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literatura gay

Li, regressado de férias, o dossier que o Ípsilon de sexta-feira passada organizou sobre a ficção gay portuguesa. E li ainda, à vol d’oiseau, a mini-polémica que atravessou a blogosfera sobre a admissibilidade de uma categoria de ‘literatura gay’. Sobre este aspecto, nada tenho a acrescentar ao que já tenho escrito aqui no innersmile sobre o assunto, a última das quais há pouco mais de um mês. Categorias são categorias, valem pelo modo como são utilizadas, tanto podem ser janelas que se abrem como gavetas que se cerram. Eu gosto de livrarias com estantes dedicadas à literatura gay porque encontro ali agrupados livros sobre um tema que me interessa. Mas tenho a liberdade, que utilizo, de passar os olhos (e os dedos) pelas outras estantes da livraria, por isso, para mim, a categoria ajuda-me a encontrar o que me interessa ao invés de me afastar do que me repele.

Agora o que eu acho é que a maior parte das opiniões contra a utilização de uma categoria de literatura gay reflectem apenas medo e preconceito homofóbicos. Eu percebo que um autor, por questões pessoais, morais ou apenas comerciais, não se queira ver confinado à categoria de ‘escritor gay’. Já não percebo que um leitor se renda a um receio de ser identificado como ‘leitor gay’, só porque lê livros de ‘escritores gay’ ou porque apanhou o livro na estante errada! O que eu quero dizer é que eu posso discordar da categorização se de algum modo preciso de a usar (como autor, como crítico, como investigador, como livreiro, sei lá), mas já me parece puro exercício de ‘gato escondido de rabo de fora’ a veemência das opiniões de quem à partida não tem nada a ganhar ou perder com isso. A isto eu chamo o complexo masculino da pila pequena. O que me parece que incomoda certas pessoas é o receio de que por lerem um livro que entre numa mais ou menos abstracta e mais ou menos arbitrária categoria de ‘literatura gay’ isso possa macular a sua heterossexualidade impante. Querem poder ir à menina da caixa da Fnac com o último livro do Eduardo Pitta sem recearem que os donos da loja lá na França fiquem a achar que eles têm um piquinho a azedo, ou que sejam tipos macios. Que diferença é que lhes faz? Não percebo…

Quanto ao dossier, fiquei um pouco decepcionado, sobretudo porque não me trouxe nenhuma novidade. E a única que me trouxe, mas que eu desconheço se é para levar muito a sério, é que o Frederico Lourenço afirma que se retirou da literatura, o que é uma péssima notícia. Além de não me dar nenhuma novidade (novos autores, novas edições, novas colecções, sei lá), também não me trouxe nenhuma sistematização. A referência aos autores não é exaustiva; sem procurar muito, encontro Olhos de Cão, que Daniel J. Skramesto publicou na Dom Quixote e que é um livro muito interessante, Maças de Adão, de António Pedro, na Campo das Letras e Os Anjos de Gabriel, de Francisco Corrêa, na Verso da Kapa, edições recentes e que passaram e continuam a passar em branco. Tal como não percebo porque é que a Inês Pedrosa (com Nas Tuas Mãos) continua a ficar de fora da lista dos escritores heterossexuais que escreveram sobre personagens e situações homossexuais.
Tenho pena que o artigo seja pouco interessante, porque pelos vistos agitou as águas e, já agora que as agitou, poderíamos ter avançado um bocadinho. Para falar com franqueza, pareceu-me um artigo com pouca investigação e pouca pesquisa. Eu sei que era um mero artigo de jornal, e não um ensaio científico, mas mesmo assim decepcionou-me sobretudo a falta de novidades, aquelas coisas que a gente lê no jornal e fica com vontade de saber mais, de ir procurar, de encomendar a obra, enfim.



edit: transcrevo para aqui um comentário do Zef e a minha resposta, porque parece-me que enriquecem a discussão acerca da admissibilidade da categoria de literatura gay. Vão sem qualquer edição, e por isso com os errps de quem escreve à pressa e não corrige.

