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nossa senhora dos matadores

Nossa Senhora dos Matadores é uma verdadeira crónica de uma cidade em chamas, no caso, uma pós-apocalíptica Medellin, sendo que aqui o apocalipse foi a prisão do patrão do cartel, Pablo Escobar, que lançou a cidade num caos de guerras entre gangs, onde a única lei da selva é a lei da bala. O autor do relato é o escritor Fernando Vallejo, já que o filme de Barbet Schroeder se baseia num livro autobiográfico do escritor colombiano, e o filme nunca se afasta um milímetro do olhar desencantado, e cínico ainda que terno, que o escritor deita à sua cidade natal. Mas Vallejo, e Schroeder com ele, não se limita a contemplar a cidade ardente do alto do seu apartamento panorâmico. Pela mão de um jovem prostituto que conhece num bordel, o escritor mergulha no inferno da cidade, testando, morto a morto, os limites da sua capacidade de resistência emocional e provando as fronteiras da sua entrega afectiva.
Este dispositivo narrativo é, por si, suficiente para tornar o filme num objecto de atenção e interesse. A sua visão 'rente ao chão' (ainda que através dos magníficos planos aéreos que tornam a cidade quase infinita, no caldeirão de montanhas que a cerca) é eficaz na transmissão de um certo "sabor a sangue", e consegue o prodígio de nunca banalizar a contagem dos corpos, mesmo quando Vallejo parece, por vezes, vacilar no sentido de uma quase des-sensibilização emocional.

Acabei de ler ontem um hiper-mega-super divertido Os Coxos Dançam Sózinhos, um romance policiário de José Pratas, que segue as aventuras de um serial killer português que é, tcharam!, inspector da PJ. É impossível não simpatizar com o humor devastador de Porto Brandão, o herói, ainda que isso não deixe de ser um pouco perturbador.
Entretanto, chegou hoje da Amazon o Naked Civil Servant, do Quentin Crisp, a parte da biografia do verdadeiro englishman in New York (sim, foi ele que inspirou a canção do Sting e que protagoniza o respectivo video-clip) antes de ele se ter mudado, septuagenário, ou à beira disso, de Londres para Nova Iorque, e de quem eu já tinha lido o Resident Alien, os seus diários nova-iorquinos (cá está: "I'm an alien, I'm a little alien, I'm an englishman in New York"). Bom, lá vai ficar a Viagem Ao Fim da Noite, do Céline, à espera de vaga.
Tags: cinema
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