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regresso

Tinha pensado retomar aqui o innersmile com o poema de Sophia de Mello Breyner O Minotauro («Em Creta / Onde o Minotauro reina / Banhei-me no mar»). Mas não vejo maneira de não começar por falar da tragédia que precisamente assolou a Grécia durante os dias em que estive de férias em Creta. Na segunda-feira passada a maioria das primeiras páginas dos jornais gregos podiam ser percebidas mesmo por quem, como eu, olhava os escaparates dos quiosques sem entender uma palavra do que estava escrito: dezenas, mais de seis dezenas, de fotografias tipo passe de cidadãos anónimos, homens, mulheres, jovens, idosos, crianças, deixavam entrever a dimensão de um flagelo que nós em Portugal conhecemos bem, felizmente sem nunca atingir esta dimensão trágica. Há qualquer coisa de obsceno em nos estarmos a divertir paredes-meias com a dor dos outros. Tomarmos nota disso não é uma forma de limpar a consciência, mas apenas uma tentativa de conter o cinismo fora das nossas emoções.


Um dia destes transcreverei para aqui algumas notas desta viagem a Creta, a minha primeira à Grécia, e que foi, como as outras, claro, divertida, emocionante, e muito muito enriquecedora. Tenho a felicidade, porque não faço nada para ou por isso, de gozar sempre muito as minhas viagens (enfim, a forma pomposa de tentar contornar o gasto 'turismo'), de apreender e saborear as coisas novas que vou provando. Como sou sempre mais contemplativo do que activo, compenso a falta de aventuras excitantes com a tentativa de olhar, de olhar outra vez, de olhar com mais intensidade, de perceber, ou pelo menos de me deixar seduzir e fascinar pelo que não percebo. E por isso, desta como de outras vezes, regresso apaixonado. E com notas e material para ir pondo aqui no diário.


Mas esta entrada é triste e insisto na tristeza. Irei, como disse, pôr aqui mais coisas sobre a viagem. Mas hoje vou transcrever um excerto do que escrevi no meu caderninho de notas na segunda-feira, 27 de Agosto.

"Fui hoje à net pela primeira vez desde que cheguei. Fui só ver o correio e passar os olhos pela meia dúzia de journals e blogs que me fazem mais falta. Descobri que faleceu o poeta Alberto de Lacerda. Que enorme desgosto! Eu gosto muito dos poemas do Alberto de Lacerda, poeta que conheço há imensos anos, mas cuja poesia só nos últimos 3 ou 4 anos li com mais profundidade. Alberto de Lacerda 'dizia-me respeito' a vários níveis, sendo um deles a origem moçambicana (Lacerda era natural da Ilha de Moçambique, 'l’isle joyeuse' sobre a qual escreveu alguns poemas) e outro a ligação a Londres (e ainda um terceiro, apenas intuído, o da orientação sexual).
No Sábado a morte de Eduardo Prado Coelho, hoje a do Alberto de Lacerda. Curiosamente, lembro-me de estar em Singapura quando soube da morte do Mário Cesariny. É um pouco desconcertante estarmos longe de casa quando morre assim alguém cuja morte nos toca. Sobretudo porque a nossa casa é a língua, e é desconcertante saber da morte de um poeta quando estamos longe da casa da sua e da nossa língua. Parece que faltamos à única forma de chorar a morte de um poeta, que é ler-lhe os poemas. Ir a correr segurar os livros dos poemas, é a única coisa que nos oferece consolo e sentido.
Consola-me um pouco saber que hoje algumas pessoas hão-de estar à procura de poemas do Alberto de Lacerda na net, e que grande parte dos que vão encontrar fui eu que os pus on-line. Afinal, desta forma sempre me convoco, mesmo aqui tão distante, para a celebração que é sempre a forma de chorar o poeta."


Fui agora conferir e na segunda-feira o blog À Sombra dos Palmares teve quase cinquenta visitas, mais do dobro do habitual. O contador de visitas indica ainda que a maior parte dos visitantes chegou através dos motores de busca, pesquisando precisamente o nome do Alberto de Lacerda. Para além dos que fui pondo aqui no innersmile, no À Sombra dos Palmares estão 18, o primeiro posto em 15 de Setembro de 2003 e o mais recente 19 de Dezembro passado.

Como tudo faz sentido, mesmo quando não o percebemos ou sequer conseguimos ver, escolho para pôr aqui, no lugar do poema da Sophia com que comecei este texto («Porque pertenço à raça daqueles que mergulham de olhos abertos»), precisamente o primeiro poema do Alberto de Lacerda que apareceu no À Sombra dos Palmares:


«REGRESSO

Não vim à procura de nada
Nem de saudades que não tenho
Nem de carga do tempo perdido
Nem de conflitos sobrenaturais
Do tempo e do espaço

Amei desde criança
Certas coisas que não choro
Fui a pureza deslumbrada que não volta jamais
O vidro sem ranhura que o sol atravessa
A pureza
Que me deixou feridas imortais

Vim para ver
Para ver de novo
Para contemplar sem perguntas
Não vim à procura de nada
Não me perguntem por nada
Um rio não se interroga
O vento não se arrepende.»
Tags: citações, lacerda, viagem
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