miguel (innersmile) wrote,
miguel
innersmile

nessum dorma

Não posso dizer que a morte de Luciano Pavarotti me encha de tristeza. Nunca fui seu fã, ou seja, ele nunca desempenhou um papel importante na minha vida, afectiva, emocional ou intelectualmente.
Mas há duas coisas que me parece interessante sublinhar neste dia da sua morte.

A primeira é que Pavarotti foi das poucas personagens da nossa contemporaneidade que, em vida, ascendeu à categoria de ícone. Pode-se ser uma celebridade, pode-se até ascender ao estatuto de estrela, mas tornar-se um ícone é mesmo só para raríssimos eleitos. Tarefa tanto mais assinalável quanto Pavarotti vem de uma área, a música clássica, a ópera em particular, que está hoje em dia tão arredada da cultura popular que é, como se sabe, o cadinho onde nascem (e morrem também) os deuses maiores e os deuses menores do nosso tempo.

A segunda nota tem precisamente a ver com isso, com a habilidade que Pavarotti sempre demonstrou em fazer o cross-over entre a música erudita e a música popular, sem nunca perder a face, e muito menos a integridade artística. Claro que não foi o único, mas soube fazê-lo sempre de uma maneira especial. Se Domingo e Carreras (que com ele constituíram Os Três Tenores, precisamente o primeiro grupo, no tempos mais recentes, a trazer o canto lírico para os terrenos da canção popular) e outros divos e divas, devem muito da sua popularidade precisamente à capacidade iconográfica de Pavarotti (eu primeiro reconheço a figura e a seguir vou ouvir a música porque reconheço a figura), por outro lado Pavarotti sempre procurou dar aos seus encontros com artistas e formas musicais populares (a famosa série Pavarotti and Friends) uma certo cunho de 'acontecimento', ligando-os a causas humanitárias e mesmo políticas, que não os limitasse à mera estratégia do marketing artístico ou discográfico.

Por estas razões, é impossível ficar alheio à morte daquele que foi um dos símbolos do nosso tempo e sobretudo do valor da cultura no nosso tempo. Apenas por razões intuitivas, não me parece que Pavarotti vá entrar para o Olimpo dos mitos da nossa civilização, como são, para não sair da ópera, Caruso ou a Callas, que perduram, mesmo dissipada a sua imagem física, muitos anos depois das suas mortes. Mas tenho a certeza de que durante muito tempo permanecerá intacta no nosso imaginário, uma certa imagem de um rotundo cantor de barbas, vestindo smoking e segurando um lencinho branco num palco do mundo, ou abrindo um sorriso largo por baixo da aba inclinada de um borsalino branco.
Tags: obituário
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