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elvis has left the building
rosas
innersmile
Eu tinha um amigo que tinha um escritório de contabilidade em Lisboa. Um dia entrei no seu gabinete e ele perguntou-me se eu sabia o que é que estava a tocar. A mim a espera provoca-me muita ansiedade, ou consigo logo identificar ou o melhor é não pensar mais nisso, por isso desisti quase de imediato. Era o Elvis Presley. Foi um momento definidor, porque raras vezes me senti tão humilhado na vida: como era possível não reconhecer imediatamente a voz inconfundível do Rei, um tipo que eu cresci a ouvir e que acho que nunca houve uma altura na vida que eu tenha passado sem o ouvir! Claro que saí de lá e na primeira oportunidade comprei um cd do Elvis, mais não seja para me redimir de um falhanço tão vergonhoso.

Lembro-me perfeitamente do dia em que o Elvis morreu, faz hoje 30 anos. Lembro-me da casa da Amadora (um andar mobilado perto da estação da CP) onde passei o Verão de 77. Quando me lembro do dia em que o Elvis morreu o que me vem à ideia é a sala de jantar dessa casa na Amadora: a luz velada dos estores castanhos corridos quase até abaixo mas afastados da janela, em pala, a mesa de madeira clara transformada em secretária de utilização comum por todos os da casa (fazíamos as refeições na mesa da cozinha), um aparador com espelho que dava uma certa cintilação precisamente ao canto mais sombrio da sala.

Lembro-me de como a morte entrou na minha vida. Eu teria uns dez, onze anos, e uma amiga da família morreu num desastre de carro num dos cruzamentos mais movimentados da cidade onde então vivia. Lembro-me de muitas vezes estar sentado dentro do carro da minha mãe nas bombas de gasolina junto a esse cruzamento e tentar 'ver' onde estava a morte que naquele mesmo local tinha levado a minha amiga.

Mais ou menos na mesma altura entrou na minha vida a morte mais espectacular, a morte colectiva, das catástrofes. Lembro-me de estar a ler no jornal a notícia de um acidente de avião ("C'est vrai, tout le monde est un peu fou") e de ficar impressionadíssimo com a notícia. Ainda hoje os acidentes de aviação me provocam uma angústia irracional, uma tristeza profunda e desanimadora, não obstante não ter o menor receio de andar de avião. Além disso sempre (mas rigorosamente 'sempre') que ouço, mas sobretudo sempre que leio uma notícia de um desastre de aviação, lembro-me da canção que estava a ouvir, num 45 rpm, nesse momento: «C'est vrai, tout le monde est un peu fou, La vie est belle tout est sens dessus dessous, Quelle histoire, tout le monde est un peu fou, La vie est belle tout est sens dessus dessous».

A terceira vez que a morte entrou decidida na minha vida foi nesse dia de Agosto de 1977. Não porque eu fosse um fã irredutível do Rei, que não era e nunca fui. Ainda havia de dar muitas voltas, e entrar num gabinete de contabilidade, até passar a ouvir tranquilamente e com gozo o Elvis Presley. Mas foi nesse dia que pela primeira vez me tocou a morte de alguém que fazia parte do meu quadro de referências geracional, da categoria de 'ícones e outros mitos'. Acho que de alguma forma comecei a envelhecer nesse dia.
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Dizem que deixamos de ser crianças quando tomamos consciência da nossa mortalidade.

Deve ser isso...

Safa, assim sendo, deixei de ser criança aos cinco anos?! Bom, deixar de ser criança talvez não, mas, envelhecer de certeza que a morte nos envelhece.

Quando era muito muito pequena, tinha tanto tanto medo de morrer que fazia truques para ver se era imortal. Do tipo: se a luz não se apagar á, é porque sou imortal.... lol lol
Hoje tenho mais pena do que medo.
Como diz o Vsco Santana, no fado do estudante: morrer por morrer, que seja a rir!
Beijinho, Miguel!
Madalena

Quando era muito muito pequena, tinha tanto tanto medo de morrer que fazia truques para ver se era imortal. Do tipo: se a luz não se apagar já, é porque sou imortal.... lol lol
Hoje tenho mais pena do que medo.
Como diz o Vsco Santana, no fado do estudante: morrer por morrer, que seja a rir!
Beijinho, Miguel!
Madalena

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