carácter geográfico, tipo ir à Patagónia, passar um ano a viajar (à grande, note-se) na Austrália, atravessar de carro os Estados Unidos da América. Depois, no âmbito da realização pessoal, também tenho sonhos, acho eu. Por exemplo, gostava de publicar um livro. Mas não sei se isso é um sonho (ou um pesadelo…). É mais uma vontade, se bem que eu gostava de ter a certeza que não se trata de um mero capricho. Porque sonho sonho, daqueles à séria, não era publicar um livro, mas escrevê-lo. Escrever um livro. Ganhar, não o Nobel, mas a noção de que escrevemos um livro que acrescentou alguma coisa ao peso da humanidade. Mas isso já é matéria do parágrafo seguinte.

Que é o dos sonhos inconfessados, ou melhor inconfessáveis. E que eu, desafiando o bom-senso e a sensatez, vou confessar um: gostava muito de sentir o que é viver na pele de outra pessoa. Saber como é que alguém que não eu 'sente' a vida. Tentar aclarar se isto que eu vejo e penso, é assim porque sou eu a ver e a pensar, ou se a vida vivida por outra pessoa também é vista e pensada da mesma maneira. É uma tolice, como é óbvio, e nem vou elaborar mais, porque como comecei por dizer, este desafio é terrível porque nos desprotege.

Por isso, o melhor é retirar o que disse. Não nomear sonho algum. Ficamos assim. Ou melhor, ficamos com um poema que define o maior sonho da minha vida. Se lerem com atenção, está lá tudo. Estou lá todo. É do REINALDO FERREIRA:

«Não ponho esperança em mais nada.
E se puser
Há-de ser ambição tão desmedida
Que não me caiba sequer
No que me resta de vida.
Ambição tão irreal,
Tão paranóica, tamanha
Como a grandeza de Espanha
Com Granada e o Escurial.
Porque esta esperança que ponho
Em ver-te sair um dia
Da verdade para o sonho,
É como ser-se feitor
Dalguma herdade cansada:
À terra, dá-se o melhor,
A terra não nos dá nada.»
Tags: caro diario, citações
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