miguel (innersmile) wrote,
miguel
innersmile

moz07.6

4.4.07

Na Inhaca.
A viagem desde a África do Sul foi, como seria previsível, uma aventura.
Saímos de Malelane às 7 da manhã e chegámos a Komatiport ainda não eram 8. Já muito perto da fronteira os nossos carros (a Hiace e um mini-bus) foram desviados pela polícia para um desvio. Contornámos uma enorme zona vedada, dentro da qual entrámos por um portão que se abriu de propósito para nós passarmos, entre muitas hesitações por parte de um grupo de polícias sul-africanos e moçambicanos. Mais umas voltinhas dentro do recinto e parámos as viaturas num estacionamento junto a um enorme armazém. Pelos visto a fronteira estava demasiado congestionada (muitos turistas sul-africanos brancos e muitos trabalhadores moçambicanos negros a passarem a fronteira para as férias da Páscoa em Moçambique) e, aparentemente, decidiram abrir um posto alfandegário alternativo. O problema é que ainda não estava pronto! Seis mesas dispostas ao longo do armazém, três para o despacho sul-africano e três para o moçambicano. Nas primeiras, computadores à espera que viesse alguém com a password para poderem começar a despachar. Nas segundas, nem sinal dos oficiais da fronteira, que estavam cá fora ‘à espera’. Ao fim de meia hora, apareceu uma rapariga, introduziu a password, fizeram o despacho sul-africano. Nas mesas ao lado, nada. Enquanto isso, duas ou três empregadas de limpeza varriam o recinto e limpavam o pó das mesas.
Durante todo este tempo éramos as únicas pessoas que estavam ali. De repente, começaram a parar carrinhas Hiace umas atrás das outras, todas a abarrotar de gente. Filas enormes junto às secretárias sul-africanas e depois o mar de gente espalhado por todo o lado. Uma das oficiais moçambicanas queixava-se ao telemóvel de que estava muita gente, e um grupo de turistas à espera ‘há mais de duas horas de tempo’. Nós, claro.
Entretanto, chegaram mais oficiais alfandegários moçambicanos com o instrumento necessário para começar a dar o despacho: carimbos! A multidão, verdadeiramente ululante, cerrou com violência em volta das mesas. Um bocado assustador. Mas por cima do tumulto das vozes, o batuque incessante dos carimbos a cair com força no tampo das mesas. Em poucos minutos, uns dez talvez, a multidão dispersou, as Hiaces voltaram a encher-se, e todos desapareceram. Todos? Não, um grupo de valorosos turistas portugueses ainda continuou à espera durante mais um bocado.
A questão é que não tínhamos visto de entrada, e por isso repetiu-se a cena do dia da chegada ao aeroporto. Quando o armazém ainda estava cheio de pessoas, um dos oficiais pegou no nosso molho de passaportes, numa caderneta de vistos e veio para fora do armazém, junto ao cais de descarga, de pé, a usar o cais como secretária, e começou a emitir os vistos.
Finalmente com os vistos emitidos, lá arrancámos em direcção à fronteira, para nova paragem enquanto os nossos motoristas levaram os nossos passaportes para serem carimbados.
Conclusão, saímos de Ressano Garcia já passava das onze, que era a hora a que devíamos estar a embarcar no porto de Maputo.

Foi, até agora, o momento mais emocionante da viagem. O barco para a Inhaca largou do porto de pesca, junto à baixa de Maputo, afastando-se lentamente, atravessando o estuário e entrando na baía. E percorrendo lateralmente a cidade.
É uma cidade lindíssima, de uma beleza que fica muito para além das palavras, porque mora no puro campo das emoções.

Tenho pensado na razão porque me dá tanto prazer identificar a cidade, conhecê-la bem, e acho, apesar de não saber bem definir o que se passa, mas acho que tem sobretudo a ver com a possibilidade de partilhar, de honrar, uma memória que é a dos meus pais. Eles contam-me histórias da cidade e das suas vivências nela. Enche-me de orgulho conhecer a cidade, saber os lugares, como se isso me desse o privilégio de pertencer a uma determinada categoria de pessoas, a um grupo seleccionado, precisamente esse das pessoas que conhecem esta cidade.







Tags: viagem
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