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princesa

"Segunda, 1 Setembro de 1997
A noite passada, por volta da 1 hora, um automóvel escuro entrou, em grande velocidade, no Túnel D’Alma, na cidade de Paris. Por razões ainda não esclarecidas, o motorista perdeu o controlo da viatura, que, depois de embater num pilar, se desgovernou, chocando com violência na parede lateral do túnel, até se imobilizar, completamente desfeito. Dois dos ocupantes tiveram morte imediata. Um médico, que testemunhou o acidente, acorreu aos destroços da viatura, constatando que uma mulher jovem se encontrava inconsciente, mas viva. Depois de chamar a emergência, prestou os primeiros socorros à jovem. Transportada de urgência para o hospital, foi imediatamente intervencionada, numa tentativa de restabelecer sistemas vitais fortemente afectados. Por volta das 4 da manhã, a jovem entrou em paragem cardíaca e morreu. Tinha 36 anos.
A jovem em questão chamava-se Diana Spencer, Princesa de Gales, ex-mulher de Carlos, o herdeiro da coroa britânica. Casou cedo, conquistando a simpatia dos súbditos de Sua Majestade pela sua beleza e simplicidade. Preocupados com o casamento tardio do príncipe herdeiro, sossegaram a Coroa, o Governo e o Povo com o nascimento, menos de um ano depois, de um filho varão, William a que se seguiu, dois anos depois, o nascimento de um segundo filho, Harry. Estava assegurada a descendência monárquica.
A simpatia conquistada pela princesa, e a rápida sofisticação da sua imagem, tornaram-na numa obsessão popular e mediática. Desde que foi noticiado o seu noivado, nunca mais a princesa abandonou a capa dos jornais e revistas. Todos os seus passos foram seguidos pelas câmaras e objectivas. E Diana, correspondendo a esse interesse, ou fascinada por ele, transformava-se, sempre em frente aos focos dos media, de rapariga simples e tímida em mulher cosmopolita e mundana.
Pouco tempo depois do nascimento de Harry, começaram os problemas da princesa. Carlos, que nunca estivera verdadeiramente apaixonado, perde o interesse pela sua jovem esposa, e, entre os deveres de Estado e os seus interesses de príncipe culto e educado, deixa-a cada vez mais só. A Rainha, preocupada com o mediatismo da princesa, e incomodada com a sua popularidade, decreta-lhe uma guerra surda, cuja arma é, de igual forma, o abandono. Rejeitada pelo marido e isolada pela família deste, Diana sente-se insegura e deprimida. Tem crises de instabilidade emocional, que cura em aventuras românticas passageiras e infelizes. Sempre, mas sempre, debaixo do olhar obsessivo e fascinado, do povo e dos media.
Dez anos depois do casamento do seu filho herdeiro, a Rainha, monarca de sucesso, sente que algo falhou na educação dos seus filhos, cujos casamentos, um a um, acabam por falhar. Vive aquilo a que ela própria chama um “annus horribilis”, com a família devastada, e decide limpar a casa. Permite o divórcio de André, o segundo casamento de Ana, a primogénita, e, mais importante, a separação de Carlos e Diana. E torna a falhar. O saneamento da família lança a Coroa numa crise profunda, quer de popularidade, quer, mais grave, constitucional. E os príncipes de Gales acentuam o falhanço: Carlos entrega-se a um exercício público de indulgência, reabilitando amores antigos e reclamando o direito à felicidade sentimental. Diana está cada vez mais insegura. Sente que, pelos filhos, precisa de ser mais discreta. Mas sabe que a sua única arma, contra a família, são os media e a sua intocável popularidade.
O divórcio, decretado em 1996, apenas aparentemente é uma solução. Na realidade, apenas acentua a crise da Coroa. Realistas, Governo e Igreja lançam-se numa discussão sobre a solução constitucional para garantir a continuidade da monarquia, e nunca chegam a conclusões claras. Diana tenta traçar o seu destino: uma vida pública dedicada à caridade e às causas humanitárias. E reclama o impossível: o direito a ter uma vida privada, longe da sofreguidão dos media. Não sabe, ou não consegue saber, que uma coisa não vai sem a outra. Que não é ela que controla os media, atraindo os holofotes apenas quando isso serve as suas causas, mas precisamente o contrário. Não tem consciência que a chama que ajudou a acender, e que chegou a utilizar como uma arma, não se extingue com o cobertor de uma simples conferência de imprensa.
O desfecho fatal que vitimou a princesa foi trágico e exemplar. A interrupção absurda e violenta da sua vida, a sensação de que ficou alguma coisa por acabar, e de que o seu lugar, na família, no destino da Coroa e no desenho do mundo, é insubstituível, conferem à sua morte um sabor de tragédia. O facto de ter morrido num carro a alta velocidade, a meio de uma noite de sedas e champanhe, acompanhada de um amante milionário, na cidade mais romântica do planeta, entre o regresso de mais uma missão humanitária e uma semana tranquila de férias com os filhos, confere a essa morte uma coerência gelada. Mas o que torna a morte de Diana Spencer absolutamente exemplar é o facto de ter morrido como viveu: perseguida pelos fotógrafos e pelos olhos do mundo, ultrapassado há muito qualquer limite de pudor e sensatez, num fascínio mútuo e mórbido que impôs aos fotógrafos, no local e na hora do acidente, a única acção que ela própria ditou: dispararem as objectivas enquanto a vida abandonava a princesa, captando o momento sublime em que, entre destroços, o mito nascia."

~*~
Escrevi o texto acima há precisamente 10 anos. Lembrei-me dele hoje, depois de a Gaby me ter mandado uma mensagem a lembrar que estávamos juntos nessa manhã de Domingo em que as televisões acordaram com a notícia da morte da princesa Diana.
Reli agora o texto e achei que ele estava publicável, apesar do tom um pouco pomposo, e que reune no essencial aquilo que ainda hoje penso acerca do assunto.
Acrescento apenas um nota. Digo lá em cima que o divórcio de Carlos e Diana não resolveu a terrível crise em que a coroa inglesa estava mergulhada uma década atrás. Curiosamente, ou nem por isso, foi a própria morte de Diana que pôs termo a essa crise, acabando, com a ajuda de Blair e após alguns sobressaltos, como foi muito bem retratado no filme The Queen do Stephen Frears, por reconciliar os súbditos britânicos com a sua Rainha. O que se por um lado dá campo para todas as especulações, por outro não deixa de indiciar que era a própria Diana Spencer a responsável por essa crise, precisamente porque estraçalhou as regras, formais e informais, da relação da coroa com os media. Desaparecida Diana, all is well that ends well.
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