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united 93

A primeira nota a propósito do United 93, é que me comovi muito com o filme. O que serve para dizer que não consigo ter nenhuma distância, analítica ou crítica, em relação a ele. E para dizer ainda que não é fácil organizar um discurso sobre ele.
Além disso, não é possível olhar para este filme como um puro objecto cinematográfico, ou seja abstraindo da realidade que o insufla. De facto, e é isso que é radicalmente assombroso no 11 de Setembro, continuamos a olhar para as imagens, mesmo para estas imagens ‘artificiais’, encenadas, de um filme, e a sensação de incredulidade permanece intacta, a sensação de que estamos a viver um momento que fica muito para além de tudo o que somos capazes de percepcionar ou imaginar. É este, na minha opinião, o poder dominante, e transformante, do 11 de Setembro: somos capazes de imaginar um tsunami que provoca milhares de mortos, somos capazes de imaginar um terramoto devastador, somos até capazes de imaginar uma chuva de meteoritos que dizima a espécie. Mas não somos capazes de imaginar um avião comercial a entrar por um arranha-céus cheio de escritórios. Porquê? Talvez porque o 11 de Setembro seja uma tragédia puramente humana, é ele próprio fruto da criação humana, é uma construção espiritual, é o resultado da nossa capacidade intelectual e do desenvolvimento tecnológico que conseguimos imprimir. É, em suma, um produto da civilização, daquilo a que estamos habituados a ver como avanço e como progresso. O 11 de Setembro não é, nesse sentido, catastrófico, não resulta de uma excepcional conjugação de factores. É, pelo contrário, de uma banalidade essa sim assustadora. Nada podia ser mais corriqueiro: um grupo de tipos entra a bordo de um avião de uma carreira comercial, e em vez de desembarcar 4 ou 5 horas depois, como todos já fizemos dezenas de vezes, em assuntos tão quotidianos como o trabalho ou a família, em vez disso, esbarram-se contra um edifício de escritórios onde há milhares de pessoas tão banais como eles, a tratar da sua vidinha quotidiana. ‘Isto’, esta rotina, que julgávamos ser a essência da nossa vida moderna, é afinal uma arma mortífera, de destruição maciça.

Como se vê, é impossível falar do filme sem a realidade dominar por completo a equação. De qualquer forma, vale a pena tentar. O filme divide-se claramente em duas partes. Na primeira, assistimos ao instalar da crise. Ao modo alarmante como de um momento para o outro, um passo de cada vez, se instala o caos e a desorientação. Cá está, de novo, a imensa fragilidade da nossa civilização quotidiana. Ao mesmo tempo, vamos assistindo, quase como se de uma reportagem se tratasse, às operações normais a bordo do voo United 93, esse repetir de rotinas, de gestos banais, a conversa de circunstância, os procedimentos normais de segurança (que ironia), a refeição ligeira. A segunda parte do filme começa com o momento em que o avião é sequestrado, e é dominada sobretudo com o processo de percepção do que se está a passar por parte dos passageiros e com a sua tentativa de tomar o comando do avião.
Esta divisão não é vã, e corresponde a uma das teorias do filme, a de que os passageiros do voo United 93 foram as primeiras pessoas que viveram (no que isso tem de pró-activo, ou seja, perceber a realidade e tomar decisões) na época pós-11 de Setembro. O que aconteceu a bordo daquele avião, aconteceu porque, escassos minutos antes, tinha acontecido o 11 de Setembro, isto é, tinha havido dois aviões de carreira comercial que tinham embatido contra duas das maiores torres de escritórios do mundo.
Esta tese é importante para o filme, porque de certo modo reabilita os passageiros do avião como protagonistas de um momento histórico, resgatando-os do olvido, uma vez que o 11 de Setembro foi, do ponto de vista iconográfico mas também, e mais importante, do ponto de vista cultural, dominado pelo desastre do World Trade Center.
Esta circunstância de o filme ter uma tese, uma mensagem, que pretende passar, pode constituir, afinal, o ponto de partida para reconhecer ao filme importância enquanto tal. Não estamos perante um mero documentário noticioso, que se limita a reportar, de forma mais ou menos objectiva, um conjunto de factos. Ao contrário, trata-se de um filme, de uma obra de arte com autoria. Alguém fez este filme porque achava que tinha alguma coisa a dizer. Havia uma história que era preciso contar. É este o sentido do filme, é isto que o resgata enquanto filme.
Alguém tem uma história para contar. A partir deste momento, podemos, mais serenamente, olhar para o filme. Perceber se a história está bem contada, perceber a linguagem, os recursos narrativos, que o realizador utilizou para contar a sua história.
Tags: cinema
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