miguel (innersmile) wrote,
miguel
innersmile

l'ombre de ton ombre

Sou fã número 1 do Camané, e quem lê este diário on line já terá dado por isso. Por isso foi particularmente embaraçoso ler na entrevista que concedeu ao Ípsilon, na Sexta-feira, o cantor a deixar-se enganar na tradução de uma das imagens mais belas e poderosas da canção Ne Me Quitte Pas, traduzindo «l’ombre de ton chien» por 'o ombro do teu cão'. E digo deixar-se enganar porque Camané foi atrás do indesculpável erro de tradução cometido pelo jornalista que o entrevistou.

E é embaraçoso porque, por um lado, o Camané é um cantor com um predomínio absoluto da palavra, uma das suas grandes qualidade é pôr sempre a voz e o modo como a usa ao serviço das palavras que canta, e não, como se vê tanta vez no fado, o contrário, ou seja utilizar as palavras apenas como matéria de exibicionismo vocal. E é embaraçoso porque esta canção de Jacques Brel tem um texto perfeito, cheio de imagens poderosíssimas e avassaladoras da dor amorosa (e esta é uma delas: 'deixa-me tornar a sombra da tua sombra, a sombra da tua mão, a sombra do teu cão') e é de todo inadmissível pensar na hipótese de a cantar sem se saber exactamente o que se está a dizer.

É completamente absurdo o jornal publicar uma peça tão importante, ao ponto de ser a capa do suplemento, sem ninguém competente a ter lido e dado pela asneira. E é uma gaffe jornalística totalmente imperdoável, para mais por parte de um jornalista que é suposto ser especialista na área musical, especialmente na música popular. E neste caso particular que tem um pouco aquele tique que alguns jornalistas possuem de achar que o seu gosto é um pouco o ditame da moda (e o tom com que escreve, na edição de hoje, sobre o concerto de Camané prova isso mesmo).

São asneiras deste quilate que comprometem a credibilidade de um jornal e a qualidade de um jornalista, e que, no caso do Público, se tem infelizmente vindo a tornar comum. Sim, porque o Camané de certeza que sobrevive a este disparate. Eu que o diga, que estou ansioso para que o concerto seja editado em cd, já que as hipóteses de o ver ao vivo são quase nulas.
Tags: bagatelas
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