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innersmile

o dia seguinte

Escrevo este texto quando passam poucos minutos das quatro da tarde de 11 de Fevereiro, e ainda decorre o referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez. E faço-o porque me apetece fazer o balanço daquilo que para mim é mais importante neste referendo, sem estar contaminado pela emoção do resultado.
Primeiro o contexto: as campanhas. Do lado de Sim, a campanha pareceu-me rigorosa, exacta, pondo sempre em destaque aquilo que verdadeiramente está em causa neste referendo, que é a despenalização da IVG em determinadas condições. Nada, ou muito pouco, dos exageros do referendo de 98. Paradigmas do Sim, na minha opinião, a escritora Lídia Jorge e o jurista Vital Moreira, que sempre souberam falar com serenidade daquilo que estava aqui em causa, e que era uma questão de direito e de humanismo.
Quanto à campanha do Não, ele reflectiu a imensa contradição de quem acha, e acredito que com sinceridade, que as mulheres que praticam aborto não devem ir para a prisão, mas que é incapaz de ultrapassar o dictat moral, de cariz sobretudo católico, de que o aborto deve ser um crime porque é um pecado. Desta contradição resultou uma campanha hipócrita, manipuladora, em que tudo, do financiamento à ameaça, foi obscuro e decorreu sob o signo do medo.
Esta apreciação do tom das campanhas é importante porque elas traduzem aquilo que, para mim, é o mais importante neste referendo: um verdadeiro teste à maturidade cívica e cultural dos portugueses. Devo confessar que estou pessimista. Acho que a abstenção vai ser superior a 50% e que, em todo o caso, o Não vai ganhar.
Mas se isso acontecer, na minha opinião tal significa que nós, portugueses, ainda não conseguimos pensar pela nossa própria cabeça, e assumir com sentido cívico e de responsabilidade que as decisões importantes da nossa vida somos nós que as tomamos, e não o governo ou a igreja ou os tribunais ou seja quem for. E que só nós estamos em causa e somos chamados à pala pelas consequências dos nossos actos. E que, por isso, numa questão em que a decisão individual se pauta por um estrito critério moral, fazer ou não um aborto apenas a 'mim' diz respeito e só 'eu' serei o julgador da 'minha' decisão.
Se o Não ganhar, significa que nós, portugueses, não nos conseguimos libertar do jugo eclesiástico de que tudo o que não se conforma a um determinado padrão moral imposto, é pecado e como tal deve ser proibido. Mas significa mais, que continuamos a endossar a outros a responsabilidade daquilo que fazemos e daquilo que não conseguimos fazer.
Por isso, para mim, o Não é reaccionário e retrógrado. Significa não um passo atrás, mas a incapacidade de dar um passo em frente. De continuarmos a ser pequenos, medíocres e cobardolas. A optar por tratar da vidinha em vez de viver a vida a sério, de frente, com coragem e ousadia, bebendo o cálice até à última gota.
Se o Sim ganhar, também não significa que somos os melhores, os campeões lá da rua. Significa apenas que estamos a crescer e que, afinal, ainda há lugar para a esperança.

Vou pôr este texto on-line, mas em privado. Mais logo talvez lhe acrescente um edit e ponho-o público.


edit às 20:05: a confirmarem-se as sondagens apresentadas às 20:00 horas, este é, apesar de tudo, apenas o segundo pior resultado possível. Já não é mau. Voltam a ter a palavra os políticos, em particular os deputados. De onde, de resto, ela nunca deveria ter saído.
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