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Hoje, depois do almoço, passei pela livraria Almedina Estádio com a ideia procurar um código de trabalho. Dirigi-me para a sala do fundo onde estão as edições jurídicas e o único código anotado em que peguei custava 50 euros pelo que decidi adiar esta súbita vontade de me valorizar profissionalmente.

A sala que fica do outro lado do corredor da dos livros de direito, tem uma série de temáticas das áreas económica e científica. Sob a influência do tema do livro do David Leavitt que estou a ler fui espreitar a secção de matemática. Quase só livros de exercícios e um manual de conceitos fundamentais da autoria de Bento de Jesus Caraça, cujo nome me diz mais como resistente antifascista e dirigente comunista do que propriamente como matemático. Note-se que sempre fui um aluno medíocre a matemática e que mesmo isso passou-se há mais de 30 anos, desde que fiz o antigo 5º ano do liceu (que corresponde ao actual 9º).

Desfolhei o livro de Caraça para tentar perceber se eu tenho alguma capacidade de entender o que lá está escrito. Percebi logo que não, é claro, e já estava a virar costas quando lá do meio da estante me chamou a atenção (ou simplesmente 'me chamou') um livrinho de capas vermelhas. Livrinho no formato, pequeno, e no número de páginas, menos de 150. Incrível! Tratava-se de uma edição brasileira com a tradução portuguesa de A Mathematician’s Apology (Em Defesa de um Matemático o título em português), da autoria de G.H. Hardy, precisamente a personagem principal, ou uma das personagens principais, de The Indian Clerk, o livro de David Leavitt que estou a ler (se não a personagem principal, pelo menos aquela que Leavitt usa para o ponto de vista da narração).

Trata-se de um ensaio publicado em 1940, que mais do que um livro de matemática é sim um ensaio sobre a matemática, e que foi considerado pelo escritor Graham Greene como o mais brilhante ensaio sobre o processo mental da criatividade humana. Para além do ensaio propriamente dito de Hardy (que em termos de génio matemático está na mesma liga de Albert Einstein, só para pormos a coisa em perspectiva), o livro tem uma introdução biográfica de autoria do escritor C.P. Snow onde se relatam muitos episódios que Leavitt recupera para o seu romance, e onde se referem as suas duas parcerias científicas, com J.E Littlewood e com Srinivasa Ramanujan, precisamente o 'funcionário indiano' do título do livro de Leavitt.


Como disse os meus conhecimentos de matemática são menos que nulos. A minha vida profissional ensinou-me a fazer contas de cabeça e a construir fórmulas no Excell para fazer médias e variações percentuais. Mas com a leitura de dois livros de David Leavitt, primeiro a biografia que escreveu sobre Alan Turing, um dos pais do computador, e agora este romance sobre Hardy e Ramanujan, de repente confronto-me com conceitos e com a linguagem da matemática. A maior parte deles não os entendo de todo, uma incompreensão absoluta. Mas outros começam a fazer algum sentido, como o conceito dos números primos. Muito por mérito da linguagem elegante e clara de David Leavitt, começo a perceber o fascínio dos números primos, e começo mesmo a fascinar-me com eles, com o seu bailado perfeito: 2, 3, 5, 7, 11, 13, 17, 19, 23, 29…

Apetecia-me falar aqui sobre imensas coisas deste universo e destas pessoas que me andam a ocupar o espírito. Sobretudo sobre Godfrey Harold Hardy que, pelo menos no retrato que David Leavitt traça tem, na minha imaginação, algo de pessoano ou kavafyano. Por agora não resisto só a acrescentar que, ao contrário por exemplo do que acontecia com Einstein, Hardy preferia, como matéria de trabalho, a matemática pura à aplicada. Não sendo exactamente um pacifista (estava disposto a ser alistado na I Guerra Mundial), Hardy abominava a utilização bélica do trabalho dos matemáticos.
Tags: alan turing, leavitt, livros
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