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the night listener

Quando, aí por meados da década de oitenta, comecei a frequentar as estantes gay & lesbian das livrarias londrinas, um dos nomes mais destacados era o do escritor Armistead Maupin, e as suas Tales of The City. Mas foi só em 1995, numa viagem à Irlanda, que comprei numa livraria de Dublin, creio que o segundo volume da série. Fiquei, é claro, apanhadíssimo, e não descansei enquanto não encomendei todos os restantes volumes (seis, se não estou em erro), bem como os dois livros que Maupin publicou depois de conseguir matar os irresistíveis habitantes de Barbary Lane.
O Armistead Maupin foi um dos primeiros escritores assumidamente gays que eu li, e devo-lhe, para além do enorme prazer da leitura dos seus livros, o facto de eu ter de alguma forma criado um gosto e até uma certa atenção por aquilo a que, para facilitar, podemos chamar de literatura gay.
O segundo dos dois livros pós-Tales of the City (e que estão cá editados, acho que com o título Histórias da Cidade) foi The Night Listener, baseado num acontecimento real da vida do escritor, e que foi a sua amizade com um jovem doente de sida, de 14 anos, vítima de uma rede pedófila, que publicou um livro relatando a sua arrepiante experiência. Curiosamente eu já tinha lido esse livro, A Rock and A Hard Place, que encontrei inexplicavelmente à venda em Coimbra, e já o tinha lido sem saber que ele estava ligado a Maupin, que foi um dos principais impulsionadores da sua publicação.
Aparece agora em filme a versão cinematográfica de The Night Listener, com um surpreendentemente dramático Robin Williams a fazer o papel de Gabriel Noone, a personagem que representa Maupin nesta ficcionalização desta história, e a sempre fabulosa Toni Collette a fazer o papel de Donna, a mulher que recuperou e adoptou o rapaz doente.
O filme é bastante sombrio, mais do que ideia que eu tinha do livro de Maupin (que foi co-autor do argumento), mas isso talvez seja porque eu gosto tanto da escrita leve e escorreita do Maupin, que o leio sempre de uma forma muito lúdica.
Omito aqui todo o sentido da história do livro, e do filme, porque neste caso, como noutros, o segredo é a alma do negócio, mas posso adiantar que a trama da história gira toda à volta da possibilidade de estarmos perante um embuste literário. Mas o filme é mais do que isso, e utiliza com bastante sentido melodramático a situação do livro e do seu autor como contraponto catártico da crise na sua vida pessoal porque está a passar a personagem de Williams: até que ponto a crise emocional nos pode fragilizar de forma a que procuremos determinadas compensações que podem de alguma forma pôr em causa o sentido da realidade. Ou seja, até que ponto a erosão sentimental nos torna vulneráveis ao ponto de procurarmos consolo em qualquer forma de ilusão?
Tags: cinema
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