?

Log in

No account? Create an account

Previous Entry Share Next Entry
agualusa: as mulheres do meu pai
rosas
innersmile
A minha leitura nestes cinco dias de férias foi As Mulheres do Meu Pai, de José Eduardo Agualusa. Nunca tinha lido nada do escritor angolano, apesar de ter aqui em casa o livro Nação Crioula e, apesar dos apesares, de ser um escritor recomendadíssimo por meu mestre Saint-Clair.
Bom, adorei o livro! Mas adorei com A grande que, como se sabe, é o A de Amor. Primeiro por causa do humor, um humor malandro, mais à angolano (ou à brasileiro) do que à português. Depois pela mistura de ficção e realidade, já que o livro, quero dizer a história da viagem de Laurentina à procura do seu putativo pai, o músico Faustino Manso, é acompanhado pelas notas que o A. foi tirando numa viagem em tudo parecida com a dos seus protagonistas, e onde supostamente nasceu a ideia do livro. Aliás, o livro tem muitos planos, organiza-se quase como um dossiê, a quem nem faltam explicativas notas de rodapé, algumas delas escritas pelas próprias personagens.
Enquanto matéria romanesca, o livro é divertidíssimo, com personagens fortes e inesquecíveis (que fazem lembrar as poderosas personagens de Jorge Amado, sobretudo as mulheres), uma galeria notável, a que se juntam peripécias rocambolescas umas, mágicas e fantasistas outras, mas sempre muito bem cerzidas no tecido narrativo.
Além disso o livro apresenta-se como um brilhante ensaio sobre a África Austral de hoje, a que sobreviveu ao colonialismo e ao apartheid, às guerras civis, à destruição dos tecidos económicos e à sua substituição pelas economias paralelas da candonga e do safadismo. E ainda à que sobreviveu ao olhar tristonho e desajeitado de Portugal, que nunca soube muito bem o que fazer das colónias quando o eram, e continua a não saber muito bem como lidar com esses países que surgiram no seu lugar.
Tenho de confessar que a parte do livro que mais me comoveu foi a que se passa em Moçambique, nomeadamente em Maputo, em Quelimane e na Ilha de Moçambique. Comoveu-me reconhecer-me tanto nessas páginas do livro, nas histórias, nas referências, nos nomes, até nas citações. Não tanto no poema de Knopfli, mas sobretudo na referência a Jall Sinth Hussein, que é quase nada conhecido mas que é um dos meus poetas preferidos, cujo livro, breve, é uma das minhas bíblias poéticas.
Aliás este aspecto consubstancia muito bem o quanto eu gostei do livro. É um daqueles livros de que gostei tanto que adoraria tê-lo escrito, sinto-o meu, apropriei-me dele. De facto, As Mulheres do Meu Pai já não é bem um livro de José Eduardo Agualusa, escritor angolano, porque já é mais meu do que dele. Quer dizer, pelo menos o meu exemplar, todo sublinhado (a caneta, porque a certa altura faltou-me o lápis), com um mapa no final a imensa família de Faustino. Acho que é isso, o facto de o ter tornado tão meu, que faz do livro de Agualusa um livro tão feliz.

No HTML allowed in subject

 
When you submit the form an invisible reCAPTCHA check will be performed. You must follow the Privacy Policy and Google Terms of use