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2 cds: muge e o classic jazz quartet

O poema de Eugénio Lisboa que pus ontem aqui, do belíssimo livro Matéria Intensa, é um dos poemas que Amélia Muge põe em música no seu mais recente disco Não Sou Daqui. Para além das letras que criou, AM canta ainda neste disco poemas de Hélia Correia, António Ramos Rosa e Sophia de Mello Breyner.
Há uma frase num dos textos de AM que compõem o encarte do disco que diz o seguinte: «Simplificar, continuando a convocar o mundo todo é o desafio que se me afigurou ao momento.» Apesar da frase se referir ao projecto da artista de fazer uma trilogia de que este álbum constituiria a primeira peça, apesar disso esta frase tem o condão de definir com rigor este mais recente trabalho de Amélia Muge.
Por um lado, ele percorre diversos 'tipos' de canção popular, convocando formas típicas da música africana, da brasileira, da europeia e, obviamente, da portuguesa, nas suas mais diversas facetas, com especial relevo para a música popular de cariz mais urbano. O fado não só é directamente citado, como fornece contributos e apontamentos a diversas canções, aliás como já acontecia noutros trabalhos da Amélia.
Por outro lado, essa multiplicidade de referências é apresentada com uma depuração ao nível dos arranjos, simplificando, ou talvez mais rigorosamente, reduzindo as canções a estruturas muitos essenciais, não só recusando o excesso ou o enfeito, mas mais do que isso, apresentando-as no osso, criando verdadeiras sínteses do que são essas diversas formas da música popular. E isto, note-se, sem qualquer efeito folclórico, ou mesmo sem trilhar os caminhos mais habituais da chamada world music. Reconhecemos as canções porque lhes interpretamos a identidade, não porque elas se prestem a classificações ou categorias fáceis. Socorro-me para exemplificar ainda do fado, num dos números mais interessantes do disco, a faixa 'Fadunchinho', com poema de Hélia Correia: apesar da ironia do título, trata-se de um verdadeiro fado, essencialíssimo fado, apesar de não haver no arranjo o mais leve traço daquilo que habitualmente reconhecemos como fado. O mesmo se pode dizer para a africanidade contagiante de 'Parece Maio' (pela via Zeca Afonso, no que constitui mais do que uma homenagem, o verdadeiro incorporar de uma influência).
A verdade é que em Amélia Muge tudo faz sentido. Não só é uma talentosíssima compositora e letrista, como é uma profunda conhecedora da canção popular, nomeadamente da música popular portuguesa (tem de se dominar muito bem a linguagem para a poder assim tão naturalmente recriar), detém um sentido rigoroso da palavra e do texto e um conhecimento profundo da poesia portuguesa, é uma intérprete experiente e segura, que usa a voz ao serviço das canções ao invés de utilizar as canções para show-offs vocais, e, finalmente, tem a noção de que a canção sempre será o resultado do concurso de múltiplos talentos pelo que se rodeia de músicos e colaboradores de primeiríssima qualidade. Aliás, neste aspecto parece ser de elementar justiça salientar que o trabalho musical da Amélia Muge (pelo menos todo o que está para cá da composição) é muito e sempre o resultado da verdadeira parceria com António José Martins.
Gosto muito dos dois primeiros discos da Amélia Muge, mas parece-me que este Não Sou Daqui é o seu melhor álbum. Ou então a Amélia Muge é daquelas artistas em que há sempre um desenvolvimento, um crescimento, um percurso, de tal forma que o seu trabalho mais recente resulta sempre no seu melhor.

Quando comecei a escrever este texto a ideia era alinhavar meia dúzia de ideias a propósito do disco de Amélia Muge, para eventualmente voltar a ele mais tarde. Como sempre saiu um lençol! De qualquer forma, quero registar que para além deste disco, tenho ouvido muito um outro cd, verdadeiramente fabuloso: The Classic Jazz Quartet play Rachmaninov. Uma leitura jazzistica do famoso Concerto n.º 2 para Piano e Orquestra, dominada por uma sofisticação e um bom gosto extremos, que nunca usa a referência à peça clássica para criar efeito fácil ou mera ironia, mas verdadeiramente constrói uma leitura nova e autónoma a partir dessa referência. Formam o CJQ dois consagrados, o pianista Kenny Barron e o baixista Ron Carter, acompanhados por Stefon Harris, em vibrafone e marimbas, e Lewis Nash na bateria.
Penso que a prova de que este trabalho acrescenta realmente ao concerto de Rachmaninov, é que nunca paramos de sentir vontade de intercalar as duas audições, a clássica e esta jazzistica, tentando descobrir as pontes, as ligações, mas também, e sobretudo, as fugas, as diversidades, esse espaço de liberdade que sempre está na definição mais essencial do jazz.
Tags: música
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