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Começo por apresentar uma declaração de interesses e dizer que gostei muito de Fados, o musical que Carlos Saura realizou tendo a canção popular portuguesa por excelência como tema. O filme de Saura não é sobre o fado, nem sequer é uma visão sobre o fado. Será mais, talvez, uma ‘visão’ para o fado, uma maneira de olhar para o fado. Não é por isso um documentário, não contextualiza, não traça a história, não analisa, não explica. Eu diria que uma das qualidades do filme é precisamente não explicar o fado, quando muito tenta percebe-lo, mas provavelmente nem isso.

Apetece um pouco listar todos os defeitos que se têm apontado ao filme de Saura, e perceber que todos esses defeitos são, afinal, as suas principais qualidades. Logo à cabeça, aquela coisa do purismo. No filme de Saura, e salvo brevíssimas mas honrosas excepções, o fado que nos é servido tem muito pouco a ver com o fado tradicional, genuíno, impoluto e imaculado. Pior, há coisas que estão afastadíssimas do fado, há fados cantados por não fadistas, e há até, ó blasfémia, fados cantados por estrangeiros. Como se os estrangeiros percebessem alguma coisa da vera alma lusitana. Não percebem, de facto, mas pegam precisamente por aquilo que no fado é universal. E isso é muito interessante, perceber que ainda há fado mesmo quando aparentemente estamos tão longe dele.

Outro dos defeitos geralmente apontados ao filme de Saura tem a ver com o facto de não haver explicações, de não se dizer aos espectadores estrangeiros (e suponho que também a muitos portugueses) quem foi o Marceneiro, a Severa, a Lucília, eventualmente a própria Amália. Que raio de utilidade é que o filme vai ter para um lapónio ou para um mongol que vão sair de lá sem saberem quem foi a Severa e o Conde do Vimioso?! Eu, com franqueza, acho isso muito bonito. As canções, ou melhor, os quadros, com as suas referências, valem por si. Se alguém tiver curiosidade em saber quem foi o Marceneiro, pode ir à procura (pode começar por aqui: pt.wikipedia.org). Essa solidão das cantigas, despojadas de notas de rodapé, pareceu-me das coisas mais bonitas do filme de Saura.

Já que falámos na Amália, avia-se já outro dos defeitos do filme, o facto de Amália não ter direito a uma única canção. Convenhamos que era complicado arranjar uma perspectiva pessoal sobre aquele que é o maior ícone do fado, tão ícone que começa a passar, em demasiadas abordagens, por ser pouco mais do que uma caricatura, um cliché do fado. Eu adoro a Amália, conheço-lhe razoavelmente o songbook, extasio-me todo com os discos que gravou nos anos sessenta. E comovi-me com aquelas imagens breves e inéditas de Amália, já envelhecida, e Alain Oulman, às voltas do piano, aprendendo um fado, para um disco que nunca foi editado.
Outro dos defeitos do filme tem a ver com a omnipresença da dança. Suponho que isso tenha a ver com a vontade do realizador de criar uma perspectiva (a tal visão para) e de, sobretudo, ele acreditar que o fado é, de facto, e como foi na sua origem, uma música que se dança. Admito que um ou outro número eram seriam demasiado ilustrativos, mas na sua maioria limitavam-se a ser uma forma, ou várias formas, de dançar o fado.

Aliás esta questão prende-se com outra: este atrevimento de dançar o fado deriva muito do facto de o filme nunca disfarçar que é um olhar estrangeiro, exterior, alienígena. E sabe muito bem olhar para nós através desse outro e alheio olhar. Saura, talvez por ser espanhol, pretende filmar a emoção, no lugar dos habituais pudor e reserva lusas. Mais do que a proverbial melancolia, parece que Saura anda à procura do rasgão emocional que o fado é. E, devo dizer, que em dois ou três momentos, conseguiu-o de facto. Por exemplo, a Cuca Roseta a cantar a Rua do Capelão acompanhada por Mário Pacheco é, pura e simplesmente, sublime.
Tags: cinema
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