miguel (innersmile) wrote,
miguel
innersmile

I want to feel sunlight on my face

Até chorei. Palavra. Quer dizer, não desatei a chorar como uma Maria Madalena, mas pronto!, fiquei todo comovido e com os olhos rasos de água. E 3-três-3 vezes. A primeira com o One, a segunda com o Satellite of Love cantado em tele-dueto com o Lou Reed e a terceira com Where The Streets Have No Name. Não é que sejam as minhas canções preferidas, mas acho que foi nesses três momentos em que eu me consegui transportar para um longínquo Sábado de Maio do ano de 1993.
Estou a falar, claro, de Zoo TV, o dvd com a gravação do concerto ao vivo dos U2, registado em Sidney, em Novembro de 93, no término da digressão que passou por Lisboa no dia 15 de Maio desse ano.
Eu acho que não faz nenhum sentido escolher o melhor concerto que um tipo viu na vida. Normalmente, quando um concerto é muito bom e nos enche o papinho, saímos dele sempre convencidos que foi um dos melhores que vimos. Mas esse concerto dos U2 foi muito especial. Porque eu nunca tinha visto nada do mesmo calibre em termos de aparato lumino-técnico (há que tempos que não ouvia falar neste termo, desapareceu do nosso vocabulário), e diga-se a verdade que vi muitos poucos outros depois. Depois porque toda a parafernália de luz e som e imagem não era puramente para 'épater le bourgeois', para deslumbrar as hostes (embora também fosse para isso, é claro), mas tinha um sentido, qual fosse o de fazer um comentário à explosão e à saturação da imagem, sobretudo televisiva, no domínio comunicacional. O mundo era um lugar estranho nesses princípios da década de noventa (é sempre, como é óbvio), com o desabar do mundo dividido que sempre tínhamos conhecido e a emergência de uma nova ordem mundial, e os U2 comentavam igualmente essa estranheza.
Depois porque com Achtung Baby e principalmente com Zooropa (gravado e editado durante a digressão), os U2 estavam a operar mais uma alteração no tipo (ou, se calhar com mais propriedade, no conceito) de música que faziam, regressando à Europa, à nova Europa que resultou do fim do Muro e dos regimes de leste, mas ao mesmo tempo anunciando o tempo da cultura global. Não tanto ‘musica do mundo’, talvez mais música do fim do mundo, ou do mundo que está para vir.

Quando olhamos para as coisas à distância dos anos, sobretudo para aquelas que vivemos com maior intensidade, temos sempre a sensação nostálgica de que havia ali qualquer coisa que se perdeu. Naturalmente, a única coisa que se perdeu foi aquilo que nós próprios perdemos, e a inocência é a primeira vítima do tempo. Por isso, muito provavelmente, a razão porque me comovi ao ver o dvd do concerto do U2 em Alvalade é porque me lembrei, não tanto das emoções que senti quando estava a assistir ao vivo ao concerto, mas do tipo que estava aos pulos nas bancadas do estádio, a olhar embasbacado para as luzes, e de como já faz um certo tempo que não estou com ele.
Tags: música
Subscribe
  • Post a new comment

    Error

    default userpic
    When you submit the form an invisible reCAPTCHA check will be performed.
    You must follow the Privacy Policy and Google Terms of use.
  • 13 comments