- comentário do Zef:
Devo ser das piores pessoas para avaliar certas questões porque me falta sentido prático, mas se compreendo o lado funcional de certo tipo de rotulação, penso que a nossa actuação deveria beber em fontes mais profundas. Um dia ao ler o Vira-pautas do Leavit senti uma dor tão profunda que quis compreender de onde ela vinha. Afinal a minha história pessoal não era marcada em termos de relações de desencantos ou infelicidades então porque sentia tão bem aquela dor que se me tornava insuportável(ao ponto de nem conseguir olhar a capa amarela do livro), como se não fosse apenas minha mas a herança de uma raça por tantos séculos maldita. Então, pesquisei a chamada literatura gay...Li autores portugueses, Olhos de Cão já citado, a trilogia do Frederico Lourenço, e outros não portugueses e fui constatando que mesmo nos livros escritos hoje os amores entre homens parecem todos eles ser condenados à crucificação. Como acontecia no cinema americano em que as personsagens que evidenciavam "desejos gays" estavam fatalmente destinados à morte violenta pela bala ou pelo suicídio ou pelo fogo. Ainda nos falta, parece-me, e fazê-lo artificialmente também não deve resultar, ter uma relação mais integral(quis escrever inteligente, mas pareceria "arrogante") com a nossa identidade. Como Malouf nas Identidades Assassinas escreve há em nós milhares de aspectos que compõem a nossa identidade. Ver Alexis de Yourcenar ou os poemas de Cavafys ou de Botto ou o De Profundis de Oscar Wilde ou o Banquete de Platão ou até um filme como Caravagio do Derek Jarman numa secção gay, não me deixará de parecer algo redutor e apenas funcional. Privilegiar esta forma rápida de organizar os conteúdos diz alguma coisa do modo como vivemos. Penso que estabelecer secções como Literatura Gay é reforçar esse sentimento antigo de que a nossa identidade é sobretudo estabelecida pelo que em nós de alguma maneira escapa à norma esquecendo-nos que estes livros falam de amor, de religião, de abandono, de nostalgia, de cidade, de poesia...

- minha resposta:
mas não tenho dúvidas de que esses livros falam de amor, de deus, de abandono, de cidade, de poesia. mas recusar ver um livro de um autor homossexual, e que, bem entendido, reflita essa condição, não será igualmente alienar uma parte do livro? Cavafys teria escrito aqueles poemas, se não fosse homossexual? Yourcenar teria escolhido falar de Adriano se a homossexualidade não acentuasse a solidão do homem perante o seu destino e a ausência de deus?

durante muito tempo, a minha homossexualidade era um absoluto segredo, o que me impedia de a confrontar com os meus companheiros de jornada humana, não havia ninguém com quem pudesse falar, discutir, dizer uma piada. Durante esses tempos só a literatura, ou sobretudo a literatura, me devolvia a medida dessa minha característica tão importante. só através dela eu podia entender, e entender-me.
claro, isso acontecia nos escritores que mais directamente reflectiam a sua orientação e reflectiam sobre ela. mas de facto todos os escritores que eu soubesse que eram homossexuais me ajudavam nessa 'enquête'. mesmo aqueles em cuja escrita a homossexualidade não passa de um vestígio ou menos que isso (como por exemplo Pessoa). para mim era importante tentar perceber se a homossexualidade de alguma forma 'marcava' determinada escrita, porque para mim era importante tentar perceber como é que a homossexualidade marcava a minha vida.

dou-te um exemplo. por volta dos 19, 20 anos, li o Querelle, do Genet, já não me recordo se antes ou depois de ver o filme do Querelle. foi uma coisa brutal. pela primeira vez eu lia um livro que era marcado por uma determinada maneira de viver o desejo. e pela primeira vez, um livro guiava-me numa viagem interior de tentar descobrir o que era o meu desejo, como é que era a sua erupção. pela primeira vez, e através de um livro, eu tentava perceber o que era o desejo, o que era o meu desejo.

é disso que falo quando falo de literatura gay. de livros que me ajudem a conhecer-me melhor, enquanto homossexual. que não me roubem nada da aventura humana a que tenho direito, mas que de algum modo me ajudem a perceber melhor a minha perpectiva do mundo. não me repugna que esses livros estejam sinalizados, de forma a que eu os encontre mais facilmente. mas, para te falar com franqueza, tanto me faz em que estante é que os arrumam nas livrarias. na verdade, há muitos anos que eu dou com eles, que os descubro, mesmo quando estão escondidos no meio dos outros.
Tags: livros, pitta
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