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o fim da premiére

Comprei hoje o último número da revista de cinema Premiére. Não o 'último' no sentido de o mais recente, mas o último mesmo, já que a edição portuguesa da revista foi terminada por decisão da empresa proprietária, apesar, defendem os seus editores, de ser um projecto jornalístico com viabilidade comercial e estabilidade nas tiragens.

Li pela primeira vez a edição original da Premiére, a francesa, aí por volta de 1978 ou 1979. Eu era um underdog retornado, sem dinheiro para mandar cantar um cego (na realidade só tinha mesmo dinheiro para ir ao cinema, que arranjava, basicamente, à custa de poupar o dinheiro do autocarro e do almoço) e lia a revista quando ia estudar para casa de uma colega do liceu.
Aí por meados dos anos oitenta comecei a comprar a revista e fi-lo regularmente durante mais de dez anos. A partir de certa altura já nem a lia, só a comprava. E deixei de o fazer numa altura em que estive uns meses fora e consegui finalmente quebrar a dependência desse ritual que, sem querer ser demasiado analítico, mantinha, acho eu, como homenagem a essa dupla, e contraditória, circunstância da minha adolescência, a de adorar ir ao cinema e não ter cheta!
A Premiére francesa publicava, não sei se ainda o faz, em cada número oito fichas sobre filmes (les affiches, como lhes chamavam). Ainda as tenho por aí algures, organizadas em dois montinhos, o dos filmes que eu vi e o dos que queria ver.

Entretanto, em Novembro de 1999 saiu o primeiro número da edição portuguesa da revista, e eu voltei a comprá-la. Tenho aqui, em arquivadores e em pilhas, todos os números da revista, até este derradeiro nº 96. Tal como antigamente, com a edição francesa, havia muitas edições que eu desfolhava apenas, sem chegar a ler. De um modo geral a secção crítica era fraquinha. Mas tinha coisas muito positivas: o artigo do João Lopes, a secção Os Dias de Criswell (só agora soube que o seu autor, até há dois ou três anos, foi o Nuno Markl), os lançamentos em dvd (e o julgamento impiedoso do Criswell em relação à generalizada mediocridade da edição de dvds em Portugal), e sobretudo as notícias que íamos tendo de novos projectos, de filmagens, etc. Apesar de se centrar demasiado no cinema norte-americano comercial, a Premiére alimentava um certo espírito cinéfilo que era interessante e, suponho eu, passava de facto pelo menos para os seus leitores mais fieis. E sempre conseguia, nas franjas de artigos de fait-divers sobre as estrelas de cinema, falar de filmes de cinematografias alternativas, dos filmes portugueses que sempre vão aparecendo, e envolver-se, muitas vezes através do patrocínio ou do apoio à divulgação, nos inúmeros e interessantes festivais de cinema que se têm multiplicado um pouco por todo o país.

Todas razões muito boas, e mais do que suficientes para lastimar o desaparecimento da revista. Que faria no próximo mês de Novembro oito anos, e estava a quatro números de atingir a mítica fasquia das cem edições! Mas o que é mais triste é adivinhar-se, por detrás deste desaparecimento, não uma acertada ainda que dolorosa decisão empresarial motivada por um negócio que estava a correr mal, mas sobretudo mais uma cedência à 'aura mediocritas' em que se tem transformado Portugal e particularmente a sua cultura. Não interessa manter um projecto que seja interessante, consequente, dirigido. Ninguém lê, ninguém se interessa, ninguém quer saber. Não há revistas, não há livros, não há filmes. Há produtos. Objectos com valor de marketing, de conteúdo indiferenciado, e que pretendem apenas captar a atenção do público durante os escassos segundos que demora a tomar a decisão de os comprar. Estamos a ficar ocos, vazios de conteúdo. Páginas em branco entre atractivas capas coloridas.

A Preimére tinha um site na net, onde actualmente aparece uma mensagem a dizer que o site foi permanentemente desactivado. Entretanto a equipa, ou parte dela, transferiu o seu entusiasmo cinéfilo para um blog (o que seria de nós sem os blogs?), a que deu o irónico nome de Deuxiéme. E a pensar nos indefectíveis, até o Criswell abriu banca aos seus dias no blogosfera. É caso para dizer: a Premiére morreu, Viva a Internet!


Uma notazinha de rodapé só para dizer que escrevi este texto a ouvir uma banda sonora magnífica, a do filme de David Lynch, The Straight Story, da autoria de Angelo Badalamenti.
Tags: cinema
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