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(no subject)
rosas
innersmile

Uma das poucas vezes em que o innersmile foi objecto de insultos, foi há uns dois anos, talvez, a propósito de uma entrada a comentar um concerto da Mariza. Nessa entrada, reconhecendo as suas qualidades, eu frisava aquilo que não gosto na Mariza, e as razões porque acho que ela não é uma boa fadista. O tom geral dos comentários era que vivemos num país de invejosos e que o desporto nacional é dizer mal de quem tem sucesso. A maior parte desses comentários foram feitos bastante tempo depois de a entrada estar on-line, e eram anónimos, e eu supus que quem os fazia era pessoal que chegava aqui através de motores de busca. Ora, como o innersmile é para eu me divertir, e não me diverte nada insultar e ser insultado, pus a entrada em privado, e acabaram-se os comentários.
Isto para dizer que não me apetece muito voltar ao assunto, mas a verdade é que tudo o que tem acontecido desde essa época para cá, comprova que a Mariza é um dos nossos produtos culturais de maior sucesso, nomeadamente na exportação, o que deve agradar em particular ao primeiro-ministro, que gosta tanto das exportações. Felizmente temos tido alguns destes produtos de sucesso na área cultural, o que é bom, não só por causa do pib, mas também porque a nossa afirmação no mundo, enquanto nação, também passa pela nossa capacidade de impor aos outros a marca da nossa cultura.
Mas dito isto, reafirmo tudo o que pensava da Mariza enquanto cantora (que usa as canções ao serviço da voz e não o contrário, que não tem a preocupação de ter uma dicção perfeita, o que é lastimável quando estamos a falar do fado, e que cultiva uma imagem, mesmo uma pose, que chega a ser irritante de tão composta e certa), e ainda acrescento que o desenvolvimento da sua carreira acentuou uma colagem ao mito e à iconografia de Amália Rodrigues.
Claro que temos sempre a alternativa de sermos cínicos, achando que Mariza pretende explorar os dividendos dessa colagem em termos de sucesso, sobretudo no estrangeiro, ou ingénuos, achando que se trata de uma sentida homenagem ao nome da Amália. E a verdade deverá, provavelmente, estar algures entre as duas hipóteses.
Também sei que deve ser muito difícil para uma cantora de fados escapar inteiramente à sombra que o mito de Amália projecta, mas a verdade é que há exemplos de que isso é possível, e com a maior qualidade e interesse.
Por tudo isto, não sou fã da Mariza, apesar de gostar muito de fado, e de ter um sentido crítico bastante compassivo. Reconheço que tem gerido muito bem a carreira e que se conseguiu impor, independentemente dos apoios que possa ou não ter. Reconheço a importância que a sua projecção fora do país tem, e ainda bem que a tem. Mas não curto. Acho que não há genuinidade na sua prestação fadista. E, como se sabe, ser genuíno faz parte da própria definição de fado.   



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Decididamente!Tu és o meu guru!...
Acabaste de dizer aquilo que eu sempre senti e nunca soube o que era (e isto é fado).

tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é fado

Subscrevo o que tu dizes e acrescentaria, que é uma pena que seja a Mariza a dar essa projecção, fora do país e mesmo dentro do país.

não acho que seja uma pena a Mariza dar projecção ao país. até porque não sei se outras cantoras, até por serem mais puristas e seminais, conseguissem fazer o cross over para os estrangeiros.
estou convencido que para se ter uma carreira internacional é preciso ter o produto certo, um profundo sentido do marketing, e uma dose razoável de sorte, nomeadamente nos amigos.

Se o que interessa é que se dê projecção ao país. Aposto em como alguns latino-americanos não gostam que a única projecção de relevo, fora do seu país, seja "iconografada", somente pela Jennifer Lopez, Cristina Aguillera, etc. Por cá, continuo a gostar mais dos Madredeus.

