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transe

Em Transe Teresa Villaverde filma os caminhos da escravatura e do tráfico humano que atravessam a Europa actual, mas fá-lo com um olhar seco e cru que recusa o grafismo fácil das cenas chocantes, mas nunca se satisfaz com o implícito ou o subtil. É, por isso, um filme fortíssimo, em que a câmara da realizadora nunca desvia o olhar do rosto da personagem, procurando perceber nele a incandescência humana que possa sobreviver para lá do transe do título. E quando dizemos que o olhar persegue o rosto da personagem, estamos a dizer, obviamente, que é o rosto da actriz, Ana Moreira, que serve de mapa nessa busca febril e angustiante pelo osso a que, em condições extremas, se reduzem as emoções.
Transe nunca é um filme panfletário ou de denúncia, mas ao mostrar a aflição que, em trânsito e em estado de transe, atira a personagem de Sónia para o limiar da humilhação e, consequentemente, da dignidade humana, não deixa de provocar um arrepio de horror nas nossas consciências confortáveis.
Quem conhece o cinema de Teresa Villaverde, e, chamemos-lhe assim por mera comodidade, a corrente cinematográfica em que se insere, sabe que esse cinema não é descritivo, antes procura descobrir no próprio poder do plano um sentido e uma verdade. Parece-me, apesar disso, que na primeira hora o filme se perde demasiado numa contemplação paisagística que, percebendo-se embora o objectivo e o valor simbólico, retira eficácia à narrativa.

Tags: cinema
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