o que me aborrece neste sucesso internacional da mariza, não é propriamente o sucesso dela, mas o facto de não haver mais nenhum fadista que faça o mesmo que ela. ela projecta-se no mundo, procurou uma editora internacional e vende o seu peixe mundo fora sem se ralar com o que por cá se diz.
mas depois, olhamos À volta e o que vemos? vemos a cristina branco, que praticamente começou a carreira fora de portugal e só depois é que passou a ser conhecida cá e temos também uma qualquer de cantou uma música dos roling stones em jeito de faduxo, ou seja, uma patetada! internacionalmente, há muito poucos fadistas a mostrarem-se e a venderem-se internacionalmente.
ou seja, se já a amália conseguiu, se os madredeus também conseguiram (e não são fado, mas transportam muito daquilo que torna o nosso fado apetecível) e se a mariza agora também consegue, porque raio é que n há mais fadistas a fazerem-no? eu ás vezes até tenho a impressão que não acham muita piada à internacionalização (e aqui refiro-me a grande parte das bandas e músicos portuguesas) e ficam no seu canto À espera que os ouçam...
é que se há coisa que só nós é que temos é fadistas (de todas as formas e feitios) e ainda por cima são bons! se há coisa que se deve exportar e publicitar lá fora, a nível cultural, é o fado! porque é nosso, porque dá uma boa imagem de nós (e se estiverem todos tão bem vestidos como a mariza, melhor ainda) e porque é único e comercialmente apetecível noutros mercados.

conmcordo que as editoras deviam apostar muito no fado. há muita apetência lá fora, e há um belo naipe de cantores/as com um óptimo nível de qualidade. e, como dizes, é um tipo de música que só nós é que fazemos.
sabes que eu fiqueo muito surpreendido (até falei nisso aqui no lj) quando saiu o último cd da Lila Downs, fui ao site da editora e eles na apresentação do disco salientavam, como uma coisa importante e uma referência, o facto de a canção rancheira ser 'aparentada' ao fado. fiquei surpreendido porque foi das raras vezes que vi o fado ser tomado assim como factor de referência.

Sabes, meu amigo, é que nem só de pão vive o homem.

há qualquer coisa de contraditório em ser fadista (aliás "cantadeira de fados" como ela se auto-intitula) e ter ganho prémio "personalidade do ano" 2004 atribuida pelos leitores da Lux...
Sei lá... teria achado mais natural que tivesse sido pelos leitores da tv guia
Mas ... lá está... que os deuses lhe reservem muitos aplausos aqui e além.
:)

ora bem, ela não nos envergonha em nada, por isso só temos mesmo é de desejar que tenha muito sucesso.

Eu acho que a Mariza é muito pouco fadista,como aliás o são essas novas caras (femininas) do fado.Não sou radical ao ponto de dizer que quem canta o fado tem de ter voz de bagaço e ar de quem já passou as passinhas do Algarve, mas pelo menos, que saiba emprestar esse sentimento aos fados que canta. Mísia, qq coisa Bobone, Mafalda Arnault, nenhuma delas me convence porque acham que precisam de muito mais para terem crédito: ou uma franjinha radical, ou um penteado loiro e rente, que poderiam ser indiferentes se não fossem considerados imagens de marca, que as definem como fadistas.
São poucas as mulheres que gosto de ouvir no fado. Em relação aos mais recentes fadistas,destaco o Camané.
A Mariza também nunca me convenceu.

Estranho mesmo é o facto de NUNCA me ter comovido com nehum fado cantado pela Mariza, sejam os clássicos que Amália cantava sejam os novos; há uma lisura ginchona que nâo me comove e que até me irrita.

E eu a pensar que era das poucas pessoas a ter esta opinião... Afinal, quase que se pode criar um movimento!
É inegável que a Marisa tem uma grande voz (aliás, é uma atleta da voz ao nível de uma Celine Dion) mas como interprete está muito longe de ser fadista. E para se perceber o que é isto de ser fadista, basta ouvir o Carlos do Carmo, o Camané ou a Amália (até uma determinada idade) para se compreender que cantar o fado é a cantar a palavra e para se cantar a palavra, é essencial uma boa dicção para que o poeta seja respeitado.
Quanto ao facto de ser ela a nossa representante lá fora... hum... temos de ver isto um pouco como os vinhos Casal Garcia ou o Mateus Rosé: nós sabemos que há melhor, mas se eles gostam, porque não continuar a exportá-lo? É importante é que saibam situar Portugal no mapa, para que no futuro outras portas se abram.

Concordo contigo... há certas obras por detrás das quais sinto mais um estudo de mercado que a sensibilidade do autor. Não desdenhando do talento da moça - que o tem -, incomoda-me, no trabalho dela, um certo feeling de postal para turistas ingleses.

Prefiro a Aldina Duarte, o Camané ou a Kátia Guerreiro (mas sobretudo, muito sobretudo, a Aldina Duarte). Vem de dentro para fora e não o contrário.

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